quinta-feira, 6 de novembro de 2014

LONDRES-PARIS: QUINTO DIA DE PEDAL


12/09/2013

Ao amanhecer o tempo estava sombrio. O serviço de meteorologia francês indicava cinquenta porcento de possibilidade de chuva na região e parecia que eles tinham razão. Já chovia quando deixamos o hotel. Organizamos as trouxas ciclísticas e fomos a um mercado de materiais esportivos. Eu comprei uma calça e uma veste impermeáveis, além de um para-lama para a bicicleta, que me protegeria um pouco mais do barro e da água jogada para cima pelas rodas. O caminho no momento era asfaltado, seguindo a antiga ferrovia, só não sabíamos até onde iria aquele bom caminho. O asfaltamento da pista era recente, em nosso marca apenas marcava pista em obras, parecia-nos que as obras estavam bem avançadas.

Depois de instalarmos os novos equipamentos, em mim e na bicicleta, tomamos o caminho de Paris. Pouco à frente, talvez menos de dois quilômetros, encontramos um grupo de vinte e quatro pessoas, ingleses e orientais habitantes da Inglaterra, seguindo para Londres, fazendo o caminho inverso ao nosso. Pelo menos até Dieppe iriam pedalando, não sei se pedalariam depois de Newhaven ou se continuariam de trem. Porque o trajeto para Londres não seria fácil para um grupo tão grande de pessoas. Ainda um pouco mais adiante ultrapassamos um pequeno grupo de jovens ciclistas, eles haviam nos ultrapassado no dia anterior, dormiram no mesmo hotel que nós, uma das bicicletas apresentava um pequeno problema. Creio que repararam rápido o defeito, pois uma hora depois eles nos ultrapassaram de novo e não os vimos mais.

A proposta de caminho a seguir era pedalar até Gisors, uma cidade de porte médio setenta e oito quilômetros depois (http://en.wikipedia.org/wiki/Gisors) e com um número de hotéis maior que em Neufchâtel-en-Bray. Por via das dúvidas, telefonamos a um dos hotéis, o Hôtel Moderne de Gisors, e fizemos uma reserva de quarto triplo (http://www.hotel-moderne-gisors.com/accueil.php). Funcionou também como um estímulo a ir tão longe, deve ter sido o dia de trajeto mais longo. Esse seria um dia de desafio e de medida de nossa capacidade de avançar mesmo com chuva. A chuva não nos parecia, naquele momento, um obstáculo tão grande. A meteorologia indicava quarenta porcento de possibilidade de chuva e isso nos parecia querer dizer que não choveria o tempo todo. Realmente, tivemos momentos nublados e momentos de sol alternando com momentos de chuva.

O que não contávamos era com o relevo ondulado. Algumas subidas eram longas, não muito inclinadas, mas longas, sendo que Gisors situa-se em um planalto. A escolha por Gisors também representava uma decisão. Nosso mapa indicava dois caminhos possíveis para se chegar a Paris: um mais longo que o outro e Gisors fica logo depois da bifurcação. Escolhemos o caminho mais curto. Talvez não o mais bonito, mas o mais curto. A ciclovia pela ferrovia continuava até Forges-les-Eaux (http://fr.wikipedia.org/wiki/Forges-les-Eaux), plano, sem traumas, com uma paisagem pouco variável e bonita, com uma pequena porção de mata ao lado do caminho, e muitas fazendas. Gados, ovelhas, plantações. A Normandia é uma região de ótimos queijos (http://www.lesfromagesdenormandie.com/fromages-aoc-normandie-i.html), o grande número de fazendas de bovinos e caprinos se justifica.

Em Forges-les-Eaux termina a ciclovia sob a antiga ferrovia, a continuação seria por estradas compartilhadas com automóveis. Na cidade compramos três sanduiches e três latas de suco para o almoço e continuamos até encontrarmos um local agradável para o lanche. Pouco à frente, em um lugar chamado La Bellière, encontramos uma fonte coberta parecendo uma antiga parada de tropeiros, onde descansamos por meia hora, tempo justo para o almoço. Hora do lanche, hora de fotos, hora de conferir o plano de viagem do dia, quando pedalamos, quanto falta para chegar ao destino. Creio que eram catorze horas.

O caminho, agora em estradas, continuava bonito, As estradas eram, na verdade, estreitas ligações entre vilarejos e fazendas, essas ainda prioritariamente de gado, com pastagens e plantações de feno que, a essa época, estava recolhido e enrolado para ser guardado em silos. Estávamos quase no outono, depois seria inverno, era preciso se preparar para alimentar o gado na ocasião mais fria. Geralmente não neva na região, mas o frio é intenso. A serra gela, as folhas das árvores caem, a vida se dificulta. Um vilarejo após o outro, La Fossé, La Bellière, Pommereux, Haussey, Mènerval, Dampierre-en-Bray, Cuy-St-Fiacre, Cité St-Clair, Gournay-en-Bray. Essa última é uma cidade de porte médio e aqui tivemos um problema. O caminho passa sobre uma ferrovia, que estava em obras, e não nos permitiram avançar. Tivemos que fazer um desvio em uma estrada muito movimentada, plena de caminhões. Seguimos em frente. Olhamos o mapa e percebemos que nossa rota seguia paralela a essa estrada e poderíamos retomá-la mais à frente. Menos mal, perdemos meia hora até compreendermos que o problema não era tão grande. A questão era a comunicação pela metade da pessoa responsável pela obra. Uma bela engenheira com um capacete na cabeça impediu nossa passagem, mandou-nos tomar o desvio, mas não deu nenhuma precisão em suas informações. Talvez tenha sido, em toda a viagem, a única pessoa que não teve boa vontade de dar a boa e correta informação para os viajantes. Ok, isso não nos abala, nossa força de vontade é maior.

Logo, logo achamos o caminho. O curioso foi que, um pouco mais à frente, no momento em que íamos atravessar a rodovia, uma jovem que seguia a pé e que também foi impedida de ultrapassar a ferrovia no mesmo local que nós, me pergunta se estava no caminho certo para Ferrière-en-Bray. Eu tinha visto nos painéis das esquinas das ruas que essa era uma cidadezinha justamente do outro lado da ferrovia e o caminho era justamente aquele no qual seguíamos. Então tive o prazer de dar a boa informação a essa jovem, francesa, que me interrogava sobre o caminho e que, por acaso, eu tinha a boa resposta. Descontei. Ensinei o caminho a uma pessoa, da terra, apenas vinte minutos depois de ficar chateado com outra pessoa, também da terra, pela sua má vontade em ensinar o caminho correto. Sorte eu saber ler mapas muito bem. Ler mapas e fazer leituras dos sinais e planos locais.

Passado esse pequeno contratempo o caminho seguiu tranquilo, por estradas compartilhadas com poucos carros, permeando vilas e fazendas. O mais interessante era as casas de fazendas todas com telhados de pedras de ardósia, belas casas, os fazendeiros não são, em geral, pessoas pobres.

Tudo tranquilo até Saint-Germer-de-Fly, onde a bifurcação entre os dois caminhos acontecia. Nossa escolha já havia sido feita, caminho mais curto da direita até Gisors, onde deveríamos chegar as dezenove horas. Em uma das raras falhas de sinalização de todo o trajeto, tomamos o caminho errado (terceira vez que isso nos acontecia) e pedalamos uns três quilômetros até percebermos o erro. Fora isso, o deslocamento decorreu tranquilo até Gisors, passado por vilarejos de nomes engraçados: Le Moulin l’Èvêque, St-Pierre-ès-Champs, Neur-Marché, Les Flamands, Le Camp à Dan, Bouchevilliers, Amécourt, Bazincourt-sur-Epte e, finalmente, a cidade de Gisors nos esperava sob chuva. Para encontrarmos o hotel em frente à estação de trem um jovem nos deu a informação correta. Hotel honesto, três camas boas, banho quente, internet, café da manhã, sem restaurante. Chegamos às dezenove horas e trinta minutos, tomamos banho rápido e saímos à procura de um restaurante, sabemos que na França os restaurantes fecham cedo, mesmo em Paris. Encontramos, a duzentos metros do hotel, com um painel informando que os pratos eram tradicionais da região, feitos à moda antiga. Meu prato: batave (carne de boi) ao molho de pimenta do reino e batatas fritas, uma salada de entrada, água mineral gasosa Badoit, vinho da casa em piché, vinte e seis euros tudo. De volta ao hotel, novidades da internet, aviso à família e fomos dormir.