domingo, 16 de outubro de 2016

AUTOBIOGRAFIA DESAUTORIZADA XXVIII


Escrevo essa página de minha autobiografia em um dia dedicado aos professores: quinze de outubro, considerado o dia do professor. Eu exerci este ofício durante quarenta e três anos e ainda hoje sou convidado para proferir palestras e ministrar oficinas para professores e alunos, e me pergunto: um professor aposentado ainda é professor? A resposta é sim. Entrou no sangue e agora faz parte do DNA.

Ainda me lembro do primeiro dia. Escrevi sobre isso em algum lugar anterior, mas não custa relembrar para introduzir a questão nesta narrativa. Eram cinco horas do entardecer de um dia de fevereiro do ano de mil novecentos e setenta e um (eu tinha dezoito anos), eu estava de calções pretos, sem camisa e de kichutes, no centro do campo de futebol, posição que eu jogava, suado, quando um carro para à beira do campo, desce uma mulher morena e bela, de óculos escuros e saias curtas. Ela me chama pelo nome. Eu a conhecia, ela havia sido minha professora em algum tempo de ensino médio e era amiga de minha namorada na época. Claro que a turma de futebolistas assobiou, gracejou e brincou comigo. Aproximando de minha acenadora, fui logo ouvindo: Tome um banho rápido pois preciso de você para dar aulas de matemática na escola que eu dirijo, em Rio Acima (MG). Eu? Sim, você mesmo. A primeira aula é as dezenove horas e temos uma pequena viagem a fazer (uns quinze quilômetros entre minha casa e a escola na cidade vizinha, por uma estrada de terra, na época). E foi assim que eu deixei de ser um jogador de futebol mediano e tornei-me professor. Em todos esses anos apenas uma vez tentei exercer outra profissão. Tentativa que durou oito meses. Quase sem perceber fui retornando à sala de aula.

Lembro-me também da última vez. Também fevereiro, dois mil e quatorze. Sem pompa, sem despedidas. Aquela retirada quase invisível, sem avisar a quase ninguém. Nos últimos anos de trabalho fui me acostumando à ideia de parar e tornei-me o mais transparente possível para não ser percebido na instituição em que trabalhava. Missão bem sucedida. Ninguém percebeu que eu me afastava. Descobri, tristemente, que ambiente de trabalho, como uma instituição de ensino, não é ambiente que favorece amizades. As vaidades e individualidades são enormes e ultrapassam e escondem o trabalho coletivo. Os amigos que ficaram são alguns alunos. Dois anos depois voltei à escola e encontrei nos corredores um ex-colega de trabalho. Ele se dirigiu a mim e perguntou porque eu havia sumido. Aposentei-me, disse. Verdade? Eu não sabia. E o assunto caminhou para amenidades.

A ideia de transparência está ligada ao desapego. Para fazer outras coisas na vida eu necessitava me desligar da profissão, do cotidiano das escolas, da proximidade emocional dos alunos. Faço outras coisas na vida, mas atuo como voluntário, em outras escolas, ajudando professores e alunos em seus projetos. Sinto-me bem com isso.

Tenho muitos episódios e histórias interessantes vividas nesse tempo de trabalho. Iniciarei com um episódio que talvez tenha sido o primeiro caso marcante em minha vida profissional e que me ajudou a definir algumas condutas pedagógicas. Em mil novecentos e setenta e cinco eu trabalhava como professor de Física de turmas do terceiro ano do Ensino Médio do Colégio Padre Machado, na Savassi, avenida Contorno, Belo Horizonte. Uma das turmas era extremamente interessante, instigadora, com alunos inteligentes e revolucionários. Esses alunos incentivaram-me a unir a dois outros professores: Eci, professor de Matemática, e Sebastião, professor de História, igualmente revolucionários. (Sebastião tornou-se uma figura pública, ligado a uma ong conhecida; de Eci não tenho notícias). Começamos a fazer um trabalho pedagógico diferenciado com esses exigentes alunos que se tornavam cada vez mais revolucionários, questionadores dos métodos de outros professores e da própria escola. Dois antigos professores da escola (Pudim, de Química, e Peninha*, de Matemática, seus apelidos) fizeram uma campanha devastadora contra nós três. Lembro-me de uma reunião de professores, convocada pela diretoria sob pressão dos dois, em que nós três fomos colocados no paredão de fuzilamento, na berlinda, para ser mais suave, e os dois professores citados até babavam de raiva. Defendemo-nos da melhor maneira possível, Eci e Sebastião eram ótimos argumentadores mas, ao final do ano fomos demitidos. Eu tinha vinte e dois anos. Conseguimos implantar algumas ideias nos alunos, eles fizeram a cobrança no ano seguinte. E os dois professores raivosos ficaram na história da escola como responsáveis pelas mudanças pedagógicas implementadas nos discursos e nas práticas dos professores e diretores. Copiadas de nós, é claro. Assim é a vida.

Hoje, quando perguntam minha profissão, ainda respondo: sou professor. Escondo que sou aposentado. Onde trabalha? Na escola da vida.


* Esclarecimento: esse Peninha não é meu querido amigo Carlos Afonso, com o mesmo apelido, também professor de Matemática, mas na UFMG, recentemente falecido.