sábado, 30 de julho de 2016

AUTOBIOGRAFIA DESAUTORIZADA XXIV


No meio do caminho entre minha casa, no bairro Cabeceiras, na época considerado a beirada do fim do mundo, terra de estranhezas e de pobrezas, e o centro da cidade, tinha uma venda. Venda de bairro, dessas que vendia de um tudo, na verdade o que mais se vendia era a cerveja, a cachaça da boa (?) e tira-gostos bem preparados. Como o dono da venda parecia ser um sujeito de bem, a casa estava sempre cheia de gente. O que me chamava a atenção, no entanto, era uma foto na prateleira da venda. Uma mocinha sorridente, bela, um sorriso de flor em desabrocho. Todos os dias interrompia minha caminhada vigorosa a rumo de casa, vigorosa porque minhas recomendações eram de não perder tempo na rua, a rua como um depositário de más companhias e de provocações à mente e à alma de um jovem mancebo. Eu nem me lembro que idade tinha, uns quatorze, quinze anos, a libido começando a fazer parte de minha biografia, e tinha aquele sorriso particular na prateleira da venda. 

Se não fosse a timidez escandalosa eu entraria e pediria que me apresentassem à proprietária daquele sorriso, certamente ela me receberia com alegria, ninguém com aquele sorriso tornado público pelo próprio pai seria indelicada e deselegante com um jovem admirador. Aquele era, no entanto, meu trajeto cotidiano, às vezes mais de uma vez por dia, ia e vinha entre minha casa e outras atividades como trabalho e escola, certamente um dia coincidiria que aquele sorriso pudesse se encontrar com minha boca aberta de espanto e admiração, meu queixo caído. O tempo passou e a esperada coincidência veio de uma forma melhor ainda que eu pudesse esperar. As aulas começaram no primeiro ano do científico no Colégio Estadual e lá estava ela, só que tinham duas turmas de primeiro ano, uma voltada para estudos em Ciências Físicas, onde eu me matriculei, e ela na turma que privilegiava os estudos em Ciências Biológicas. 

Se chegamos a conversar nos intervalos, não me lembro. Ela vivia cercada de rapazes e moças, como imaginava era uma pessoa alegre e querida pelas pessoas em volta, as chances de me aproximar continuavam as mesmas de quando era apenas um sorriso em uma foto na parede da venda. Aliás, a foto continuava lá, só não causava mais a mesma sensação, uma vez que eu era conhecedor da dona do sorriso, ao vivo, na escola noturna. E porque eu não me aproximava? Aí entra aquele espírito de cão vira-lata, pobre e feio que eu tinha de mim mesmo. Essa foi a pior herança que meus pais me deram, difícil de largar ao longo da vida. Nem sei se de vez em quando este espírito maligno ainda não baixa em mim. E a escandalosa timidez, que nem timidez era, eu sei, era mesmo o espírito de cão, que se transformava , vez ou outra, em cão chupando manga: terrível.

O fato é que a moça crescia diante de meus olhos, eu comecei a namorar outras moças e nem pensava mais nela. Porque ao namorar as moças das proximidades eu entrei em outro mundo que muito me agradou: o mundo das mulheres. As interessadas em me namorar se aproximavam, algumas me pediam em namoro, percebi logo que eu não era feio e o espírito de cão na chuva foi se dissipando aos poucos. E sempre que eu ia aos bailes na cidade e cidades vizinhas eu encontrava moças interessadas em dançar comigo (não que eu fosse bom dançarino, até hoje não sou) ou ficar comigo. E aquela moça do sorriso sempre saia e namorava exatamente meus desafetos diretos ou indiretos, o que servia como uma barreira natural entre nós.

Mais tarde, no terceiro ano do ensino médio, essa aproximação aconteceu naturalmente. O vestibular passou a ser unificado, o número de alunos se reduziu, não havia razão para a existência de duas turmas, passamos a estudar na mesma classe. E como éramos os que morávamos mais longe do colégio era natural acontecer de irmos juntos no caminho até em casa. E veio a necessidade de estudar para o vestibular que se aproximava, até passamos a estudar juntos, era comum ela ir à minha casa para passar uma matéria, resolver uns problemas de matemática, meu forte, ou de biologia, forte dela. O mesmo destino que nos aproximou nos afastou, passamos no tal vestibular, entramos para a universidade em faculdades diferentes, ela continuava a namorar meus desafetos, casou-se com uma figura legal, casou-se depois com outro, exatamente com a representação de pessoas de uma classe social da cidade que eu, se não detestava, pelo menos ignorava solenemente. Só a amizade ficou, apesar de tudo, sempre que eu a vejo, raras vezes, ela tem sempre aquele mesmo sorriso da garota da foto na prateleira da venda. Não era a mesma garota, claro, era apenas o mesmo sorriso, e as mesmas lembranças de minha juventude.