sexta-feira, 18 de abril de 2014

RELATOS DE VIAGEM À PATAGÔNIA - DIA 05


13 de março de 2014

Às sete horas estávamos alertas. Oba, uma hora a mais de sono. Café da manhã e saída de van para uma visita guiada ao Parque Nacional da Terra do Fogo, localizada no fim do mundo, como dizem os habitantes locais, terra cheia de histórias e tradições. Se não estivemos no fim do mundo, o parque é bem próximo. Estivemos no último ponto habitável do sul da América do Sul. Depois de lá, muitas ilhas com bandeiras governamentais fincadas e, mais adiante, a Antártida.

Na saída do hotel conhecemos o guia que nos conduziu por toda a manhã ao parque, ele fala inglês, francês e também o português. Como estávamos indicados por uma agência francofônica e acompanhado de amigos franceses e falando franceses ele nos tomou por franceses. Em meio caminho percebeu que falávamos português, então começou a falar em português também, e falava bem, disse ser casado com uma brasileira do Rio de Janeiro. O caminho até o Parque custou meia hora de viagem, isso porque a van parou em outros hotéis para arrebanhar outros turistas e completar a lotação da van. Eram pessoas de várias nacionalidades diferentes formando pequenos grupos, não tivemos muitas oportunidades de iniciar uma conversação. Cada qual com seu grupo.

Uma vez no parque tivemos duas opções de passeio: pegar o trem tipo maria fumaça até determinado ponto dentro do mesmo, ou continuar de van até certo ponto dentro do parque, fazer uma caminhada curta na beira de um rio até certo ponto onde encontraríamos o grupo que escolheu o trem para continuarmos a visita. Preferimos continuar na van e fazer o passeio a pé. Foi uma boa escolha, porque a visita a pé passou por lugares incrivelmente belos. Durante essa caminhada conhecemos o pé de calafate, fruta nativa na região e muito comum. Durante toda a viagem pela Patagônia o calafate esteve presente através de sucos, sorvetes, geleias e licores, além do fruto propriamente (http://pt.wikipedia.org/wiki/Calafate-da-patag%C3%B4nia).

Caminhamos ao lado do Rio Lapataia onde foi possível ver as florestas de lengas e ñires, grandes árvores da Patagônia, ver os pássaros locais que parecem não assustar com os turistas, tivemos a impressão que eles até posavam para fotografias. Outras imagens impressionantes são as das montanhas, muito altas e com neves eternas em seus cumes. Vimos também uma represa de castores, animal vindo do Canadá, introduzido por imigrantes e que se tornou uma praga na Patagônia pelo fato de não ter predadores e suas represas matarem as árvores locais, desertificando toda uma região às margens dos rios. Assim como os cães selvagens, os castores são um problema, não só do parque, mas de toda a Patagônia.

Andando mais parque a dentro, outras surpresas nos esperavam. Como um casal de raposas que brincava alegremente também sem se preocupar com os passantes, e éramos muitos turistas, em vans, ônibus e carros. E as raposas, sentindo-se seguras, talvez, transitavam em meio a nós sem sustos de nenhuma parte. A ideia de preservação da natureza, ambiente, flora e fauna, é muito grande na Patagônia. Eles destruíram totalmente os povos que habitavam aqui, e hoje declaram seu amor às histórias dos índios, suas lendas, seus mitos, tentam preservar uma memória rica de povos que não existem mais. No entanto, os argentinos foram ciosos de matarem a todos para ocuparem as terras. Mas como li em um cartaz em exposição no museu do parque, que narra um pouco da memória dos povos indígenas,

“se prestas atencíon, quizás puedas reconocer sus vocês em el sussurro del viento que las esparce por los vales, donde quizás todavia more Hännus, el gigante del bosque. Voces que, serpenteando por costas y bahias, todavia inquieten a Laküna, ele demônio marino. Voces que nos hablan de la tragédia de um Pueblo que ya no existe. Es bueno escucharlas..., es bueno tener memoria..., es bueno aprender”.

Esse texto, e outros junto com fotos no pequeno museu local são arrepiantes. Fazem-nos pensar na tragédia, na miséria humana que considerou que os índios eram animais sem alma, então poderiam mata-los, com a aprovação da igreja. Matá-los em nome de um deus. Quantos erros não são cometidos por essa ambição das terras? Quantos de nós não somos também frutos desses erros e crimes cometidos num passado tão próximo? Não precisei ir à Terra do Fogo, no Fin del Mundo, para saber disso. Nossa história, minha história, é bem parecida.