segunda-feira, 6 de março de 2017

AUTOBIOGRAFIA DESAUTORIZADA XXXI


Em mil novecentos e noventa e cinco eu viajei para a França. Minha mulher recebeu uma bolsa de estudos da CAPES para fazer doutorado e eu aproveitei a oportunidade e voei para lá. Antes fiz um curso de um semestre na Aliança Francesa. Um semestre nos ensina frases simples com verbos regulares conjugados no presente do indicativo. Suficiente para falar “índio quer apito” e outras frases com algum significado para nós, sem nenhum sentido para eles. Nessa confusão de significados e sentidos vamos levando nossas primeiras incursões em uma nova língua, em outro país. A vantagem de aprender a língua lá na origem, onde você é obrigado a falar de qualquer maneira para ser minimamente compreendido, é que esse distanciamento entre significado e sentido vai diminuindo mais rápido que aprender a língua deles na nossa terra.

Eu cheguei em Paris em novembro, fui morar em Montigny le Bretonneux a pouco mais de vinte quilômetros da capital, frio começando, folhas caindo me apresentando o clima e a paisagem outonal, linda, coração cheio de ansiedade pelas novidades a acontecer a partir de então. E surgiu uma greve geral no país que paralisou, por um mês, toda a rede de transporte. Fiquei em casa e aproveitei para fazer um curso de francês através de fitas de áudio, exercícios e leituras. Confesso que  foi muito proveitoso. Ao mesmo tempo comecei um curso gratuito no centro cultural da cidade, quinhentos metros de minha nova casa, duas vezes por semana, e tinha colegas estrangeiros: duas nigerianas, duas chinesas. As nigerianas eram donas de casa esposas de diplomatas, as chinesas estavam lá para trabalhar em restaurantes chineses. E eu, também “dono de casa”. Ainda sem ocupação, eu cuidava da casa e levava e buscava os filhos, recém chegados comigo, à escola. Esse curso de francês para estrangeiros era conduzido por uma jovem professora (só muito tempo depois descobri que ela era portuguesa, ou filha de portugueses e falava nossa língua) e duas senhoras voluntárias. Era à base da conversação cotidiana com pouca escrita e leitura, porém muito interessante.

Aos poucos fui descobrindo um mundo de coisas. Conheci uma brasileira, sozinha, que ficou muito amiga nossa e nos ajudava naquelas coisas necessárias para o funcionamento da casa: ajudou a abrir uma conta no banco, a relacionar com comerciantes, a conhecer pessoas interessantes, etc. Na escola das crianças conheci uma outra mulher brasileira, casada com um homem francês e a ajuda que essa mulher nos deu foi grandiosa. Ela nos apresentou uma associação humanitária, chamada Secours Catholique, e eles nos ofereceram camas, mesas, uma geladeira usada, uma máquina de lavar roupa usada, roupas de inverno, etc. Isso fez com que nossa entrada na vida à la française fosse muito tranquila. E essa amiga brasileira, de Montes Claros, norte de Minas Gerais, me apresentou à sua rede de amigas brasileiras com nacionalidade francesa (uma vez casadas com homens franceses) e elas sempre me convidavam para seus encontros e festas porque eu dançava samba e salsa com elas, trazendo-lhes lembranças de seus tempos de Brasil. Assim descobri uma rede de mulheres brasileiras que moravam lá havia muito tempo e tinham família francesa, trabalhavam e quase não tinham oportunidade de conversar em português a não ser quando se reuniam. E passaram a me convidar para suas festas. Eu era, então, o único homem brasileiro das festas e reuniões. Com isso eu aprendi muito rápido as coisas do cotidiano francês, o que me colocava em vantagem com relação a outros brasileiros que chegam no exterior sem uma bagagem de conhecimento dos sentidos das linguagens, orais e gestuais. E um deles me deu uma bicicleta de corrida que tenho comigo até hoje.

Algumas cenas curiosas eu vivi também. Eu cheguei à França logo depois da explosão de uma bomba em um trem, na estação de Saint Michel, ao lado da catedral de Notre Damme, que matou muita gente e causou consternação nacional. Havia muita vigilância nas linhas de trem e metrô e eu era constantemente parado para averiguação de documentos. Nada constrangedor, eu aceitava a vistoria com um sorriso e, quando eles verificavam minha nacionalidade brasileira conversavam animadamente. Em princípio, me julgavam de origem árabe.

Esta “aparência” árabe me colocou em algumas situações inusitadas. Uma vez, em um restaurante universitário estilo bandeijão, uma senhoria que servia comida, verificando que eu escolhera carne de porco (muçulmanos não comem carne de porco), avisou-me muito delicadamente: - senhor, isso é carne de porco. – sim, eu respondi. – o senhor come carne de porco? – como sim, respondi sem entender em princípio. Só quando cheguei à mesa compreendi que ela pensou que eu fosse muçulmano como ela era.

Uma segunda ocorrência, essa bem agradável, aconteceu quando fomos jantar em um restaurante árabe, ao lado de uma mesquita em Paris, bastante cheio, e rapidamente o garçom nos ofereceu uma mesa na melhor posição da casa. Para isso ele deslocou um grupo de rapazes que bebiam alegremente. Saíram sem perguntas. Assim que nos posicionamos na mesa ele começou a conversar em árabe conosco. Eu respondi em francês, - desculpe, não falamos árabe. – mas vocês não são franceses! – não, somos brasileiros. Ele deu um sorriso cordial e nos atendeu maravilhosamente bem.

Nos cursos visando o doutorado eu tive três colegas árabes, dois argelinos e um marroquino. Sempre nos demos bem e almoçávamos juntos e conversamos muito, era meio natural essa aproximação. Só no final do curso eles ficaram sabendo que eu não era árabe. Um deles me disse: - a nossa indagação sempre foi de onde você era. Se marroquino, argelino, egípcio ou do sul da Espanha. Seu sotaque não nos indicava claramente suas origens. E nunca imaginamos que fosse brasileiro. Penso que por isso um deles me pediu três mil francos (mais ou menos quinhentos euros) emprestado e nunca me pagou.


Nos primeiros meses na França, entre novembro de mil novecentos e noventa e cinco e fevereiro do ano seguinte eu ficava estudando em casa o curso para estrangeiros oferecido pela prefeitura de Montigny, fazendo passeios pela redondeza, conhecendo os lugares, fazendo compras e assistindo programas culinários na TV. Os programas me ensinavam como falar os nomes de verduras, legumes, carnes e utensílios culinários que me ajudavam nessa tarefa que eu tinha, a cozinha. A partir de fevereiro comecei um curso de francês para estrangeiros em Paris, mais profissional e muito bom e meu progresso foi muito rápido. Mas continuava a questão de falar frases com significado para mim, mas sem sentido para os franceses. Eu sabia disso pois não entendia as piadas dos programas humorísticos de televisão. E eu me lembro da primeira vez que ri de uma piada, bem idiota por sinal, mas era o indicador mais preciso de que eu havia entrado na língua e na cultura francesa. Foi um dia bem feliz.