sábado, 12 de dezembro de 2015

AUTOBIOGRAFIA DESAUTORIZADA XI


Uma vez mais dou um salto cronológico para escrever sobre narrativas fora de ordem, fora da ordem também do ponto de vista do politicamente correto, pois vou escrever sobre temas que normalmente escondemos. Possíveis, no entanto, em uma autobiografia desautorizada. E salto dos anos mil novecentos e sessenta e oito, caso fosse continuar na linha do tempo, para o ano de mil novecentos e oitenta e dois, creio, para narrar uma outra história. Estava lendo, hoje, em dezembro de dois mil e quinze, momento dessa escritura, um livro do Chico Buarque, recém lançado, O Irmão Alemão, em que ele descreve a existência de um filho clandestino de seu pai, do tempo em que ele viveu, ainda solteiro, na Alemanha. E esse foi um assunto escondido, jamais dito em voz alta, em sua família. Eu também um dia soube, também à boca miúda, através das indiscrições de minha mãe, que eu teria um irmão mais velho, clandestino. Segundo ela meu pai teve um romance com alguém, em algum lugar das Gerais, e desse romance frutificou um garoto que nem meu pai conheceu, a mãe do garoto, protagonista de tal romance, o escondeu. E ele, por falta de curiosidade ou de interesse em apresentar um filho de uma relação apócrifa, nunca procurou o tal garoto. Meu pai, que se apelidava Chico, assim como o pai do outro Chico, o Buarque, guardava esse segredo, confessado por minha mãe, no caso dela para justificar suas mal faladas palavras acerca de meu pai. Vamos à minha narrativa, entretanto.

A gente se encontrou em um restaurante macrobiótico em São Paulo. Bonita, estatura mediana, cabelos anelados e grandes, um nome extremamente simples, três letrinhas, uma mulher extremamente complexa. Os primeiros olhares já demonstraram uma simpatia biunívoca. Rapidamente a conversa escapou para assuntos pessoais, por exemplo, as solidões individualizadas de pessoas em situação de trabalho e de pesquisa. Pesquisa profissional, pausa apenas para refeições, não era pausa para afetos. Os afetos ocorrem naqueles intervalos de leituras, escrituras e correrias. E no meu caso, nas pausas das dinâmicas domésticas. Algo que me incomodava justamente porque eu não me sentia preparado para aquele clima de cobrança de presença constante na educação infantil, embora eu amasse a todos em minha volta. Havia sido um mal começo, apenas. E o que começa mal tem poucas chances de sobreviver.

Voltando à mulher complexa, depois desse dia de conversa, os encontros ao acaso no restaurante passaram a ser programados em sua casa, um pequeno apartamento quarto-sala-cozinha-banheiro no primeiro andar de um prédio também pequeno e próximo à universidade, com varanda. Tudo lá era simples. Trazia seu apreço pelas coisas nordestinas, alagoana que era, cheia de delicados apetrechos pelas paredes e nas prateleiras de sua estante improvisada. Coisas de estudante.

Foi nesse local que conheci o sabor e o prazer de uma outra mulher depois de muitos anos de monogamia estruturada. Não que minha vida fosse ruim, mas era um novo conhecimento do mundo, uma nova abertura para conhecer pessoas diferentes daquele mundo em que eu vivia, era a busca de experiências que eu nunca tive, uma busca pela vida. Sabedora de minhas dúvidas, a morena teve paciência e consciência de seus atos, esperou o momento certo. Ensinou-me, é verdade, a curtir o sexo pelo sexo, a não filosofar entre chupadas e brochadas. A saborear apenas. E a minha frequência naqueles atos delitosos aumentou consideravelmente até o dia que mudei de cidade e voltei para Minas. Mineiro fora de Minas é assim mesmo. Gosta de conhecer a diversidade. De experimentar novidades. De montar seu currículo em comunicação com as pessoas.

Após meu retorno eu ainda a vi três ou quatro vezes. Sempre que presente em São Paulo eu a visitava e era sempre bem recebido. Até que houve uma última vez. Era dezembro, próximo ao Natal, minha última noite na cidade naquele ano. Na verdade só voltei lá muitos anos depois e ela havia voltado para Maceió, uma vez terminado sua temporada de estudos em São Paulo. Encontramo-nos em uma festa, bebemos, dançamos, rimos e dormimos juntos. Sabíamos que passaríamos um bom tempo sem nos ver. De fato, foi a última vez que nos vimos. Lá pelo mês de março do ano seguinte ela me telefonou várias vezes. Queria me ver e falar comigo. Disse que era urgente. Eu não dei muita atenção pois tinha voltado à minha vida corriqueira, quieta e medíocre.

Anos mais tarde eu soube que ela teve uma filha e se casou. Nessa ordem. E que o marido adotou a paternidade da filha. Essa dúvida persiste até hoje. Principalmente porque, com a popularização da Internet e redes sociais eu a localizei no mundo virtual e enviei correios eletrônicos. Ela não respondeu e desapareceu do mundo virtual. É a segunda mulher com quem cruzei na vida, intimamente, que desapareceu. O mistério permanece. Eu teria ou não teria uma filha?




sexta-feira, 13 de novembro de 2015

UM OLHAR PARA TRÁS


Pela terceira vez na história a população do vale do Rio Doce sofre consequências de algum tipo de invasão tecnológica em suas terras. Primeiro, em meados do século XIX, veio a colonização portuguesa e com ela a criação de fazendas na região. Essa história bem conhecida de muitos é pouco comentada. A população indígena do vale foi expulsa aos poucos. Foi a tecnologia dos fazendeiros expulsando a população.

A segunda vez foi uma invasão mais longa historicamente. Começou no início do século XX com a construção da Estrada de Ferro Vitória Minas, inicialmente apenas no Espírito Santo para escoar a produção local, em seguida foi ampliada aos poucos para escoar a produção de minério de ferro. Com isso ela chega a Coronel Fabriciano na década de mil novecentos e vinte e a Nova Era e Itabira entre os anos trinta e quarenta. O transporte de passageiros entre Belo Horizonte e Vitória já existia antes da ligação direta entre Vitória e Belo Horizonte (só ocorreu na década de noventa) através de uma baldeação em Nova Era. Na década de mil novecentos e quarenta os trilhos já seguiam pelo vale do Rio Piracicaba até Nova Era, onde se trocava de trem e se seguia até Governador Valadares onde o Rio Piracicaba se encontra ao Rio Doce, e daí a Vitória. Essa segunda invasão pela tecnologia da estrada de ferro expulsou de vez a população indígena dos vales dos rios Piracicaba e Doce, não sem muita violência. O que resta hoje da população indígena da região está aldeiada próximo a Resplendor e atende pelo nome de Krenak. O processo de grilagem de terras de posseiros, quilombolas e indígenas da região do vale Rio Doce foi um dos muitos episódios de violência no Brasil, na primeira metade do século XX, com apoio de políticos, juristas e cartórios para oficializar a posse de terra.

Agora, a terceira invasão tecnológica vem na forma de lama de minério, metais e materiais inorgânicos que, se ainda não matou muitas pessoas (muitos ainda morrerão por consequência desse desastre), já tirou milhões de vidas de animais e plantas e destruiu a paisagem e a fertilidade das terras. Nesse momento temos a noção clara, fotografada, filmada, escrita e comentada da violência. Esse crime não tem perdão. Se já esquecemos as outras invasões anteriores (é esse o papel da história, construir uma estória de esquecimento) penso ser melhor não nos esquecermos dessa. Esse evento terá consequências funestas por décadas. Se meus antepassados, moradores da região, fizeram parte das duas invasões anteriores e não nos contaram nada, agora sou testemunha do fato e da história que contaremos. E uso minha habilidade de escrever para protestar. Pode ser chorar pelo leite derramado, sem dúvida, porque os protestos de alguns, meu inclusive, através da participação política contra governantes do estado apoiadores das mineradoras não teve nenhum impacto. Agora devo, no mínimo, contribuir para uma tomada de consciência de alguns leitores e agir para que governantes e juristas de hoje não fiquem em cima do  muro, muito menos pendam para o lado dos executivos engravatados das empresas. As empresas tem um aliado poderoso ao lado delas: o capital, que define quem manda e quem obedece. É hora do povo não obedecer ao capital e fazer com que ele seja usado a favor da reconstrução.


Hora de ir para a rua e defender uma nova política. Que surjam novos atores sociais.

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

O SILÊNCIO E AS VOZES DE TUDO


Barragens se romperam. Não foram barragens de contenção de água para produzir energia elétrica. Foram barragens de dejetos de mineração. Sobras, lixo, herança de um trabalho de invasão, de reviravolta de terra para se tirar de dentro dela minério de ferro vendido ao exterior por uma ninharia, cerca de cinquenta dólares a tonelada. Isso mesmo, cinquenta dólares a tonelada de minério de ferro com sessenta e dois por cento de pureza. O minério se vai e nós ficamos com o lixo: lama, sílica, metais pesados e componentes inorgânicos usados na separação do minério de ferro. Que ficam nessas barragens. E elas se rompem. Acidente? Fatalidade? Não. Negligência. Alguém ou alguns erram. Quase a totalidade dos acidentes acontecidos no mundo ocorre porque alguém errou. Alguém se esqueceu de fechar a torneira, alguém se esqueceu de fechar o gás, alguém se esqueceu de avisar, alguém se “esqueceu” dos riscos, alguém se “esqueceu” de averiguar, de consertar, de avisar, de gritar, de denunciar, de corrigir, de apagar. Alguém se calou, alguém levou vantagem, alguém tirou o dele da reta e deixou o de milhões de pessoas levando juntas as ferradas do caso. Alguém se... E foda-se o mundo, fodam-se os outros, foda-se o povo, fodam-se as águas, fodam-se os peixes, fodam-se os animais, foda-se a paisagem, foda-se a beleza, foda-se a Terra, foda-se o Universo, foda-se a vida, fodam-se homens e mulheres de todos os gêneros.

Nem consolo nos resta. Não há consolo. O Rio Doce está morto. Mais de oitocentos quilômetros de curso d’água sem mais água, sem mais vida. Toneladas de peixes mortos em decomposição nas margens do rio de lama. Milhares de animais mortos espalhando mau cheiro pelo ar, cidades sem água, pessoas sem casa, olhando uns aos outros sem ter o que falar, sem saber como se sair dessa, como sobreviver ao caos instalado, sem água, sem esperança. Milhares e milhares de pessoas vivem às margens da bacia do Rio Doce e se dão conta, agora, da importância das águas em suas vidas. Cuidássemos melhor de nossas águas e teríamos feito pressão para a não construção das barragens, teríamos dito NÃO às mineradoras, teríamos dito NÃO aos políticos, teríamos dito NÃO à depredação ambiental, teríamos dito NÃO, simplesmente. Nunca foi tão importante dizer NÃO.


Que se rompa o silêncio de tudo. Que as vozes de tudo e de todos digam NÃO. 


quarta-feira, 21 de outubro de 2015

CONHEÇA-TE A TI MESMO


Hoje eu li em dois livros diferentes a recomendação de "conhecer-te a ti mesmo", em duas situações diferentes. O primeiro, um filósofo (Chistopher PHILLIPS, Sócrates Café) escrevendo sobre o pensamento de Sócrates recomendando o "conheça-te a ti mesmo" considerando que o "eu" é alguma coisa do qual você não pode fugir. O segundo, em um romance de Anton TCHEKHOV (Une banale historie), seu personagem Nicolai Stépanovitch, um "velho" professor de sessenta e dois anos e deprimente figura à espera da morte filosofando sobre seu estado, chega à conclusão que "conhece-te a ti mesmo" é muito bonito e útil mas, no entanto, é lamentável que os anciões não tenham sido avisados a tempo do "modo de emprego". E no mesmo dia tive um cliente em busca do "modo de emprego" para se conhecer a si mesmo e pensar em uma carreira digna. É o "conheça-te a ti mesmo" para não ter essas dúvidas socráticas. A boa questão talvez seja, segundo Tchekhov: - o que você deseja? Quando o personagem Nicolai Stépanovitch pergunta - "o que eu desejo", ele lista uma serie de tais desejos importantes a esta altura da vida em que se vê próximo à morte e descobre que falta algo de essencial, uma ideia geral que liga todos esses desejos. 

E o que liga nossos desejos? Qual a ideia geral deles?Um filósofo americano moderno e um romancista russo do século dezenove colocando-me uma questão séria de Coaching: o que liga o meu "eu" a meus desejos e que os torna tão importantes? 

Como escreveu o velho astrônomo brasileiro Ronaldo Rogério de Freitas Mourão em seu livro A Astronomia em Camões, nossas perguntas e respostas estão na literatura. Basta ler para obtê-las.

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

AUTOBIOGRAFIA DESAUTORIZADA X


Escrevo em um dia quinze de outubro, dia em que se “celebra” o dia do professor. Vou dar mais um salto na cronografia dessa autobiografia para comentar como me tornei professor e o que penso da profissão, considerando que a exerci durante quarenta anos. Creio que tenho certa autoridade naquilo que passo a expressar a partir de agora.

Início de março de mil novecentos e setenta e um, não me lembro o dia, sei que era março porque as aulas começavam em março. Eu havia sido aprovado em um vestibular de Física na Universidade Federal de Minas Gerais, ainda em dezembro do ano anterior, matrícula feita e esperando o início das aulas, e havia completado dezoito anos no final do mês de fevereiro. E tinha ganhado uma carta de alforria de meu pai acompanhado de um sermão que terminava com as seguintes palavras: - de hoje em diante, meu filho, SE VIRA. Atrás de você tenho mais oito para criar, portanto vai à luta. Mas ainda eram férias, eu não tinha a menor ideia do que iria fazer, sabia apenas que tinha que começar a trabalhar. Com todas essas preocupações eu jogava futebol todos os dias. Claro, morava ao lado do campo do Montanhês Esporte Clube, glorioso time amador de meu bairro e, além disso, tínhamos um pequeno campo de futebol bem no pátio do nosso território, um espaço ao lado da subestação da Cemig, onde meu pai trabalhava. Éramos quatro famílias morando no local e jogar futebol às tardes, principalmente no verão, era um privilégio raro. E eu exercia sem parcimônia esse privilégio.

Bom, eu jogava futebol, era do time sem camisas, e, em uma tarde especial, por volta das cinco e meia da tarde, eis que para um carro na beirada do campo e dele desce uma mulher elegante, morena, de óculos escuros. Eu a reconheci, era Júnia, amiga de minha namorada Beatriz, professora. O que eu não sabia é que ela era diretora de uma escola pública estadual na cidade de Rio Acima, uns quinze quilômetros depois de Nova Lima onde eu morava e jogava tranquilo meu futebol nas tardes de verão. Óbvio que o jogo parou. Ela me gritou pelo nome, me aproximei todo suado e ouvi, como uma ordem: - toma um banho rápido que eu preciso que você me acompanhe. Preciso de você para assumir umas aulas de matemática na minha escola e as aulas começam às dezenove horas. A minha fama de bom em matemática na escola estadual augusto de lima, onde cursei o científico e onde Júnia lecionava Geografia valeu-me para alguma coisa.

Não titubeei. Ordens são ordens, principalmente vindo de uma chefe morena de óculos escuros e saias mostrando os joelhos redondos, moda da época. Banhei-me e entrei no carro sem pestanejar. Assim entrei no mundo profissional e na carreira de professor.  Chegando em Rio Acima, assumi turmas de quinto e sexto ano, hoje equivalentes a sexto e sétimo ano do ensino fundamental II. Na época os nomes eram outros. Foi muito engraçado de repente eu ter que assumir ares de professor, apenas dezoito anos e tinha pela frente duas turmas de matemática, nenhum preparo, apenas as referências inspiradoras de alguns mestres bem capazes. Era pouco, mas foi assim que comecei.

Dessa data em diante eu me tornei professor. E logo eu tinha quase trinta aulas por semana de matemática no ensino fundamental e física no ensino médio. Foi um longo aprendizado, na marra, mas as turmas eram muito boas, os alunos muito camaradas. Vários de meus alunos desse primeiro ano de trabalho se tornaram meus amigos, alguns eu os vejo de vez em quando até hoje. O bom da profissão é que os alunos não envelhecem, todos anos tem a mesma idade. A profissão é que não nos satisfaz nunca. E geralmente culpamos a ordem estabelecida, o sistema, o governo, etc. Já compartilhei também desse discurso. Depois, com a experiência e mais conhecimento eu acredito que os maiores culpados pelas idiossincrasias da profissão são os próprios professores. Preferem a política do choro, da culpabilidade alheia, que uma luta séria baseada no melhor que a profissão pode oferecer. Como categoria os professores são uns chorões. A luta sindical se baseia em querer colocar todos no mesmo saco e não aceitam nenhuma política de avaliação de eficiência pessoal e sistêmica. Paguem-me mas não me cobrem. Não funciona em nenhum lugar do mundo.

Esse período de trabalho em Rio Acima, com viagens de carro duas noites por semana me renderão algumas páginas. Espero que meus leitores apreciem essas páginas desautorizadas mas escritas assim mesmo. Não quero ser politicamente correto. Quero escrever livremente sobre o que penso que foi a minha vida e reconstruí-la, de certo modo. Análise? Pode ser. Escrever é um processo de reinventar, não de reviver. O melhor do passado é que ele passou. Passou e pronto. Só posso recontar minha história do jeito que eu quiser. Por isso é desautorizada. Eu não fui um cara bonzinho, sem maldades, bonitinho e certinho. Fui um cara do meu tempo, criado numa família de periferia das periferias suburbanas, um pé no mato outro na cidade, cheio de espertezas para sobreviver. Creio que fiz mais mal que bem, até hoje tem gente muito próxima que me diz isso o tempo todo. Coisas do tipo – você é um sacana. Minha cara de anjo barroco, meu sorriso fácil no meio da face, engana a muitos, não engana os mais próximos. Vamos em frente.


sábado, 10 de outubro de 2015

AUTOBIOGRAFIA DESAUTORIZADA IX


Não me lembro de meu aniversário de quinze anos. A data de meu aniversário é fevereiro, as aulas começavam sempre em março naquele tempo. Logo cheguei ao primeiro ano do curso científico turno da noite (só havia no turno da noite) já com quinze anos completos e mesmo assim era dos mais jovens, talvez o mais jovem da turma. Cara de neném, cheia de espinhas, aguentava todo tipo de gozações. A maior delas era que as espinhas eram produtos de muita masturbação. Como eram muitas e se espalhavam pelo meu rosto significava que a punhetagem era muita também. Brigar não adiantava, só aumentaria a gozação.

Em março começaram as aulas. Novos colegas, novos professores, novas responsabilidades. Disciplinas diferentes: Física, Química e Biologia no lugar das Ciências dos tempos de Ginásio. As demais eram as mesmas. Como eram tempos de ditadura havia também uma disciplina com o nome de Organização Social e Política Brasileira – OSPB, que só servia para adestrar cabeças ocas. Como eu já era politizado achava aquilo um saco. No entanto a qualidade da disciplina dependia da qualidade do professor. Tive bons professores dessa disciplina, que minimizavam seu caráter adestrador e traziam boas discussões para a classe e eu, como bom aluno que era, estudava e me saía bem, mas era dureza.

Em março comecei também a trabalhar. Passei em um concurso para ser contínuo do Banco Mercantil e uma nova aventura começou. Trabalhava todos os dias de oito à dezessete horas. O trabalho era maçante, mas aprendi muito. Principalmente a fumar e beber. São as armadilhas onde caem muitos jovens. A vigilância paterna era grande e impediu minha degenerescência. E o tempo era pouco. Trabalhar o dia todo e ir à aula à noite era uma tarefa árdua.

É preciso dizer que fiz quinze anos em mil novecentos e sessenta e oito, ano de muitas ocorrências pelo mundo afora. De muitas ocorrências no Brasil também. Temos muitos assuntos para memorizar desse período e não fugirei deles. Talvez até me autorize a escrever sobre pontos nebulosos dos momentos políticos da época e de minha vida particular. Cheio de altos e baixos, de medos e de aventuras, de muitas descobertas também, como a descoberta da mulher e do mundo feminino. Aí quem fazia a vigilância era minha mãe.

Nessa época conheci também os Beatles, conheci Roberto Carlos e Erasmo Carlos e toda a turma da Jovem Guarda. Eduardo Araújo e Silvinha, Martinha com sua voz manhosa e doce, Jerry Adriani e Wanderley Cardoso. Sergio reis cantava rock’n roll antes de se tornar sertanejo. E Vanderleia, claro. Minha mãe ainda cantava Orlando Dias, Nelson Gonçalves, Francisco Alves e Ângela Maria. Nas ondas do rádio essas gerações se misturavam e surgiu a Bossa Nova e os festivais da televisão. Com os festivais alguns nomes se destacaram em minha mente, admiráveis nomes e tornei-me fã incondicional: Geraldo Vandré, Caetano Veloso, Os Mutantes e Gilberto Gil. Gilberto Gil cantando Domingo no Parque acompanhado dOs Mutantes foi simplesmente um assombro.

Eu minha casa não tinha televisão, eu assistia às vezes na casa do vizinho (valeu Vicente e Nazinha) às vezes na casa de meu novo amigo, Fran, onde eu passava quase todos as tardes antes de ir para a Escola Estadual Augusto de Lima. Sua casa ficava no zigue-zague, a caminho da escola. Lá eu pegava um rango da tarde, sanduíches geralmente, ou sopa da mãe dele e ainda ficava olhando sua irmã, quem eu achava linda e inteligente. Estou desautorizado a dizer qual delas, ela era mais velha e tinha um namorado simpático, eu gostava apenas de conversar com ela. Fran tinha vários  irmãos e irmãs, não sei de nenhum deles mais, apenas que ele morreu em um trágico e estúpido acidente de carro. Foi em sua casa também que eu assisti alguns capítulos de Belo Rockfeller, uma novela que inovou a linguagem dos folhetins de televisão naquela época.


Não me lembro exatamente das datas de todos esses acontecimentos, apenas que foram entre mil novecentos e sessenta e oito e mil novecentos e setenta, os três anos de duração do curso científico, atual Ensino Médio. Foram três anos profícuos em minha vida e vou escrever muito mais sobre eles. Porque, hoje o sei, eles me formaram, deram o tom de minha vida e, hoje, quarenta e cinco anos depois, ainda me lembro nitidamente daqueles acontecimentos. E enquanto escrevo eles renascem em minha memória.