terça-feira, 1 de março de 2016

AUTOBIOGRAFIA DESAUTORIZADA XVI


Viajo alguns anos no tempo passado até chegar no passado mais recente, dois dias antes do momento em que resolvo escrever sobre um momento mais atual de minha autobiografia desautorizada para registrar impressões atuais. Porque? Simplesmente porque estas impressões, que brotarão no decorrer do relato que segue, ainda não sei onde vou chegar com isso, elas podem mudar os rumos das coisas que virão, não só na minha vida, como também nos relatos que farei aqui, mesmo sem autorização declarada. Claro, não vou usar esse espaço de desobediência civil, já que escrevemos à revelia de mim mesmo, como espaço de desabafo, ou como lavagem de roupas sujas ou limpas. Tudo que quero é deixar impressões de alguém que viveu um pedaço da história, mais como observador que como protagonista, o protagonismo se restringe aos fatos de minha própria vida permeados pelos acontecimentos. Sim, não fui ativista político dos acontecimentos, os fatos é que me atropelam o tempo todo. Essa é a questão. Eu bem que gostaria de escrever atos de heroísmo, mas isso não aconteceu. Nunca fui herói. Cultuei alguns heróis, como o Homem Aranha e o National Kid, esse muito antigamente, assisti a Jornada nas Estrelas, provavelmente quase todas os filmes da série, muito embora eu não tenha sido daqueles que se vestem como os personagens na hora de ir para a frente da tela. Meus heróis são mais mortais, mais humanos, como Vladimir Herzog, como Rubens Paiva, como Dazinho, como Lula, e uma grande massa de outros, anônimos, que sustentaram a esperança no Brasil nos momentos mais duros da ditadura. Anônimos que aqui ficaram e trabalharam para criar possibilidades pela “volta do irmão do Henfil”, para lembrar a letra de música símbolo de uma época de lutas.

fato é que eu completei, dois dias atrás, sessenta e três anos de vida. Isso não tem nenhuma importância, o tempo passa para todos, sou mais um no balaio de gatos que reúne seres humanos, em vez de gatos. A idade que avança apenas nos faz refletir sobre as bobagens que fizemos, as que não fizemos, e sobre as que ainda faremos. O que pesa nesse momento, e pesa mais hoje que dez anos atrás, é o tamanho da encruzilhada em que me posiciono agora. Vivo um paradoxo sem igual. A maioria das pessoas com quem convivo manifesta amor e carinho por mim, menos aquela pessoa de quem eu mais gostaria de receber atenção, carinho e, creiam-me, paciência. Paciência por parte das pessoas é o que uma pessoa mais precisa e solicita. Principalmente porque sabemos que daqui para frente nossa lentidão aumenta, nossa capacidade de agir diminui, nossa memória começa a nos enganar.


E aí recebo uma declaração de falta de paciência comigo. É dose. Não pensem que sou vítima, coitadinho ou qualquer coisa assim. Não sou. Sou o grande responsável por isso. Negligenciei acontecimentos, fatos que não vou entrar em detalhes porque não se trata apenas de mim. Uma coisa é relatar, desautorizadamente, acontecimentos de minha vida, outra coisa é analisar acontecimentos que influenciam meu relacionamento com terceira pessoa, principalmente uma pessoa que eu amo. Ela pede uma decisão de minha parte: ou eu mudo como pessoa, como ator e protagonista do relacionamento, ou eu mudo de casa. Porque ela não me aguenta mais. Essa frase é dura, não é? “Eu não te aguento mais como você é”. Preciso dizer mais alguma coisa? Percebem o tamanho do dilema? Não peço a opinião de ninguém. Escrevo para pensar. Claro que prefiro mudar de mim até tornar-me suportável, que mudar de endereço solitariamente. Eu não me sinto preparado para ser solteiro a esta altura de minha vida. Estou me preparando para a velhice e seria duro estar velho, insuportável e só. Porque chato eu sempre soube que sou, não me imaginava chato intolerável. E então cara pálida?