quarta-feira, 22 de junho de 2016

AUTOBIOGRAFIA DESAUTORIZADA XXII


Quero dar um passo atrás, como um caranguejo, para narrar mais um pouco sobre os garotos da Vila da Cemig, nós que morávamos naquele espaço chamado subestação, totalmente cercado de arames altos e com uma placa no portão onde se lia: “Atenção, alta tensão, perigo de morte”. Perigo de morte e éramos quatro famílias, cheias de crianças, a morar no interior desse aramado. Torres altas, fios eletrificados a cento e quarenta e quatro mil volts de tensão, transformadores, painéis com sensores a indicar dados a serem transmitidos para outras subestações, via rádio, Os quatro pais das quatro famílias eram os funcionários do local e se revezavam no trabalho em horários alternados. Um ambiente técnico, responsável pela distribuição de energia elétrica na cidade de Nova Lima e cidades vizinhas, e a pergunta que sempre faço é o quanto esse ambiente marcou nossas vidas. Posso não ter a resposta definitiva, talvez as respostas sejam muitas, diversificadas e fragmentadas, certamente cada um de nós tem respostas diferentes, o fato é que nós crescemos naquele meio que nos isolava do mundo, de certa forma, e nos dava uma liberdade que não teríamos se crescêssemos em outros lugares.

Eu era o mais velho dos jovens, adorava futebol, então organizamos um espaço para o jogo, ajudados por um dos patriarcas que também adorava futebol e jogou o esporte bretão até mais de sessenta anos, enquanto aguentou. Na hora de dividir a turma para o racha, era eu para um lado e Santiago (o senhor) para o outro. Jogamos futebol juntos por mais de dez anos e nunca jogamos no mesmo time: era eu num time, ele sempre adversário. Quem mais ganhou, não sei. Sempre dependíamos da boa vontade dos outros em participar da pelada. E tinha uns que faziam hora, fingiam não gostar do jogo para negociar, talvez, sua participação. Com um meu irmão, por exemplo, eu deveria brincar de outras brincadeiras que ele gostava para ter sua presença no campo. Depois ele foi para o seminário, aí vieram outros meninos ganhando corpo e manha com a bolinha. Alguns se tornaram bons jogadores, divertimos muito.

Mas o que me move nesta narrativa é o que aquele ambiente significava para nós? Significava espaço, brincadeiras variadas, confusão e barulho em tempestades, porque o mal tempo provocava distúrbios nas instalações técnicas locais. Transformadores explodiam de vez em quando, arregalavam nossos olhos de crianças, e nos dava assunto para o dia seguinte em nossas reuniões para brincadeiras. As brincadeiras mais animadas eram descer o morro em nossos carrinhos de rolimã, soltar pipas que chamávamos de papagaio, na verdade, papagaios esses que nós mesmos fazíamos com folhas de papeis coloridos, brincar de pega-pega, de esconde-esconde, de contar histórias, de pular corda, de equilibrar em cima dos muros, de correr atrás de vacas e bois segurando o rabo deles, de equilibrar em cima de carreteis enormes descendo o morro, de subir na caixa d’água (uns trinta metros de altura, nossos pais só ficaram sabendo quando nós, adultos, resolvemos contar) e nadar nela, escondido dos pais, lógico.

Nem tudo era brincadeira, evidentemente, porque meus pais exigiam também que estudássemos para termos notas boas, e trabalhar na horta para termos alimentos saudáveis para todos. E nisso meus velhos eram exigentes. Deu certo pelo menos. Poucos meninos moradores externos a nosso condomínio se arriscavam a entrar pelo portão da cerca, devido à placa. “Perigo de morte” não é um aviso a ser desrespeitado. Só alguns que nos viam e nos acompanhavam para a escola sabiam que o perigo era supervalorizado na placa, mas se nós morávamos lá dentro eles podiam nos visitar de vez em quando. E havia o campo de futebol, terreno aplainado por nós em tamanho de uma quadra de futebol de salão, cinco para cada lado, dois times no campo e um ou dois na espera, quinze minutos ou dois gols, o time perdedor saía e ia para a espera. E de vez em quando colocávamos uma rede no meio e jogávamos vôlei. Mas a nossa praia era o futebol. E as meninas nos acompanhavam em várias brincadeiras, algumas até mesmo no futebol.


Quanto às questões técnicas sabíamos que nossos pais eram operadores eletricistas daquele pedaço, crescemos com uma noção básica de eletricidade, alguns se tornaram técnicos e/ou engenheiros, eu me tornei físico, outros artesãos, e muitos viradores. Quer dizer, deixa que eu chuto e ainda corro para cabecear. E todos temos muitas histórias para quando nos reunimos em torno de uma mesa regada a cerveja e petiscos, com muita contação de causos. Essa vida plena em nossa infância nos marcou profundamente. E não temos medo de trovão, nem de tempestade. Thor mora em nossos corações e os deuses das chuvas e das descargas elétricas nos protegem. Para sempre, espero.

sexta-feira, 10 de junho de 2016

AUTOBIOGRAFIA DESAUTORIZADA XXI


Eu não tive uma vida de estudante muito movimentada, como outros estudantes contemporâneos. Meu tempo era muito curto para tudo que eu tinha vontade de fazer. Eu era um caboclo de interior, protegido pela família que, de repente, se vê largado no mundo. Além de frequentar a universidade, estudar o mínimo para obter boas notas, eu tinha que trabalhar. Não tinha mesada, pelo menos não me era cobrada ajuda financeira em casa. Eu não teria dado conta. Eu gostava do curso, Física, mas não era daqueles ratos de laboratório, nem de biblioteca. Fazia o mínimo. Dava aulas em colégios de ensino médio, tinham outro nome na época, mas como escrevo hoje para leitores de hoje, fica nominado assim mesmo: ensino médio. Comecei em duas escolas estaduais em Rio Acima (MG), e uma escola estadual em Nova Lima (MG). Dava aulas de Física, Matemática e Desenho Geométrico. Depois comecei em uma escola do Sindicato dos Hidrelétricos, o sindicado dos funcionários da Cemig, empresa em que meu pai trabalhava. Aliás, foi ele quem me arrumou esse trabalho. Gostei de lá. Tinha uma amiga legal lá, professora de Português, cujo nome era Maria da Luz (creio), apelidada Malu. Mais velha que eu, mas nos dávamos muito bem. Ela me acompanhava pela cidade de BH, poderíamos ter namorado, mas eu tinha uma namorada que me ocupava todos os fins de semana. Era ingênuo, só bem mais tarde caiu a ficha de que a Malu se interessava por mim. Nunca mais a vi. Incrível como isso acontece tantas vezes em nossa vida. Pessoas que um dia amamos e que desaparecem sem deixar vestígio. Confesso que a culpa é minha. Creio que eu as abandono.

Depois comecei a dar aulas em um colégio no bairro Padre Eustáquio, em Belo Horizonte, no Colégio Padre Machado e no Izabela Hendrix. Nesses dois últimos tive experiências marcantes. Um tanto negativa no primeiro e muito positiva no segundo. No Izabela Hendrix vivi histórias interessantes. Namorei duas alunas e uma professora. Quase ao mesmo tempo. Com a professora, de Física, tive um relacionamento muito interessante. Nos dávamos muito bem, éramos muito amigos e procurávamos estar sempre juntos. Descobrimos que éramos melhor amigos que namorados e passamos a ser apenas amigos. E durou. Até quando fui para a França, muitos anos depois. Escrevíamos cartas bem alegres e engraçadas, mostrando nosso lado bem humorado. Depois as cartas sumiram. Totalmente. Quando voltei eu a procurei. Não encontrei. Algum tempo depois fiquei sabendo que tinha falecido. De câncer. Fiquei muito bravo com ela. Morreu e não me avisou. Eu não conhecia sua família, então não houve, certamente, como me avisar. Sua família não me conhecia, sequer sabia de minha existência. E amigos em comum também não tínhamos. Mais uma perdida na passarela do tempo.

Eu sempre jantava no restaurante escola de Engenharia. Era perto de minha moradia. Lá conheci várias pessoas, fiz muitos amigos. Alguns eram militantes políticos. Lembrem-se, era ditadura militar e a vigilância aos estudantes era muito pesada. Tive amigos e colegas que foram presos, outros morreram. Eu não participava muito, estudava, trabalhava e tinha uma namorada em Rio Acima, onde passava os fins de semana. Esta era, é ainda, uma cidade pequena, com belos lugares para passear, com pessoas amigas e também conversadeiras sobre a vida alheia. Era uma vidinha descansada, às vezes boa, às vezes monótona. Vivi bons momentos lá, casei-me com essa namorada assim que me formei, um dos meus equívocos grandiosos. Tive uma filha e um filho. Amo os dois. A ex-mulher é mais uma que sumiu de minha vida, hoje a vejo de vez em quando porque somos avós dos mesmo netos. Nos tempos de estudante eu a via nos fins de semana, no meio de semana estávamos em cidades diferentes, eu aproveitava sua ausência para curtir outras mulheres.

O que eu mais gostava de fazer nesses tempos era ir ao cinema, mais de uma vez por semana. Eu conhecia filmes, atores, diretores, diretores de fotografia, roteiristas, tudo que dizia respeito a meus filmes favoritos. Alguns nome me vem à cabeça: Caubói da Meia Noite, Easy Rider, Alice’s Restaurant, A Hora e a Vez de Augusto Matraga (assisti esse várias vezes), Deus e o Diabo na Terra do Sol e outros filmes de Glauber Rocha. Claro, tinha também as chanchadas brasileiras, onde vimos as primeiras cenas de nudez no cinema brasileiro.  Éramos cabeças inteligentes mas assistíamos tudo. O fato de morar no centro de BH, na Rua dos Caetés número cem, me facilitava a vida. Era perto de tudo que eu fazia, não perdia tempo em transporte (baita saudade), restaurantes do centro funcionavam vinte e quatro horas, alguns deles, a vida cultural acontecia ao lado, as notícias desencontradas de desaparecidos políticos chegavam até nós.


Mas eu queria mesmo era namorar. A memória me traz as visagens dessas moças, mas não me lembro do nome de muitas delas. Perderam-se no túnel quântico da vida. Algumas eu procuro hoje nas mídias sociais. Fico surpreso como algumas desapareceram mesmo, viraram fumaça interativa, em outros lugares. Não sei onde. Quem sabe um dia ainda as encontro? Encontrei tantas pessoas depois de tanto tempo. Como sabemos, a Internet não trouxe nenhuma novidade do ponto de vista comunicacional, apenas tecnológico e emocional. Minha narrativa chegará até lá, espero. Ainda bem que não estou autorizado a escrevê-la. Escrevo de teimoso. E curioso.