quinta-feira, 21 de abril de 2016

AUTOBIOGRAFIA DESAUTORIZADA XVIII


Em mil novecentos e setenta e um entrei na Universidade. Na UFMG, para estudar Física. Não sei exatamente porque escolhi esse curso. Até o momento da inscrição eu tinha dúvidas entre vários cursos. Principalmente entre Física e Jornalismo, que ficou como segunda opção. Jornalismo porque eu gostava de escrever, e tinha escrito alguns roteiros para peças de teatro. Não sei o que Jornalismo tem a ver com escrever peças para teatro, mas na época pareceu-me pertinente. Já a Física eu creio que era uma disciplina interessante, eu tinha boas notas e havia um professor legal, um incentivador. Mais tarde, na Universidade, descobri que ele era mau aluno, enrolado e eu formei antes dele. Funcionou, no entanto, como um motivador. O primeiro ano de faculdade foi uma tragédia, principalmente o primeiro semestre. Porque eu não tinha renda, meu pai cortou minha mesada, e eu tinha que trabalhar. Apareceram aulas para lecionar em dois colégios na cidade de Rio Acima, e no colégio que eu estudara no ensino médio, em Nova Lima. Com isso eu corria para cá e para lá e, com dezoito anos recém completos, descobri também a gandaia, os namoros, as mulheres, a cervejinha, e as aulas de Cálculo e Geometria Analítica foram para o espaço. Eu as assistia mas não estava atento às matérias.

A Universidade é um mundo à parte. Colegas novos, professores mais instruídos, cabeças diferentes. Os tempos eram duros, a ditadura militar era brava, e os alunos eram constantemente vigiados em suas atividades extraclasse. Porque lá era um reduto de oposição ao regime, tanto entre professores como entre alunos, principalmente entre os alunos. Aprendi a ler livros anarquistas, às escondidas, os livros eram clandestinos. Conheci a Mafalda, a personagem do Kino, em espanhol, também proibida no Brasil, exemplares clandestinos chegavam às nossas mãos. Algumas músicas eram censuradas e não podiam ser cantadas publicamente, mas tínhamos a chance de ouvi-las pela boca de seus compositores nos pátios da universidade. Uma delas foi Cálice, de Chico Buarque e Milton Nascimento, cantada por Gilberto Gil, no horário de almoço, no pátio do ICEX, Instituto de Ciências Exatas. 

Durante os quatro anos em que fui estudante morei em dois endereços na cidade de Belo Horizonte. Primeiro na Avenida Paraná, depois em hotel chamado Hotel Belo Horizonte, na Rua dos Caetés, os dois endereços no centro da cidade. Em cada um deles vivi momentos interessantes. No primeiro, era uma residência familiar, um grande apartamento ode viviam uma senhora e sua filha. Eram três quartos alugados para quatro rapazes cada um, um quarto menor com três camas e o quarto das duas mulheres. No quarto em que eu morava, havia um moço estudante de Engenharia, desses bem calados, apenas me cumprimentava e nunca tinha assuntos comigo. Ele conversava apenas com as senhorias, principalmente a filha. Um segundo morador era um moço já não tão moço que trabalhava na Rodoviária durante o dia e estudava à noite em uma faculdade privada em Itaúna. Viajava todo os dias para essa cidade a uns oitenta quilômetros de Belo Horizonte. Logo, eu quase não o via. A quarta cama era ocupada apenas esporadicamente por um rapaz parente da dona da pensão, talvez filho ou sobrinho, viajante, apenas uma ou duas noites na semana ele dormia no quarto. Ao lado de minha cama tinha uma mesa para estudo, uma porta de guarda-roupas para minhas coisas e só. A vantagem era o silêncio durante o dia. Eu e um outro estudante silencioso às tardes, pela manhã eu tinha aulas e à noite, algumas vezes por semana, eu trabalhava. Eu já atuava como professor em escolas privadas de BH, dava aulas de Física.

O outro endereço foi o do hotel Belo Horizonte. Carregava esse nome por ser o primeiro hotel construído na cidade. Era um prédio de três pavimentos, com uns vinte quartos em cada um deles (o térreo eram menos), um banheiro masculino e outro feminino, coletivos. Os banhos tinham vários chuveiros, várias privadas e uma pia. E moradores muito divertidos e alguns malucos. Lá moravam estudantes, funcionários públicos e vendedores de pedras preciosas oriundos da região de Teófilo Otoni. Os quartos eram grandes e morávamos dois estudantes em cada quarto. Eu dividia quarto com outro estudante de Física, muito simpático e também reservado (mais reservado que calado). Havia um terceiro estudante de Física no quarto ao lado, que tinha uma característica que o diferenciava dos demais. Ele tinha menos de um metro e meio e era cheio de complexos por isso. Enfezava-se à toa. Seus apelidos eram “sen30º”, “pintor de rodapé” e um outro mais intelectualizado, nomeado por estudantes de Cálculo Diferencial e Integral, que era “Siqueira”. Isso porque a professora de Cálculo, ao ensinar as famosas derivadas, escrevia no quadro, ou apenas dizia, “para entender isso, toma-se um h tão pequeno quanto se queira”, sendo h a variável da fórmula matemática. E o nosso amigo e vizinho ficou sendo Siqueira, para desespero dele e cumplicidade nossa. Para compensar isso, nosso vizinho “Siqueira”, na verdade José Luiz, tomava aulas de karatê em uma escola bem em frente ao hotel. E era personagem de várias histórias cômicas, episódios para o próximo capítulo.