sexta-feira, 13 de novembro de 2015

UM OLHAR PARA TRÁS


Pela terceira vez na história a população do vale do Rio Doce sofre consequências de algum tipo de invasão tecnológica em suas terras. Primeiro, em meados do século XIX, veio a colonização portuguesa e com ela a criação de fazendas na região. Essa história bem conhecida de muitos é pouco comentada. A população indígena do vale foi expulsa aos poucos. Foi a tecnologia dos fazendeiros expulsando a população.

A segunda vez foi uma invasão mais longa historicamente. Começou no início do século XX com a construção da Estrada de Ferro Vitória Minas, inicialmente apenas no Espírito Santo para escoar a produção local, em seguida foi ampliada aos poucos para escoar a produção de minério de ferro. Com isso ela chega a Coronel Fabriciano na década de mil novecentos e vinte e a Nova Era e Itabira entre os anos trinta e quarenta. O transporte de passageiros entre Belo Horizonte e Vitória já existia antes da ligação direta entre Vitória e Belo Horizonte (só ocorreu na década de noventa) através de uma baldeação em Nova Era. Na década de mil novecentos e quarenta os trilhos já seguiam pelo vale do Rio Piracicaba até Nova Era, onde se trocava de trem e se seguia até Governador Valadares onde o Rio Piracicaba se encontra ao Rio Doce, e daí a Vitória. Essa segunda invasão pela tecnologia da estrada de ferro expulsou de vez a população indígena dos vales dos rios Piracicaba e Doce, não sem muita violência. O que resta hoje da população indígena da região está aldeiada próximo a Resplendor e atende pelo nome de Krenak. O processo de grilagem de terras de posseiros, quilombolas e indígenas da região do vale Rio Doce foi um dos muitos episódios de violência no Brasil, na primeira metade do século XX, com apoio de políticos, juristas e cartórios para oficializar a posse de terra.

Agora, a terceira invasão tecnológica vem na forma de lama de minério, metais e materiais inorgânicos que, se ainda não matou muitas pessoas (muitos ainda morrerão por consequência desse desastre), já tirou milhões de vidas de animais e plantas e destruiu a paisagem e a fertilidade das terras. Nesse momento temos a noção clara, fotografada, filmada, escrita e comentada da violência. Esse crime não tem perdão. Se já esquecemos as outras invasões anteriores (é esse o papel da história, construir uma estória de esquecimento) penso ser melhor não nos esquecermos dessa. Esse evento terá consequências funestas por décadas. Se meus antepassados, moradores da região, fizeram parte das duas invasões anteriores e não nos contaram nada, agora sou testemunha do fato e da história que contaremos. E uso minha habilidade de escrever para protestar. Pode ser chorar pelo leite derramado, sem dúvida, porque os protestos de alguns, meu inclusive, através da participação política contra governantes do estado apoiadores das mineradoras não teve nenhum impacto. Agora devo, no mínimo, contribuir para uma tomada de consciência de alguns leitores e agir para que governantes e juristas de hoje não fiquem em cima do  muro, muito menos pendam para o lado dos executivos engravatados das empresas. As empresas tem um aliado poderoso ao lado delas: o capital, que define quem manda e quem obedece. É hora do povo não obedecer ao capital e fazer com que ele seja usado a favor da reconstrução.


Hora de ir para a rua e defender uma nova política. Que surjam novos atores sociais.

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

O SILÊNCIO E AS VOZES DE TUDO


Barragens se romperam. Não foram barragens de contenção de água para produzir energia elétrica. Foram barragens de dejetos de mineração. Sobras, lixo, herança de um trabalho de invasão, de reviravolta de terra para se tirar de dentro dela minério de ferro vendido ao exterior por uma ninharia, cerca de cinquenta dólares a tonelada. Isso mesmo, cinquenta dólares a tonelada de minério de ferro com sessenta e dois por cento de pureza. O minério se vai e nós ficamos com o lixo: lama, sílica, metais pesados e componentes inorgânicos usados na separação do minério de ferro. Que ficam nessas barragens. E elas se rompem. Acidente? Fatalidade? Não. Negligência. Alguém ou alguns erram. Quase a totalidade dos acidentes acontecidos no mundo ocorre porque alguém errou. Alguém se esqueceu de fechar a torneira, alguém se esqueceu de fechar o gás, alguém se esqueceu de avisar, alguém se “esqueceu” dos riscos, alguém se “esqueceu” de averiguar, de consertar, de avisar, de gritar, de denunciar, de corrigir, de apagar. Alguém se calou, alguém levou vantagem, alguém tirou o dele da reta e deixou o de milhões de pessoas levando juntas as ferradas do caso. Alguém se... E foda-se o mundo, fodam-se os outros, foda-se o povo, fodam-se as águas, fodam-se os peixes, fodam-se os animais, foda-se a paisagem, foda-se a beleza, foda-se a Terra, foda-se o Universo, foda-se a vida, fodam-se homens e mulheres de todos os gêneros.

Nem consolo nos resta. Não há consolo. O Rio Doce está morto. Mais de oitocentos quilômetros de curso d’água sem mais água, sem mais vida. Toneladas de peixes mortos em decomposição nas margens do rio de lama. Milhares de animais mortos espalhando mau cheiro pelo ar, cidades sem água, pessoas sem casa, olhando uns aos outros sem ter o que falar, sem saber como se sair dessa, como sobreviver ao caos instalado, sem água, sem esperança. Milhares e milhares de pessoas vivem às margens da bacia do Rio Doce e se dão conta, agora, da importância das águas em suas vidas. Cuidássemos melhor de nossas águas e teríamos feito pressão para a não construção das barragens, teríamos dito NÃO às mineradoras, teríamos dito NÃO aos políticos, teríamos dito NÃO à depredação ambiental, teríamos dito NÃO, simplesmente. Nunca foi tão importante dizer NÃO.


Que se rompa o silêncio de tudo. Que as vozes de tudo e de todos digam NÃO.