segunda-feira, 2 de junho de 2014

RELATOS DE VIAGEM À PATAGÔNIA - DIA 06


14 de março de 2014

Atividade do dia: levantar as 03h30min da madrugada, café as 04h00, saída rápida para a estação rodoviária, partida de ônibus as 05h00 para Punta Arenas, no Chile, com uma parada em Rio Grande.

Dormi boa parte da viagem até Rio Grande. Nessa cidade tivemos que trocar de ônibus para chegar a Punta Arenas, mas era preciso, primeiro, passar no escritório da Tachi Austral, a empresa de ônibus, confirmar a viagem e, segundo, ir até a polícia federal carimbar o passaporte. Feito isso entramos no ônibus, que demorou a sair porque todos os passageiros deveriam fazer o mesmo. No ônibus recebemos um cafezinho, um sanduíche e duas medialunas (croissants). Depois, boa viagem.

Minha leitura de viagem foi o livro “El prisionero de la verdad – Bertrand Russel” de Elisa Bonilla, da editora Alfaomega Colombiana, de 2003. E foi uma ótima e surpreendente leitura. Destaco aqui alguns pontos interessantes do livro, citações e comentários.

“Cada pessoa possui um conhecimento que não possuem aqueles cuja experiência é distinta da sua e esta experiência não pode ser expressa completamente de maneira verbal. E se recorre a métodos científicos para contar a experiência, essa se perderá e ficará espalhada em um deserto de poeira. O mais pessoal de cada experiência tende a evaporar-se durante o processo de tradução da linguagem.”

Por isso, também segundo Bertrand Russell, não se traduz conhecimento quando se muda de linguagem para comunicar-se. Na verdade, criamos outro conhecimento. E cada um que dele se apropria, o amplia de uma forma muito pessoal.

“Espaço e tempo, tal como os conhecem os seres humanos, não são, em realidade, tão impessoais como pretende a ciência. O espaço e o tempo dos seres humanos tem o aqui e o agora... Todo nosso conhecimento dos fatos proveem de um outro espaço-tempo, que é a pequena região que ocupamos nesse preciso momento.”

O caminho da felicidade

“Quando um homem sacrifica sua própria felicidade (...) tende a invejar os que gozam de um menor grau de nobreza, e esta inveja, a miúdo, volta cruel e destruidora aos que se creem santos.”

Já vi isso muitas vezes, principalmente em algumas mães que dizem ter se sacrificado a favor de filhos. Quando assustam, estão velhas, solitárias e reclamando o tempo perdido.

“Se observar homens e mulheres à sua volta que mereçam ser chamados de felizes, comprovará que todos eles tem coisas em comum. O mais importante é uma atividade que proporciona por si mesma certo prazer e que, além disso, é criativa. É impossível ser feliz sem ter alguma atividade, e uma atividade que não seja excessiva ou desagradável”.

Temos visto muito dessa ideia em nossas atividades de Coaching, pessoas felizes trabalham em coisas que amam fazer. A atividade é agradável quando está claramente encaminhada para a finalidade que se deseja, considerando as habilidades trabalhadas pelo indivíduo em sua formação como ser humano.

“Se alguém saudável e sem problemas econômicos que ser feliz, precisa de duas coisas: primeiro, uma estrutura estável construída em torno de um propósito central (um projeto); segundo, porque o faz exclusivamente porque é divertido e não cumpre nenhuma outra finalidade séria”.

Após muitas horas de viagem chegamos à fronteira com o Chile. Que maluquice! Tivemos que descer do ônibus com nossas bagagens de mão e passá-las por um escâner (as malas grandes, no bagageiro do ônibus, foram cheiradas por um cão farejador de drogas). Em seguida fomos ao escritório da polícia aduaneira carimbar nossos passaportes. Quando o Mercosul fará igual à Comunidade Europeia? Os europeus não carimbam passaporte ao viajar de um país a outro dentro da Comunidade. Isso significou um atraso na viagem de mais de uma hora.

Carimbados os passaportes, cheiradas as malas, escaneadas as bagagens de mão, partimos. Transitamos umas duas horas, ou mais, em uma estrada plana e de terra onde nada se vê além de aves, muitas aves, e carneiros, muitos carneiros. Nada de tráfego, nada de casas, e muito vento. E assim chegamos no ponto de travessia do Estreito de Magalhães, sem ponte, travessia a ser feita de barco. E o que encontramos? Uma fila de ônibus, caminhões e carros, e motos, todos esperando o barco que não vinha porque o vento estava muito forte. O vento balançava o ônibus e quase nos jogava ao chão quando caminhávamos. Segundo escutamos, o vento tem sentido contrário à correnteza do estreito e isso o torna muito perigoso. Na hora em que escrevia os rascunhos desse texto, 16h, havia mais ou menos uma hora que estávamos parados e sem perspectiva de atravessar o canal tão logo. E o vento, o poderoso vento, decidiu que devíamos esperar um longo tempo, mais de cinco horas.

Enquanto isso terminei a leitura do livro sobre Bertrand Russell. Ao final do livro tem trechos de textos escritos por ele. Claro que não é nada comparado a sua obra, enorme. Ajudou-me, no entanto, a pensar em duas ou mais coisas interessantes que muito se aproximam de pensamentos e atividades que me ocupam agora, em torno do Coaching. Uma é o conceito de “aqui e agora”, outro é o conceito de felicidade. Tentarei fazer, aqui, uma ligeira aproximação entre essas ideias.

Em primeiro lugar, Russell afirmava que cada pessoa possui um conhecimento único e intransferível por simples tradução de linguagem, principalmente verbal, e que esse depende de sua experiência individual. E se se recorre a qualquer método de tradução, esse conhecimento se evapora como gotas de água no deserto arenoso. Interessante que, ao trabalhar com divulgação científica, sabemos que, hoje, cada pessoa, ao se aproximar e tentar se apropriar desse conhecimento pode criar um outro, pessoal, e ligado à sua experiência anterior. A comunicação da Ciência chegou, nos anos dois mil, a uma conclusão que Russell já afirmava cinquenta anos antes.

Segundo, isso acontece porque os seres humanos tem uma noção de espaço e tempo que não é impessoal como pretende a Ciência. O espaço e tempo dos seres humanos tem um Aqui e Agora. E todo nosso conhecimento dos fatos provem de um certo espaço-tempo que é a pequena região, aquele minúsculo ponto do universo onde plantamos nossos pés nesse exato momento. Ou seja, tudo que sei, eu o sei porque estou aqui, nesse ponto, agora, nesse instante, com toda minha bagagem, minha mochila, minha experiência de vida.

Com relação à felicidade, Russell nos dá uma razão simples para não abdicarmos da nossa: quem abdica da felicidade, mesmo por uma causa qualquer, tem inveja daqueles que não o fazem, e essa inveja pode voltar, de forma cruel e destruidora, contra essas pessoas. Ademais, Russell afirma, pessoas felizes tem uma atividade prazerosa e criativa. E que é impossível ser feliz sem uma atividade, desde que ela não seja excessiva ou desagradável (precisamos do ócio criativo, ele também quase dizia). E essa atividade é agradável quando encaminhada para uma finalidade, um propósito, sem contrariar os instintos do indivíduo. Ou seja, Russel já afirmava, hoje confirmamos, a felicidade pode ser encontrada em atividades com um objetivo definido, agradável, e em paralelo a talentos e conhecimentos adquiridos.

Resumindo, e trazendo para a linguagem do Coaching:
i.    o conhecimento é pessoal e intransferível e depende de nossa posição no mundo, aqui e agora, ampliando a experiência de cada um;
ii.   essa busca de conhecimento pode trazer felicidade desde que ligada a uma atividade prazerosa, criativa, ligada a um objetivo, e que o sujeito a realiza principalmente porque é divertida.


Chegamos a Punta Arenas às 23h, fomos direto ao hotel, nos instalamos e saímos para jantar. O restaurante La Piedra é perto do hotel Plaza, e muito bom. Comemos peixe, todos, o meu prato foi uma “Merluza a lo Pobre”. Não sei porque o nome Lo Pobre, mas tem batatas fritas, e dois ovos fritos sobre o peixe. Estranho e muito bom. E a cerveja local uma delícia. Os preços? Salgados. Trinta e oito mil pesos para quatro pessoas, aproximadamente cento e setenta reais. Considerando o fato de que estávamos em Punta Arenas, sul do Chile, no meio de quase nada, então está bem. Estava de férias. Dormimos a uma hora da madrugada e acordamos as cinco e meia, tomamos café as seis horas, e as sete pegamos uma van que nos levou a um lugar onde tomamos um barco para chegar à ilha dos pinguins de Magalhães.