quinta-feira, 12 de novembro de 2015

O SILÊNCIO E AS VOZES DE TUDO


Barragens se romperam. Não foram barragens de contenção de água para produzir energia elétrica. Foram barragens de dejetos de mineração. Sobras, lixo, herança de um trabalho de invasão, de reviravolta de terra para se tirar de dentro dela minério de ferro vendido ao exterior por uma ninharia, cerca de cinquenta dólares a tonelada. Isso mesmo, cinquenta dólares a tonelada de minério de ferro com sessenta e dois por cento de pureza. O minério se vai e nós ficamos com o lixo: lama, sílica, metais pesados e componentes inorgânicos usados na separação do minério de ferro. Que ficam nessas barragens. E elas se rompem. Acidente? Fatalidade? Não. Negligência. Alguém ou alguns erram. Quase a totalidade dos acidentes acontecidos no mundo ocorre porque alguém errou. Alguém se esqueceu de fechar a torneira, alguém se esqueceu de fechar o gás, alguém se esqueceu de avisar, alguém se “esqueceu” dos riscos, alguém se “esqueceu” de averiguar, de consertar, de avisar, de gritar, de denunciar, de corrigir, de apagar. Alguém se calou, alguém levou vantagem, alguém tirou o dele da reta e deixou o de milhões de pessoas levando juntas as ferradas do caso. Alguém se... E foda-se o mundo, fodam-se os outros, foda-se o povo, fodam-se as águas, fodam-se os peixes, fodam-se os animais, foda-se a paisagem, foda-se a beleza, foda-se a Terra, foda-se o Universo, foda-se a vida, fodam-se homens e mulheres de todos os gêneros.

Nem consolo nos resta. Não há consolo. O Rio Doce está morto. Mais de oitocentos quilômetros de curso d’água sem mais água, sem mais vida. Toneladas de peixes mortos em decomposição nas margens do rio de lama. Milhares de animais mortos espalhando mau cheiro pelo ar, cidades sem água, pessoas sem casa, olhando uns aos outros sem ter o que falar, sem saber como se sair dessa, como sobreviver ao caos instalado, sem água, sem esperança. Milhares e milhares de pessoas vivem às margens da bacia do Rio Doce e se dão conta, agora, da importância das águas em suas vidas. Cuidássemos melhor de nossas águas e teríamos feito pressão para a não construção das barragens, teríamos dito NÃO às mineradoras, teríamos dito NÃO aos políticos, teríamos dito NÃO à depredação ambiental, teríamos dito NÃO, simplesmente. Nunca foi tão importante dizer NÃO.


Que se rompa o silêncio de tudo. Que as vozes de tudo e de todos digam NÃO.