sábado, 21 de janeiro de 2017

AUTOBIOGRAFIA DESAUTORIZADA XXX


Volto a escrever seguindo uma cronologia aleatória, não posso me furtar a pensamentos e lembranças que vem à minha mente. Sei que a memória é uma construção contínua, amanhã posso não me lembrar dos fatos que estou me lembrando agora, ou me lembrarei de uma forma diferente, como se os fatos mudassem à medida que os tempos do relógio se mostrassem diferentes, à medida que vamos acrescentando informações, mesmo que estas novas informações pareçam ser indiferentes ao fato que queremos narrar, não sei. Sei que cada vez que contamos uma história contamos diferente.

Certa vez li uma reportagem sobre uma cidade da Europa, cidade pequena, em uma vale cercado de montanhas, cujos casas tinham telhados de pedras azuis. Telhados de pedra em cidadezinhas europeias são comuns, telhados de pedras azuis, como ardósias, não são comuns. Eu me encantei com as fotos, parecia uma cidade conhecida, onde eu poderia ter passado, então à noite sonhei que estava andando pelas ruas daquela cidade da foto, encantado com os telhados de pedras azuis. Nada de mais, salvo que dias ou meses mais tarde eu contava uma história, real, acontecida comigo, e disse a meus interlocutores que a história se passava em uma cidade de casas com telhados de pedras azuis. Parei assustado no meio da história, mom dieu, não é verdade, estarei mentindo? Inconscientemente? Por isso digo que escrever uma autobiografia pode ser uma empreitada perigosa e sei lá se minhas lembranças são totalmente reais ou se tem fatos acrescentados de sonhos, de visões, ou de invenções. Insisto, então, que minha autobiografia é desautorizada. Amanhã posso entrar em juízo contra o autor, perdas e danos por contar mentiras a meu respeito.

A minha história de hoje é verídica, por enquanto. Eu tinha uns quarenta anos quando conheci uma mulher interessante. Inteligente, madura, cheia de histórias de vida, um olhar ativo e altivo, carinhosa. De oitenta anos. Não dei muita bola, porque duas pessoas me apresentaram a ela: uma de quem eu gosto muito (até hoje) e outra de quem eu não gostava muito na época. Então fiquei dividido: gosto ou não gosto dela? O tempo optou pelo “gosto dela”. E nos tornamos amigos. Ela tinha filhos insanos, estranhamente arrogantes, como se sentissem as melhores pessoas do mundo e tivessem sido traídos pelo andar da carruagem, pelos acontecimentos políticos. A família tinha sido altamente beneficiada pelos tempos de ditadura, que findaram um dia, e as benesses às quais eles estavam acostumados sumiram do quartel, mas eles não tiraram o pelotão do quartel, esperando que um dia, que não veio, as coisas voltassem aos eixos, eixos deles. Um ser dessa família se indignava sempre que seus filhos não conseguiram vagas em boas universidades, nem bons empregos, etc.
Essas são histórias paralelas, não me interessam. Quero escrever sobre minha amiga de quarenta anos mais que eu. Ela gostou de mim e sempre pedia minha presença em sua casa. Eu a visitava de vez em quando e levava livros para ela ler, ela gostava de ler, principalmente de poesia, algumas ela recitava de cor, aquelas parnasianas de sua juventude. Então me animei a levar poesias minhas para ela ler. Para minha surpresa ela gostou de meus poemas e os lia sempre e os lia para os amigos.

Mas o tempo passou, vinte anos depois e ela estava centenária e, obvio, não tinha mais o mesmo brilho, nem a mesma lucidez, apenas a mesma fleuma. Depois dos noventa anos ficava quase o tempo todo na cama, sob cuidados de terceiros. A família, seus filhos e netos insanos, cuidavam dela como se cuida de bebês travessos, sem vontades, como se fosse um problema a ser escondido no armário. Nunca mais saíram com ela, nem a puseram em uma cadeira de rodas para passear. Eu a peguei uma vez no colo e a levei para dar uma volta de carro e isso quase deu história. Eu soube que ela sempre pedia que ligassem para mim, mas sempre pedia àquela pessoa que não gostava de mim e o recado sempre chegava com muito atraso. Mas sempre que eu a visitava ela se alegrava. Um detalhe dos encontros é que ela, em sua cama, sempre me beijava nos lábios. Loucura? Pode ser. Hoje imagino que era uma fantasia de uma pessoa que, quando jovem, vinte e poucos anos, foi molestada (porque sou gentil com ele?) por um senhor e teve que se casar com seu molestador porque dele se engravidou, e com quem teve outros dois filhos. E algumas pessoas a julgavam uma mulher má, pois quando esse marido envelheceu e precisou de cuidados especiais ela o tratou mal. Maldade? Vingança? Tudo pode ser, mas eu a perdoo.  

O fato é que ela me beijava sempre que eu chegava e saia da beirada de sua cama. Eu o fazia meio sem jeito no começo, depois comecei a esconder o carinho das outras pessoas que por acaso estivessem no recinto, para não provocar celeumas. Mas celeumas aparecem. Surgem do nada. Como no dia em que ela estava hospitalizada e não se lembrava de ninguém, nem mesmo dos filhos, octogenários todos eles. Eu cheguei, me aproximei, beijei-a escondendo o rosto dela com minhas costas largas, comecei a conversar com ela e ela se lembrou de mim, e falou meu nome e continuou sem lembrar dos outros. E seus olhos brilharam quando eu disse que a levaria para ver o carnaval (estava próximo do carnaval). Então ela me disse que a última vez que saiu de casa foi aquela em que eu a peguei no colo e a levei para ver a decoração de natal na Pampulha. Quase dez anos antes.

Um dia ela me disse que estava chegando ao fim e que eu não voltasse mais. Não voltei, embora tivesse notícia de que ela teria me chamado algumas vezes, e pedido para telefonar para mim, as pessoas de sua proximidade pensavam que estava delirando. Claro que estava. Os recados chegaram depois de sua morte, ao cento e dois anos. Aí eles diziam: Paulo, como ela gostava de você.

Algumas pessoas me definem como mulherengo. E algumas pessoas muito próximas. Eu concordo. Escrevi e li poesias para uma mulher de cem anos. Que me beijava nos lábios. E que se sentia feliz quando me via. E que se lembrava de mim quando não se lembrava de mais ninguém. Os detratores dirão que não perdoo nem as velhinhas. Mas se alguém perguntar se eu tive um amor sincero eu direi: sim, eu tive. Felizmente, mais de um.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

QUESTÃO DE PRINCÍPIO


"Eu pensava que vivia com você por fraqueza minha, hoje eu sei que vivo com você por uma questão de princípio." - Essa é uma grande mudança. E eu imaginava que fosse por amor. 

NOVOS TEMPOS, NOVO HOMEM


Existem certos tipos de homens que não se adaptam aos novos tempos. O mundo muda muito rápido, numa velocidade difícil de ser acompanhada, colocando tudo numa roda viva impossível de ser acompanhada por aqueles que são lentos, que pensam duas vezes para agir, que tem um senso de história e de justiça que não se enquadra nos limites da arrogância que se vê nas ruas, nas comunidades e nos seios das famílias. Esses homens não tem mais serventia alguma no mundo de hoje, não sabem nem mesmo mostrar à suas mulheres o quanto as amam. Não sabem como mostrar aos jovens o quanto estão errados, um pouco por saberem que cada um faz sua história e precisam errar sozinhos para aprenderem. Eu reconheço alguns assim e não há nada que fazer, não há nada que podemos nos dizer uns aos outros. Cabe-nos apenas nos retirarmos do cenário, sabendo que não caberemos em lugar algum no mundo de hoje. Recolhermos à nossa insignificância.

BRICOLAGENS LITERÁRIAS VII


Muito interessante as três regrinhas básicas para se chegar ao sucesso na carreira, segundo Fábio Paiva e Fernando Jucá, autores do livro O Executivo que Gostava de Ler. Simples e diretas, resumem brilhantemente o que muitos autores escrevem sobre regras para o sucesso. Segundo os autores acima, as pessoas que "chegam lá" reúnem três características fundamentais:

1 - elas cultivam um sonho de longo prazo. Mesmo que não o atinjam, a perseguição desse sonho dá sentido à suas carreiras;

2 - sempre tem uma missão clara. Mais conectada ao curto prazo ela se renova periodicamente. A missão explicita a existência de um objetivo definido, e o profissional sabe como atingi-lo.

3 - elas transbordam energia, manifestada por suas fantásticas e incríveis vontades de tentar, de buscar e de aprender.

Fantástico, não?

BRICOLAGENS LITERÁRIAS VI


Extratos de leitura do livro "O executivo que gostava de ler", de Fábio Paiva e Fernando Jucá (ed. Nobel, 2009).

1 - "Um dos motivos pelos quais o jogo da inovação é tão interessante: é preciso ardentemente buscar o novo, o desconhecido. Ao mesmo tempo, é preciso respeitar o que o consumidor já conhece, que é sempre uma ponte para ele entender a inovação". 
Ou seja, todo processo de criação parte de algum lugar já conhecido. Os teóricos da aprendizagem já diziam isso um século atrás.

2 - "Para inovar de verdade é preciso entender e gostar profundamente de gente, respeitando a individualidade. Quando isso acontece, a técnica se torna complementar ao processo, mas, paradoxalmente, ainda mais relevante para o seu resultado, porque passa a estar a serviço das pessoas". 

As duas citações são dos autores acima.

BRICOLAGENS LITERÁRIAS V


Extratos de leitura do livro "O executivo que gostava de ler", de Fábio Paiva e Fernando Jucá (ed. Nobel, 2009).

a) "Para conseguir resultados através das pessoas, qualquer um de nós precisa conhecer e saber usar suas emoções, e não fugir delas, o que seria um caminho mais curto para o inferno" (Paiva e Jucá).

b) "Talvez um lunático seja uma minoria de um" (George Orwell, 1984).

c) "Não há nada mais difícil de reproduzir em literatura do que um homem que pensa" (Robert Musil, O homem sem qualidades).

BRICOLAGENS LITERÁRIAS IV


Extratos de leitura do livro "O executivo que gostava de ler", de Fábio Paiva e Fernando Jucá (ed. Nobel, 2009).

i - "A verdadeira viagem do descobrimento não consiste em ver novas paisagens, mas sim em ver com novos olhos" (Marcel Proust).

ii - "Fazemos o que sentimos, depois dizemos o que pensamos" (Paiva e Jucá).

iii - Que símbolos devemos criar, ou inventar, ou nos apegar para ser a nossa chave de participação no mundo, para nos ajudar a contar quem somos, o que queremos, de que gostamos e com quem queremos nos relacionar? (depois da leitura dos autores acima e de Ítalo Calvino, As cidades invisíveis).

BRICOLAGENS LITERÁRIAS III


Extratos de leitura do livro "O executivo que gostava de ler", de Fábio Paiva e Fernando Jucá (ed. Nobel, 2009).

Mais alguns extratos interessantes:
1- "O verdadeiro mistério do mundo é o visível, nunca o invisível" (Oscar Wilde, O retrato de Dorian Gray).

2 - "Alguns artifícios que usamos para aumentar nossa autoconfiança, motivação e perseverança podem nos tornar também batente míopes e até um pouco ridículos quando perdemos a noção do outro e a humildade de nos interessar pela opinião alheia" (Paiva e Jucá).

3 - "Reconhecer-se no espelho... Sou eu e não sou eu. Estou aqui e estou ali representado em imagem. Que avanço fantástico da inteligência" (Paiva e Jucá). 

BRICOLAGENS LITERÁRIAS II


Extratos de leitura do livro "O executivo que gostava de ler", de Fábio Paiva e Fernando Jucá (ed. Nobel, 2009).

Paul Valéry - "A meditação é um vício solitário que cava no aborrecimento um buraco negro que a tolice vem preencher". Radical, o poeta? Nem tanto se pensarmos nos significados da palavra reflexão
De um lado reflexão é um questionamento profundo sobre os acontecimentos da vida. Por outro lado, essa mesma palavra tem um significado diferente na Física, se referindo à mudança de direção da luz que se propaga em um meio. Não nos esqueçamos deste segundo significado.
"Não devemos refletir para cavar um buraco, mas para mudar a direção d nossa luz: não para nos entristecer ou sofrer, mas para sermos felizes de um modo mais completo e verdadeiro, iluminando as pessoas à nossa volta" (dos autores do livro citado acima)

BRICOLAGENS LITERÁRIAS I


Extratos de leitura do livro "O executivo que gostava de ler", de Fábio Paiva e Fernando Jucá (ed. Nobel, 2009).

1 - Para uma pessoa conseguir ser mais completa e bem sucedida, três tarefas são fundamentais:
     a) conhecer e encarar nossos traços mais sombrios;
     b) saber separar o que são nossas máscaras daquilo que é realmente parte essencial de nossa identidade;
     c) saber mergulhar no nosso mundo interno.
Mais resumidamente ainda: entender nossos traços sombrios, nossas máscaras e dialogar com nossa alma. 

UFA. 

PENSAMENTOS VETORIAIS


Os pensamentos veem da mente ou veem para a mente?  Se eles tem direção e sentido poderiam ser grandezas vetoriais? Ou eles nem são grandezas? São objetos imateriais? Tem alguma possível classificação, ou são tão abstratos que nem podemos lhes auferir uma existência? E se não existem porque pensamos tanto?

INSPIRAÇÃO


Na respiração tudo nasce e morre: na inspiração nasce a obra de Arte, que já pode estar morta na expiração. 

SINÉDOQUE


Meu ecodopplercardiograma mostra uma sinédoque de minha alma: funciona bem mas não se pode afirmar que está tudo bem. Sou uma sinédoque de mim mesmo ao me compreender pelas metades.

FRASES 1


Em minha ínsula a prosódia é parte fundamental da comunicação.

THE CLASSROOM IS DEAD



"Point is, the classroom is a dead end. The classroom is a mausoleum. The classroom is an outdated husk, and the classroom must be destroyed. Yes: The classroom of the future is no classroom at all" (Eli Horowitz - https://medium.com/bright/the-classroom-is-dead-18986bcf5fb0#.yqed8411g). 

EROTISMO


"Como definir o erotismo de um homem (ou de uma época) que vê a sedução feminina concentrada no meio do corpo, no umbigo?" (Milan Kundera, A festa da insignificância). Simples, é o erotismo do equilíbrio, da completude (eu).