sexta-feira, 25 de abril de 2014

RELATOS DE VIAGEM À PATAGÔNIA - DIA 05 À TARDE


13 de março de 2014

Ainda no dia 05 um outro passeio nos aguardava. Às 14h, após um pequeno lanche na praça em frente ao porto, estávamos no escritório da companhia que nos levou a uma visita numa ilha de pinguins, os pinguins papuas. Fomos de ônibus à Estância Haberton, onde pegamos um barco até a ilha. Meia hora de barco e descemos na praia da ilha. A visão é simplesmente surpreendente: milhares de pinguins vivem na ilha nessa época do ano. Aqui se acasalam, botam ovos e tem os filhotes. É verão no local, apesar do frio latitudinal, e quando os filhotes estiverem crescidos e puderem acompanha-los em viagem, eles migrarão para águas mais quentes nas costas do sul do Brasil e norte da Argentina e em suas ilhas. Foi um passeio incrível, os pinguins são muito engraçados e quietos, desde que não os incomodemos. Eles ficam na deles, e passeiam sob a observação do bando de turistas, imagino que muito exótico para eles, cada turista com um aparato fotográfico mais assustador que outros, e eles ainda viram os olhos para nos observarem. A imagem da tarde foi a presença de um pinguim-rei que, segundo nossa guia, era uma raridade no local.

No caminho de volta, uma passada em um museu do mar, na Estância Haberton, que pesquisa os animais marinhos da região, principalmente baleias e golfinhos, entre outros, e uma parada para ver a estranheza das árvores.

À noite, ficou por conta de uma visita a um restaurante fino da cidade de Ushuaia. O restaurante Chez Manu nos recebeu muito bem e superou todas as expectativas colocadas sobre ele, que nos foi recomendado por Annie Luna, da Estância Rolito. Comemos uma merluza negra, peixe do qual todos falam na cidade de Ushuaia, como manjar imperdível. Valeu a pena. Além do jantar, o vinho escolhido para acompanhar, recomendação do chef, foi um Luigi Bosca Sauvignon Blanc 2011, magnífico, um dos melhores vinhos bebidos na viagem.

O dia foi longo.





sexta-feira, 18 de abril de 2014

RELATOS DE VIAGEM À PATAGÔNIA - DIA 05


13 de março de 2014

Às sete horas estávamos alertas. Oba, uma hora a mais de sono. Café da manhã e saída de van para uma visita guiada ao Parque Nacional da Terra do Fogo, localizada no fim do mundo, como dizem os habitantes locais, terra cheia de histórias e tradições. Se não estivemos no fim do mundo, o parque é bem próximo. Estivemos no último ponto habitável do sul da América do Sul. Depois de lá, muitas ilhas com bandeiras governamentais fincadas e, mais adiante, a Antártida.

Na saída do hotel conhecemos o guia que nos conduziu por toda a manhã ao parque, ele fala inglês, francês e também o português. Como estávamos indicados por uma agência francofônica e acompanhado de amigos franceses e falando franceses ele nos tomou por franceses. Em meio caminho percebeu que falávamos português, então começou a falar em português também, e falava bem, disse ser casado com uma brasileira do Rio de Janeiro. O caminho até o Parque custou meia hora de viagem, isso porque a van parou em outros hotéis para arrebanhar outros turistas e completar a lotação da van. Eram pessoas de várias nacionalidades diferentes formando pequenos grupos, não tivemos muitas oportunidades de iniciar uma conversação. Cada qual com seu grupo.

Uma vez no parque tivemos duas opções de passeio: pegar o trem tipo maria fumaça até determinado ponto dentro do mesmo, ou continuar de van até certo ponto dentro do parque, fazer uma caminhada curta na beira de um rio até certo ponto onde encontraríamos o grupo que escolheu o trem para continuarmos a visita. Preferimos continuar na van e fazer o passeio a pé. Foi uma boa escolha, porque a visita a pé passou por lugares incrivelmente belos. Durante essa caminhada conhecemos o pé de calafate, fruta nativa na região e muito comum. Durante toda a viagem pela Patagônia o calafate esteve presente através de sucos, sorvetes, geleias e licores, além do fruto propriamente (http://pt.wikipedia.org/wiki/Calafate-da-patag%C3%B4nia).

Caminhamos ao lado do Rio Lapataia onde foi possível ver as florestas de lengas e ñires, grandes árvores da Patagônia, ver os pássaros locais que parecem não assustar com os turistas, tivemos a impressão que eles até posavam para fotografias. Outras imagens impressionantes são as das montanhas, muito altas e com neves eternas em seus cumes. Vimos também uma represa de castores, animal vindo do Canadá, introduzido por imigrantes e que se tornou uma praga na Patagônia pelo fato de não ter predadores e suas represas matarem as árvores locais, desertificando toda uma região às margens dos rios. Assim como os cães selvagens, os castores são um problema, não só do parque, mas de toda a Patagônia.

Andando mais parque a dentro, outras surpresas nos esperavam. Como um casal de raposas que brincava alegremente também sem se preocupar com os passantes, e éramos muitos turistas, em vans, ônibus e carros. E as raposas, sentindo-se seguras, talvez, transitavam em meio a nós sem sustos de nenhuma parte. A ideia de preservação da natureza, ambiente, flora e fauna, é muito grande na Patagônia. Eles destruíram totalmente os povos que habitavam aqui, e hoje declaram seu amor às histórias dos índios, suas lendas, seus mitos, tentam preservar uma memória rica de povos que não existem mais. No entanto, os argentinos foram ciosos de matarem a todos para ocuparem as terras. Mas como li em um cartaz em exposição no museu do parque, que narra um pouco da memória dos povos indígenas,

“se prestas atencíon, quizás puedas reconocer sus vocês em el sussurro del viento que las esparce por los vales, donde quizás todavia more Hännus, el gigante del bosque. Voces que, serpenteando por costas y bahias, todavia inquieten a Laküna, ele demônio marino. Voces que nos hablan de la tragédia de um Pueblo que ya no existe. Es bueno escucharlas..., es bueno tener memoria..., es bueno aprender”.

Esse texto, e outros junto com fotos no pequeno museu local são arrepiantes. Fazem-nos pensar na tragédia, na miséria humana que considerou que os índios eram animais sem alma, então poderiam mata-los, com a aprovação da igreja. Matá-los em nome de um deus. Quantos erros não são cometidos por essa ambição das terras? Quantos de nós não somos também frutos desses erros e crimes cometidos num passado tão próximo? Não precisei ir à Terra do Fogo, no Fin del Mundo, para saber disso. Nossa história, minha história, é bem parecida.  


terça-feira, 15 de abril de 2014

SÓ DEPOIS DAS ONZE


Era domingo, estava quente, bateu uma vontade de tomar uma bebida, uma cerveja gelada ou uma cachaça com gelo como se uísque fosse. Instintivamente olhei o relógio. Bebidas alcoólicas só depois das onze da manhã.

Essa história ficou como uma daquelas orientações oficiosas na família, primeiro na casa do velho Chico, depois cada um dos frequentadores da casa do velho Chico a adotou, eu inclusive, como se regra fosse. Eu não me lembrava da origem da “regra”. Lembro-me que, aos domingos, os frequentadores da casa do velho Chico, sabedores de seus conhecimentos e deleites etílicos, iam chegando aos pouquinhos, sós ou acompanhados, às vezes com uma garrafa debaixo do braço, ociosos para conhecerem a opinião balizada do velho, e todos obedeciam a famosa “regra”: o primeiro trago só depois das onze. - Porque só depois das onze? - Temos que ter domínio de nossas vontades, de nossos prazeres e de nossos vícios. Eles não podem nos dominar, nós que os dominamos. A regra ajuda a ter o controle. Uma segunda regra implícita, menos tácita, era: almoço pronto, tomamos o último trago e passamos aos prazeres da mesa.

Eu não me lembrava quem teria começado a “regra”, se o velho Chico, se os manos Júlio e Guilherme, se eu mesmo. Nós três fomos, enquanto o velho Chico vivo era, os mais habituais frequentadores da oficina etílica e dos cursos de formação de degustadores que ele oferecia a quem chegasse. E qual de nós teria sugerido a “regra” tão rapidamente seguida por todos?

Em uma conversa animada sobre esses assuntos mundanos, etilicamente regadas, claro, lembramos. Uma de nossas manas foi casada com um devorador de doses, lembrando que devorador é uma categoria mais diferenciada daquela de degustador. Os devoradores também colocam o prazer do trago como uma variante ocupacional de vida, apenas o prazer deles é mais difícil de ser atingido, a exigência volumétrica sendo um tanto mais além da exigência volumétrica dos degustadores. E a velocidade processual do trago também é bem maior no caso dos devoradores.


E a “regra” foi estabelecida anos atrás, quando o devorador era frequentador da casa dos degustadores, relações conjugais e familiares nos aproximavam. Para diminuir o volume de consumação etílica do devorador e permitir uma convivência mais racional e lúcida até a hora do almoço, em comum acordo definimos: bebida só depois das onze, o que nos dava umas duas horas de deleite absoluto das boas branquinhas, aquelas que elegíamos como as que atendiam ao alto nível de nosso controle de qualidade. E o devorador em questão vigiava o relógio e, às onze em ponto entrava correndo na varanda onde estávamos: - ô gente, já são onze horas. 

sábado, 12 de abril de 2014

RELATOS DE VIAGEM À PATAGÔNIA - DIA 04


12 de março de 2014

Depois do belo almoço na Estância Rolito pegamos a estrada de volta a Ushuaia, diretamente para o hotel, passando antes pela estação de serviço (nome para posto de gasolina) encher o tanque do carro para devolvê-lo à agência. A diferença, na viagem de volta, é que chovia e nevava. Nevava quando a chuva parava. Estranha paisagem, um pouco de chuva e um pouco de neve. As condições climatológicas estavam naquele limite em que a temperatura abaixa um pouco e neva, aumenta um pouco e chove. Estranho equilíbrio para quem não está acostumado. Chegamos a Ushuaia por volta de 17h30min e demos entrada no Hotel The House. De fato uma casa de três pavimentos, uns dez quartos, não mais, uma graça de hotel. Atendimento sorridente e caloroso. Deixamos as malas nos quartos e saímos para conhecer a cidade. Uma graça de cidade, parece cidade grande, totalmente voltada para o turismo.

Nossa intenção era tomar um café, ziguezaguear pelas duas ruas principais da cidade e procurar um restaurante para jantar. Tínhamos algumas indicações de restaurantes, guias comprados em livrarias de aeroporto servem para isso. No entanto chovia, e quem conhece aquela chuva fina e teimosa a cinco graus sabe que o melhor é não ficar perambulando com a água caindo na sua cabeça e entrando pelo seu cangote. Entramos num café, lotado talvez porque os outros turistas também não eram amantes de chuva fina e fria no cangote, várias línguas se falavam ali dentro. Tomei um café irlandês, com uma pequena dose de uísque dando um gosto bem particular, além de aquecer o corpo. Dali só saímos para procurar o tal restaurante.


O tal indicado pelo guia livresco estava fechado e procuramos um outro ao acaso, e demos muita sorte. Era um ótimo restaurante, de poucas mesas, não estava cheio e a comida era muita boa. Escolhemos um robalo gralhado com salada, e bebemos um vinho muito interessante: um Don Bosco, chardonnay blanc 2012, chileno, meio frutado, delicioso. Depois do jantar, de volta ao hotel bem rapidinho que chovia forte. A chuva parou quando quase chegávamos ao hotel, no alto do morro, tempo de uma parada em um mirante para vermos a cidade à noite. Bela cidade.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

RELATOS DE VIAGEM À PATAGÔNIA - DIA 03 e 04

HISTÓRIAS DE ESTÂNCIA ROLITO

11 e 12 de março de 2014

Permito-me sair um pouco da lógica cronológica que eu seguia até aqui, uma vez que no terceiro dia de viagem, ao fim de tarde, chegamos à Estância Rolito, encontramos pessoas diferentes, paisagens completamente diferentes, e um jeito de viver inusitadamente diferente.  E essa passagem pelo local merece um relato à parte. Estância é a palavra em espanhol para fazenda, e Rolito é o apelido de alguém que se chamava Rodolfo Luna e teria sido, segundo relatos, filho do primeiro proprietário da estância, Sebastian Luna, que lá se instalou em 1927. A atual proprietária, Annie Luna, filha de Rolito, e sua família, recebe os visitantes. Quem se interessar em saber onde fica esse é o mapa do local:

Quando paramos o Ford Ecosport alugado na porta da estância, Annie Luna nos esperava sorridente e foi logo nos cumprimentando em francês. Essa foi a primeira surpresa. O pai de Annie Luna era dentista em Buenos Aires, mas preferiu cuidar da estância que de bocas alheias, sua mãe era uma senhora rica de Buenos Aires e falava francês e obrigou a todos os filhos a aprender e falar francês. Pepê (José), marido de Annie, brincou, quando lhe perguntei porque ele falava francês tão bem, e ele respondeu, zombeteiro, que a sogra não permitiria que ele se aproximasse de sua filha se não aprendesse a falar francês.

Tão logo nos instalamos nos quartos, confortáveis e amplos, passamos à sala da casa grande da estância onde nos esperavam a família (Annie e Pepê, depois Ana, a filha do casal e, no dia seguinte apareceu também Luiz, o filho do casal). A conversa foi muito agradável, com a família solícita a nos entreter com sua bela conversa, cheia de histórias de família, história da estância, do trabalho e dos problemas atuais da estância, que se modifica aos poucos com o passar dos anos e com as mudanças na economia argentina e no modo de viver das pessoas nesse local distante, próximo à Terra do Fim do Mundo, como eles mesmo dizem. A conversa continuou durante todo o jantar, com boa comida e ótimo vinho, Don David Finca La Maravilla, Malbec 2012, da Bodega El Esteco.

A estância ocupa uma área enorme na Patagônia, por lá tudo é exagerado, dedicava-se à criação de ovelhas e hoje, de gado bovino, as ovelhas são apenas para consumo doméstico, uma tradição local que se perde. Perguntei porque eles estavam mudando o rebanho, sendo as ovelhas muito mais adaptadas a um ambiente bem difícil como aquele, frio a maior parte do ano e muitos meses cobertos de neve, e a resposta foi chocante. Estão perdendo grandes quantidades de ovelhas, mortas aos ataques de cães selvagens. Como assim, não são lobos? Não, lobos caçam apenas para comer, uma ovelha morta alimenta uma matilha de lobos por muitos dias. Cães selvagens matam por matar, uma matilha de cães selvagens pode matar duzentos a trezentos animais em uma noite deixando a carne apodrecer. De onde vem os cães, perguntei. São cães abandonados por seus donos, nas cidades vizinhas, quando eles mudam deixam os cães ao relento, hoje eles já formam matilhas de cães totalmente selvagens. Como combatem? Caçamos os cães a tiros, não tem outro jeito. Os cães que não são treinados, matam outros animais selvagemente, sem dó. Na Estância Rolito e em várias outras do sul da Patagônia, não se cria mais ovelhas em grande produção. Essa foi também a razão para se engajarem no turismo. Como vem um grande número de turistas estrangeiros lhes visitar, dedicam-se ao turismo e à criação extensiva de gado bovino.

Essa história sobre os cães me deixou triste. Fomos dormir no sossego da noite fria, lá fora estava uns dois graus Celcius, o aquecimento funcionava normalmente e dormimos aquecidos e embalados pelas histórias. No dia seguinte o café da manhã foi recheado de biscoitos e pães caseiros, deliciosos, geleias de calafate, uma fruta local, também deliciosas. Após o café da manhã Pepê nos levou para dar uma volta na floresta local, uma floresta de lengas, de ñires, de coihues, as árvores locais, principalmente lengas, florestas inteiras de lengas, árvore enormes e grossas, de tronco rugoso.
As lengas são muito altas, procuram o sol e, com isso, não permite o crescimento de arbustos e mato no solo, apenas gramíneas baixas o que permite o caminhar com facilidade entre as árvores. Outra curiosidade, em função das baixas temperaturas o ano todo, com neve boa parte do tempo, não há microrganismos em quantidade no local. As árvores envelhecidas e caídas ao chão não apodrecem. Sem cupins, sem formigas, sem micróbios, elas não apodrecem e o chão fica repleto de tronco de árvores e tocos velhos. Ótimo para a cozinha a lenha e para a lareira. Também não tem cobras, lagartos e outros répteis. Uma paisagem inusitada e diferente de tudo que eu conhecia como floresta. Muito bonito. Outro toque interessante são as coberturas de liquens em algumas lengas. Dão um colorido especial na floresta.

Na volta visitamos o imóvel usado para tosquiar ovelhas e para secagem das peles das ovelhas abatidas. Um galpão mecanizado, agora com pouco uso pela diminuição do rebanho e mudança de atividade pecuária. Depois um passeio para fotos locais. Annie Luna cultiva flores, algumas espécies diferentes de flores, outras conhecidas com outros nomes entre nós, a estância e suas casas de madeira formam um conjunto bem interessante de se visitar.


O almoço foi numa cozinha separada da casa, tipo cozinha de verão, com uma chaminé, uma churrasqueira, e uma mesa grande. Acomodamo-nos na mesa escutando os assuntos agradáveis de Pepê enquanto observávamos Annie e uma empregada cuidarem do assado: costela de carneiro. Uma delícia. Maravilha. A comida muito apetitosa e o vinho era bem diferente: um San Felipe 12 Uvas, de Mendoza. Doze cepagens diferentes na mesma garrafa. Não é um grande vinho, sua cotação no mercado não é grandes coisas, mas caiu bem no momento por ser diferente do que eu já havia bebido, porque oferecido por grandes anfitriões e porque a mesa era convidativa a uma boa refeição: costela de carneiro, batatas assadas, saladas. E o tempero da costela era muito bom. Depois do almoço um café, mais dois dedinhos de prosa e estrada que aqui vamos de volta a Ushuaia. Eu, condutor, apenas provei do vinho, não tinha bafômetro à vista naquela estrada deserta, chuvosa e com neves esparsas. Mas trouxe uma garrafa para beber um dia desses.


terça-feira, 8 de abril de 2014

RELATOS DE VIAGEM À PATAGÔNIA - DIA 03

11 de março de 2014

De pé às seis horas de novo. É a hora que nos acostumamos a despertar. Uau, tão cedo por quê? Mesmo em férias nossos hábitos permanecem. Com isso arrumamos nossa bagagem com calma, tomamos uma boa ducha e fomos ao café da manhã. Que não era no hotel. Foi um café da manhã em um café vizinho ao hotel, que se chama Hotel Pop. Pop mas sem restaurante ou bar. O café em questão abriu às 08h5min, às oito já estávamos à espera na porta, sem problemas, não somos estressados, embora sabíamos que o taxi nos pegaria às oito e meia para nos levar ao aeroporto. O serviço do café nos surpreendeu: um suco de laranja, duas torradas de pão de forma, frutas à vontade (banana, melão, maçã e pera descascadas e picadas), um croissant (aqui chamam de média luna), marmelada e creme de queijo, café com leite e água mineral com gás. Maravilha. Voltamos ao hotel, eram exatas oito e meia e o taxi nos esperava. Descemos as malas e já para o aeroporto. Que se localiza às margens do Rio do Prata, em meio ao trânsito. Buenos Aires é enorme, as distâncias são longas, tudo é muito longe, como São Paulo.

O aeroporto Aeroparque se parece com todos os aeroportos: gente apressada, gente relaxada, serviço de companhias aéreas razoável, desde que não haja nenhum incidente, claro, senão as pessoas entram em pânico e os funcionários não estão preparados para atender pessoas em pânico, isso também é normal no mundo todo. Além de pessoas em pânico, os aeroportos são ótimos locais de encontro de pessoas que se acham melhores que os outros e exigem atendimento vip, ou que o pânico delas deve ser resolvido em primeiro lugar. Aeroportos são lugares de encontro de vaidades de todos os matizes. E tem lojas, vende-se de tudo nos aeroportos e com preços maiores que em outros lugares.

E lá vamos nós para Ushuaia, com escala em El Calafate. Hora do voo, 10h50min; hora da partida, 11h10min; tempo de voo, 3h20min até El Calafate; tempo de espera em El Calafate, 35min; tempo de voo de El Calafate até Ushuaia, 1h. Voo lotado, metade dos passageiros desce em El Calafate, e lá enche de novo. Chegada a Ushuaia, 16h20min; tempo de espera das malas, 20min.

Tínhamos um carro já alugado no aeroporto, pegamos um Ecosport e partimos ruma à Estância Rolito, onde passamos a noite. Temperatura externa de cinco graus (que frio), nevava ligeiramente e o vento era cortante. As orelhas gelaram imediatamente. Entramos no carro, esse logo se aqueceu e, estrada que te quero.
Uma vez no carro passamos a cidade de Ushuaia pelo caminho beira-mar. O porto estava pleno de navios, inclusive um muito grande, de cruzeiro. Na saída da cidade a polícia rodoviária nos parou e pediu passaporte, anotou nossos nomes e para onde íamos. Não sei se era rotina ou se foi chatice mesmo. No entanto, o policial tinha uma cara simpática e foi muito gentil conosco. Depois ficamos sabendo que eles sempre param todos que tomam o caminho.

Continuamos. A estrada é belíssima, passamos entre montanhas muito altas e com vistas belíssimas para vales e lagos. Muitos e grandes lagos. No caminho nos demos conta que não tínhamos nada para comer. Almoçamos apenas biscoitinhos de voo, mesma coisa das companhias aéreas brasileiras. E, à medida que avançávamos na estrada, percebemos que entrávamos em regiões despovoadas, sem nada, absolutamente nada, às margens da estrada. Só encontramos alguma coisa na cidade de Tolhuin, a cem quilômetros de Ushuaia. Entramos na cidade e encontramos uma padaria muito boa e barata. Comemos pouco, uma vez que faltava apenas mais quarenta quilômetros para nosso destino e éramos esperados para jantar. Estávamos chegando à Estância Rolito, a cento e quarenta quilômetros de Ushuaia, para passar a noite e conhecer uma autêntica fazenda da Patagônia. Chegamos por volta de 19h e fomos recebidos pela família proprietária da estância: Annie, Pepê, e os filhos Luiz e Ana, com uma surpresa: todos falam francês. Imaginei como isso é possível? Fazendeiros lá da Terra do Fogo falando fluentemente o francês. Para Hélène e Bernard, nossos amigos e companheiros de viagem, franceses foi muito bom. Para nós também, não precisaríamos traduzir do espanhol para o francês.

Ocupamos os nossos quartos e nos preparamos para ouvir histórias. E foram muitas histórias. Passo a contar algumas delas.


segunda-feira, 7 de abril de 2014

LONDRES-PARIS EM BICICLETA - DIA 01


A PARTIDA DE BELO HORIZONTE
03/09/2013

A viagem começa em Confins, nosso aeroporto internacional onde tomamos um voo para Lisboa, escala para chegar a Paris. Tinha em mãos o livro de Maria Augusta, Porque ler Oswald de Andrade, meu livro de cabeceira naquele momento e que ficou esquecido dentro do avião nessa viagem. Passear, pedalar, rever amigos e conhecer outros eram objetivos da ocasião. Lendo Oswald de Andrade veio a ideia para um possível título de um livro de poesias que pretendo publicar um dia: SEMENTEIRA. Porque? É algo que quero plantar, e plantar sempre começa com as sementes, e espero fazer desse livro sementes para outros livros que gostaria de escrever. Minha primeira ideia é publicar os CURTAS e os OBJETOS. O primeiro são cenas curtas, como cenários possíveis de serem filmados como curtas-metragens. Não sou cineasta, então escrevo. Também não são roteiros, são crônicas-poemas. Posso classificar como poesias crônicas, apelando para o duplo sentido da expressão? Particularmente a ambiguidade da palavra crônica, como uma doença sem cura. Poesias crônicas refletiria um aspecto de minha vida, em que escrever é um mal sem cura: crônico. SEMENTEIRA DE POESIAS CRÔNICAS. A tentar.
A chegada a Lisboa aconteceu às 05h40min, e fizemos uma caminhada de dois quilômetros até a porta vinte que nos leva a Paris-Orly. O voo para Paris estava com meia hora de atraso, o que nos facilitaria a vida, não precisaríamos correr. O dia amanhece em Lisboa às sete horas, nessa época do ano (outono na Europa). No café do aeroporto um velho atendente nos serve um café e nos pede moedas para facilitar o troco. Acabávamos de entrar na zona do Euro e não tínhamos moedas. Sua primeira demonstração facial foi de desapontamento, depois se tranquilizou e nos serviu calmamente.
O voo para Paris saiu com uma hora de atraso. Pousar em atraso na Europa não estava em minha cabeça, no entanto, na Europa como no Brasil, voos atrasam. Isso nos permitiu chegar calmamente à porta vinte, onde se entra no avião para Paris. Em Paris-Orly ainda ficamos meia hora dentro do avião à espera do ônibus que nos levaria à sala de retirada de bagagens. A comissária de bordo nos dizia que o serviço do aeroporto estava prejudicado, naquele dia, pela chegada do presidente da França de sua viagem ao Egito, e isso ocupava o pessoal de serviço térreo com sua segurança.
Em Orly nos esperavam Hélène e Bernard Richoux, nossos anfitriões, e nossos amigos na França há mais de quinze anos. São tão gentis que nos parecem amigos de infância. É exatamente isso, encontrei novos amigos de infância, uma raridade. Sempre que podemos nos encontramos, e isso acontece pelo menos a cada dois anos. Desde que voltamos de nossa temporada morando na França, em 1999, já nos encontramos sete ou oito vezes, na França e no Brasil. Conversamos pela Internet, pelo telefone, e programamos viagens em conjunto. Dessa vez eu usaria a casa deles nas proximidades de Paris como pouso, o projeto do momento era ir a Londres e pedalar de volta a Paris, passando uns dias na casa deles. Não posso deixar de registrar a presença deles em nossas vidas. Os dois são professores de Física no nível de ensino que chamamos, no Brasil, de Ensino Médio. Como nós também somos professores de Física, formamos um quarteto com a mesma profissão. Por isso também trocamos impressões, conhecimento, além do prazer de conviver e beber vinhos.
E assim foi nossa chegada a Paris, recebidos por amigos queridos. Em seguida, os preparativos iniciais da viagem a Londres e a pedalada Londres-Paris.


quinta-feira, 3 de abril de 2014

RELATOS DE VIAGEM À PATAGÔNIA - DIA 02


10 de março de 2014

“Seis horas. Salto do leito”. Assim inicia um poema daqueles autores que a gente lê na infância, na escola primária, hoje ensino fundamental. Não foi esse autor que me fez gostar de poesia. Quem teve esse mérito foi Kipling, que eu lia na coleção Tesouro da Juventude, comprada por meu pai, até hoje presente na estante na sala de visitas de sua casa, hoje casa de minha mãe.

Levantei-me às seis. Café da manhã naquele hotel perto do aeroporto de Guarulhos, com um serviço muito ruim pelo preço cobrado, fechamento de malas e rumo ao aeroporto. Buenos Aires nos espera. O voo de São Paulo a Buenos Aires foi exatamente entre 11h20min e 14h20min, ou seja, na hora do almoço. Ou melhor, na hora daquele lanchinho mixuruca da companhia aérea. Tradicional. Chegamos ao Hotel Pop às 16h e fomos comer alguma coisa às 18h. Ficamos próximo a Palermo, bairro tradicional de Buenos Aires, que alterna prédios e casas muito antigas com construções modernas. Não é uma região de prédios muito altos, é bem arborizada de grandes e velhas árvores. No hotel encontramos Bernard e Hélène, nossos grandes amigos franceses e já saímos juntos para lanchar e fazer pequenas compras. O câmbio estava a 1 x 3,6, melhor estava na semana anterior, disseram-nos. Os preços são altos, provavelmente por ser Palermo. Numa lanchonete ao lado do hotel pedimos dois tostados com presunto e queijo, enormes, por quarenta pesos. E tomamos a cerveja Quilmes, argentina, que agora é da Brahma. Boa cerveja.

Depois das primeiras andanças pela cidade para pequenas compras necessárias para a continuação de nossa viagem, fomos jantar. Salada e frango com batatas fritas e molho de limão. Parece simples, não é? Estava maravilhoso nosso jantar. A cantina, típica de Buenos Aires, se chama exatamente La Cantina. Cheia de camisas de times de futebol nas paredes e em painéis pelo teto, de clubes argentinos e estrangeiros (não tinha nenhuma camisa de times brasileiros), e uma enorme bandeira da Argentina em uma das paredes, com uma foto do Papa Francisco no meio da bandeira. E muitos quadros nas paredes, em uma bela mistura de cores e de motivos. Um restaurante interessante. O garçom falava muito alto e era gentil, a comunicação com ele fluiu facilmente, sem problemas.


O vinho escolhido foi um Trapiche Cabernet Sauvignon, 2011, de Mendonza, bom vinho de frutas negras maduras, notas de especiarias e taninos macios, deixam na boca o sabor das frutas negras. A conta, foi de quatrocentos e dezessete pesos, ou cento e vinte reais para quatro pessoas. Barato. Mas como nos disseram que os preços em Buenos Aires eram uma maravilha, esperávamos pagar menos que isso. No entanto, trinta reais por pessoa pagamos por um tira-gosto com uma cervejinha depois de uma corrida na Lagoa da Pampulha, em um bar de fim de tarde. Acho que nossos preços é que estão muito caros.

RELATOS DE VIAGEM À PATAGÔNIA - DIA 01


09 de março de 2014

Nova viagem, novos relatos. Primeiro dia, apenas São Paulo. Às onze horas já estava no Aeroporto de Confins esperando o voo de 12h02min que me levou ao Aeroporto de Congonhas em São Paulo. É o primeiro ponto de parada de uma viagem de quase vinte dias. Passei a noite em São Paulo, em um hotel ao lado do Aeroporto de Guarulhos, ponto de saída do Brasil. Demos início, Silvania e eu (ela já estava em SP e eu a encontrei no hotel), a uma viagem para cidades da Argentina e Chile, começando, obviamente, por Buenos Aires. Maravilha. Para mim é um prêmio por quarenta anos de trabalho, junto com a notícia de minha aposentadoria. Fui para cidades e montanhas frias. Adoro cidades e montanhas frias.

Primeiro, Confins, com partida de ônibus na Pampulha, Belo Horizonte. No ponto de ônibus tinha um senhor fazendo terrorismo com os passageiros, dizia que ônibus para o terminal de Confins sofreram seis assaltos em dois meses: um absurdo aterrorizante. A violência urbana degenera a vida das pessoas, no entanto, em um domingo as 09h da manhã, seria o cúmulo do azar. Um assalto hoje, meu primeiro dia de férias, nem pensar! Tinha um Iphone e um Ipad e dois mil reais em minha mochila. Não poderia perdê-los. Levava dinheiro porque a recomendação era trocar reais por pesos argentinos nos câmbios paralelos de Buenos Aires que pagam mais que a relação um peso igual a vinte e oito centavos de real. Onde chegamos com planos econômicos desastrosos. Histórias de nossas nefastas políticas econômicas. A troca de dinheiro nos câmbios paralelos locais se justificam por duas razões: moedas estrangeiras em falta na Argentina, com os controles cambiais do governo de lá; as altas taxas de impostos que pagamos ao governo de cá em casos de compras e pagamentos com cartões de crédito no exterior. Dois países que exploram em demasia suas classes médias, aquelas que movimentam o dinheiro. São ordenamentos na contramão de uma famosa lei da natureza: faça o dinheiro circular que ele volta para você. Não sei se a lei vale quando os governos cobram altas comissões, à nossa revelia. 

Voltando a Confins, o aeroporto está um caos. O movimento é grande. Hoje, as pessoas viajam de avião e o aeroporto se encontra em período de obras que nos parecem intermináveis. Sujeira, poeira, gente perdida, informações desencontradas, imagino como os usuários não habituadas se sentem, principalmente aqueles que chegam a BH, ou melhor, nos Confins, e não encontram indicações que lhes mostrem a saída. E se não falam nossa língua? Horas depois, em Congonhas, tomei o ônibus para Guarulhos.

As histórias me perseguem, parece. Ao pousar, todos os viajantes se levantam apressadamente como quem quer sair logo dali, daquela lata de sardinha chamada aeronave. Em um banco logo atrás do meu levantaram um casal com uma criança, tipo espertinha, e o menino se põe a falar. – Pai, estou com fome. Quero comer. E eu quero comer ovo. Tem muito tempo que não como ovo. Mas eu quero daquele ovo deitado. – Que ovo deitado, menino? Como é isso? – Adoro aquele ovo deitado no prato. – Essa eu nunca havia escutado.

Domingo, trânsito tranquilo, a viagem para Guarulhos durou cinquenta minutos. Olhei a paisagem, não cochilei. Na saída do terminal dois, caminhando para o ponto da van que me levaria ao hotel, fui abordado por um senhor ruivo, uma senhora morena e uma jovem branca, que se diziam família, e me pediram dinheiro. Choramingavam por um irmão doente em Ribeirão Preto e que deveriam visita-lo e faltava oitenta e nove reais para a compra das passagens. Disseram ser de Guaxupé, tinham a cara chorosa e prometeram depositar em minha conta assim que pudessem. Posso ter caído no maior conto do vigário da paróquia, eles podem ter me achado com uma cara de otário, mas tirei cem reais do bolso e entreguei a eles, junto com os dados de minha conta para que eles depositassem de fato. Veremos. Se a história for verdadeira, terei colocado o dinheiro para circular e ele voltará a meu bolso no futuro. Agora é esquecer os cem reais e dá-lo como perdido. A van do hotel chegou e entrei nela.


Hotel próximo ao aeroporto é um pouso em lugar nenhum, apenas um hotel perto do aeroporto. E eu que vou para a Terra do Fim do Mundo, em Ushuaia, tive a impressão de já ter chegado. A lugar nenhum. Subi ao quarto, passei uma mensagem à minha mulher – cheguei. No hotel havia uma nata de pesquisadores em Ensino de Física. O primeiro que encontrei foi o Demétrio, grande figura de Florianópolis, amigo de longa data e grande papo. Depois foram saindo outros da sala em que se reuniam, a maioria eu conhecia, outros fiquei conhecendo naquele momento. E o São Paulo ganhou do Corinthians por três a dois. Depois que todos se foram, jantamos e saboreamos um La Nina, Chardonay, Argentina, para entrar no clima.

La Niña 2011, Chardonay


                
Nuvens de pipoca na chegada a São Paulo