quarta-feira, 25 de maio de 2016

AUTOBIOGRAFIA DESAUTORIZADA XX


Já que fiquei devendo devo narrar algumas das muitas aventuras do Zé Luiz “Siqueira”, um colega de faculdade morador do mesmo hotel em que repousava minha juventude, nos tempos de estudante universitário. Como escrevi antes, o Zé Luiz começou a fazer aulas de karatê numa escola em frente ao hotel em que habitávamos, o Hotel Belo Horizonte, um dos primeiros de BH, inexistente hoje (em seu lugar tem um estacionamento de um banco). Umas três vezes por semana ele tinha aulas e o karatê passou a integrar seu modo de vida. Ficou tão entusiasmado que não só imitava a fala do japonês seu instrutor como apropriou-se de algumas delas em seu vocabulário. De repente, Zé Luiz, um metro de quarenta e cinco de altura, negro, conversava com sotaque japonês, sem mais nem menos, em mesa de bar ou em sala de aula de Física Geral ou Cálculo Diferencial e Integral. Para risos de muitos e nervosismo do dito cujo.

Uma bela noite enluarada, depois de sessão de cinema na Rua Curitiba, em uma sala onde se passava filmes artísticos, hoje inexistente, claro, caminhávamos para casa, e o “Siqueira” ficou intrigado com uma sombra que nos perseguia e crescia atrás de nós. De repente a sombra dá um salto, como se fosse nos atacar, e o Zé Luiz vira-se para trás em um salto, faz uma pose de lutador de karatê e dá um berro daqueles. Eu e o dono da sombra quase morremos de susto. Esse apenas descia a rua tranquilamente atrás de nós, aproximava-se porque caminhava mais rápido e repentinamente dá um pequeno salto simplesmente para tapear uma placa de uma loja. Brincadeira de quem está tranquilo caminhando na rua a caminho de casa. O carinha, um moleque novinho, cai no chão de susto e pede pelamordedeus, não faça nada comigo, eu não fiz nada. E eu caí na gargalhada. Ele também, claro, não se conteve.

Uma outra aventura de Zé Luiz foi mais bizarra e engraçada ainda. Nosso amigo gostava de frequentar casas de prostitutas. Para tirar a água do joelho, era a frase jargão da época para uma transa com prostituta. E lá se foi o Zé Luiz, junto com um amigo conterrâneo, morador da mesma cidade no interior de Minas, para casa da Zezé, um bordel que ficava na Avenida Francisco Sales com Avenida Assis Chateaubriand, na Floresta, um endereço para lá de nobre para um prostíbulo. E era bem frequentado o local. Eu mesmo já havia visitado o local quando ainda morador em Nova Lima, estudante de Ensino Médio, menor de idade, levado por um de meus professores, pasmem. Voltando ao Zé Luiz, ele afirmava que seu amigo era ainda jovem e nunca havia transado na vida, ele estava lá para tirar o “cabaço”, gíria da época para virgindade. O Zé Luiz deu a maior força ao amigo, incentivo, motivação e tudo, vai lá camarada e mostra que é macho, pois em nossa cidade não tem desse vacilo, não, ou você mete hoje ou eu conto para todos em nossa cidade. Baita incentivo, esse. Aliás a expressão da época não era trepar, era meter. O gajo entrou no quarto e o Zé Luiz saiu da casa e foi espiar a performance do amigo pela janela, que não era baixa e foi preciso trepar (no sentido lato, subir) pela grade da janela e ficar pendurado lá. Eis que passa na avenida um carro da Polícia Militar que vendo a cena, joga o farol alto e desça logo daí senão atiro. O zé Luiz obedece e gagueja para o policial: eu estava só espiando meu amigo que está metendo pela primeira vez. O policial pega o Zé pelo colarinho, entra na casa da Zezé, respeitosamente (até a polícia respeitava a Zezé), abre a porta do quarto onde estava o amigo do Zé e vai perguntando em alta voz, ei, é você que está metendo pela primeira vez? Eu não, seu guarda, já sou experiente nisso, não é a primeira vez não, mentiu o gajo. Com essa negativa a polícia conduziu o Zé Luiz “Siqueira” para a delegacia prestar esclarecimentos. E lá fomos nós, seus amigos de hotel, dar uma força ao colega e depor que ele era gente boa e, de fato, apenas espiava o colega. Conversa vai, conversa vem, o delegado de plantão os liberou a todos, acusado e testemunhas. Agora o dilema do Zé era outro. Segundo ele seu pai assinava O Estado de Minas e o lia da primeira à última página e se saísse algo no jornal ele estava fudido, seu pai tiraria sua mesada e ele teria que voltar para a terra natal. E lá fomos nós para a porta do jornal, na Rua Goiás, bem no centro da cidade, esperar a saída do jornal mais lido do estado, o que aconteceu por volta das cinco horas da manhã. Leitura do jornal e nem uma linha sobre o feito do amigo. Fomos dormir tranquilos.

Tranquilos? Eis que as onze horas mais ou menos o Zé Luiz nos acorda com um número do Diário da Tarde, que dedicava um pedaço de coluna ao fato: um gajo de nome José Luiz “Siqueira” (seu sobrenome era outro, claro, mas não cometerei aqui a indelicadeza de contar a todos, mesmo sendo esta uma autobiografia desautorizada pelo autobiografado) foi pego em flagrante na janela de um famoso bordel da cidade durante a madrugada. Segundo o mesmo ele foi espiar um colega que estava a cometer atos libidinosos no interior do recinto. Apesar do flagrante o gajo foi liberado. Onde já se viu uma coisa dessas. Era uma coluna de fatos anedóticos e bizarros. Ele estava aliviado porque o Diário da Tarde não chegava em sua cidade. Mas cópias da notícia foram devidamente colocadas em um quadro na entrada do Hotel Belo Horizonte, no mural da escola de karatê e no Diretório Acadêmico do ICEX, na UFMG. Para desespero do Zé porque a chacota foi grande.
Muitas outras histórias do amigo Zé Luiz foram comentadas durante sua permanência em Belo Horizonte. De estudante de Física ele passou para Engenharia Elétrica e foi sumido de vista aos poucos. Depois de formado nunca mais o vi. Recentemente o encontrei nas redes sociais, mora do outro lado do país, mas ainda não fiz contato com a figura. Eu o farei, sem dúvida. E deixo aqui um registro de como era nossas vidas de estudante, seu lado alegre, pois o lado político era dureza, os tempos eram de ditadura, pesados. Voltaremos ao tema.


domingo, 1 de maio de 2016

AUTOBIOGRAFIA DESAUTORIZADA XIX


O Hotel Belo Horizonte ficava na Rua dos Caetés número cem, entre as ruas São Paulo e Rio de Janeiro. Foi o primeiro hotel da nova capital, fundada ainda no século dezenove. Fins do século dezenove, ano de mil oitocentos e noventa e sete, para ser exato. O mesmo ano da inauguração do metrô de Londres, e não compreendo porque uma cidade de dois milhões e seiscentos mil habitantes tem apenas uma linha de metrô. O elevador do hotel, no entanto, era uma peça rara. Tinha uma porta sanfonada, duas aliás, a de dentro e a de fora. E uma manivela que o fazia subir e descer os três andares. Parar no terceiro andar, ou no primeiro, era fácil, era o fim da linha. Mas para quem morava no segundo andar, acertar o nível do pavimento para não ficar um degrau perigoso ao sair do mesmo era um problema quando os moradores chegavam cansados ou meio bêbados. Outro detalhe do elevador era o fato de não ter teclas de envio e chamada automáticos. A gente assobiava para o porteiro e ele conduzia o elevador até nós. E quando subíamos para o nosso pavimento tínhamos que amarrar a manivela em uma corrente forçando o elevador a descer até o térreo. Uma raridade. Outra raridade era o zelador diurno. Ele parecia aqueles personagens de filme de Zé do Caixão. Um vampiro de tão pálido e magro. Um hóspede chegando de manhãzinha devia se assustar com a figura. Simpático apesar de draculesco. E como porteiro de um hotel no centro da cidade tinha histórias interessantes para contar. Outro detalhe do hotel era sua feijoada de sábado. Fantástica. Creio que uma das melhores que já comi em toda minha vida, se a minha memória continua boa. A família e a namorada moravam em outra cidade e eu fazia hora para viajar somente para não perder a famosa feijoada. Famosa para os poucos e fieis fregueses.

Em meus tempos de morador desse hotel haviam quatro hóspedes permanentes extremamente curiosos. Um deles era um senhor vendedor de pedras preciosas oriundas da região de Teófilo Otoni. Alto, educado, com um chapéu sempre na cabeça, dentes de ouro no sorriso, uma mulher bonita acompanhando, esse senhor era analfabeto e usava os serviços de um advogado, também morador do hotel, que, de tão educado, o chamávamos de Dr. Bonzinho. Ele era tão bonzinho que só faltava pedir licença de passar perto da gente. O Dr. Bonzinho era o segundo morador extravagante do hotel. Sempre presente, sempre simpático, sempre acompanhando o pedrista, até que um belo dia desapareceu com todas as pedras preciosas e com a mulher do chucro senhor das pedras. Muito bonzinho, o cara.

A terceira pessoa era a Dona Ilka. Provavelmente em torno dos quarenta e poucos anos, era solteira e morava sozinha no hotel. Funcionária pública. Para nosso desespero hospedava-se no mesmo corredor dos estudantes e no sábado às seis horas da manhã começava a fazer zoeira no corredor. Segundo ela era para descontar a zoeira que fazíamos quando chegávamos à noite. Ela era totalmente implicante conosco, mas não nos perdia de vista. Uma de suas manias era entrar repentinamente nos nossos quartos (nem sempre trancados) para puxar assunto. Dizíamos que na verdade era para nos pegar pelados. Em uma dessas manhãs meu colega de quarto saiu apressado e deixou a porta aberta. Eu ainda estava debaixo das cobertas, com aquela preguiça de levantar, mas tendo que levantar, e entra Dona Ilka, senta em uma cadeira ao lado da cama e começa a conversar. Conversa daqui, conversa dali, e nada de ir embora para que eu me levantasse. Por fim eu disse: Dona Ilka, acho melhor a senhora sair para que eu possa me levantar. Ela – Pode levantar, sem problema. – É que eu estou em estado interessante. – Que estado interessante, rapaz? – Dona Ilka, eu estou de pênis erectus. E fui levantando os lençóis e exibindo o dito cujo na posição vertical. Ela ficou entre assustada e admirada e saiu resmungando para não perder a pose de rabugenta.


O quarto extravagante morador era nosso colega Zé Luiz “Siqueira”. Como éramos três estudantes de Física, sempre que podíamos estudávamos juntos. Só que o Zé Luiz deixava os estudos para a véspera das provas e vivia com o livrão de Física Geral do Halliday debaixo do braço onde íamos. Um dos lugares de nossa frequentação era o Gaivota, um bar aberto vinte e quatros horas exatamente ao lado do hotel. O Gaivota era bem frequentado, tinha música ao vivo, bons garçons que já nos conheciam porque lá era nosso ponto de encontro à noite antes de entrarmos em casa, ou mesmo para uma fuga de madrugada depois de resolver os problemas de Cálculo solicitados pelo professor. É que lá tinha aquele caldo rico para matar a fome madrugadoura.  E sempre uma boa conversa. E o Zé Luiz nos acompanhava com o livro de Física e ficava estudando no Gaivota, em nossa mesa, enquanto jogávamos xadrez ou conversávamos com as mulheres que o frequentavam.  O Zé Luiz ainda me renderá assuntos, muitas histórias divertidas aconteciam com ele, em parte por causa de sua pequena estatura, em parte porque ele era engraçado mesmo e eventos curiosos o perseguiam. Mais histórias sobre ele virão.