terça-feira, 21 de janeiro de 2014

COMPORTAMENTO


             i.   O trovão

Minha mãe sempre falava que os homens da família Ventura não falavam, trovejavam. O trovão não é um evento isolado, ele não aparece assim, sem mais nem menos. Primeiro um tanto de nuvens negras se aglomera e se avoluma, e se adensa, se movimenta, cria tensões entre elas e, de repente, raios, relâmpagos e ... trovões. O trovão é um descarrego de todas essas tensões acumuladas. Era isso que minha mãe queria dizer. Nós, os homens Ventura, deixávamos acumular as tensões e, ao trovejarmos, já havíamos descarregado em sei lá quem, talvez um pobre coitado que nem soberbo era, cujo defeito era estar próximo, todos os nossos raios e relâmpagos. Lembro-me de não sei quantas brigas eu ia cozinhando a chateação e quando as nuvens negras se adensavam sobre minha cabeça eu só parava quando alguém me puxava. E a briga era aos berros, trovejando. Com o tempo tive que aprender a controlar esses trovões. O único jeito era não deixar as nuvens negras se avolumarem. Movimentos, esportes, corridas na chuva, pedaladas de horas, até ficar cansado e esparramar nuvens para todos os lados. Isso me custou um casamento, custou a distância de pessoas queridas. Acho que aprendi. Hoje me considero um doce de pessoa. Falo baixo, não mais trovejo (raramente), aprendi a escutar primeiro, com muito, muito custo. Hoje, com o aprendizado da meditação, da respiração controlada, consigo ficar calado, embora de vez em quando minha companheira ainda tenha que me chamar a atenção por alguma ligeira recaída. Esse é um tipo de comportamento que me custou caro mantê-lo e caro modificá-lo.

             ii.      As mulheres

Quando criança e adolescente eu era absurdamente tímido. Não conseguia conversar com outras pessoas, apenas observava comportamentos alheios. Aprendi, pelo menos, a ser observador. A prestar atenção em tudo à minha volta. E, chegando em casa, comentava tudo que meu radar de observação havia registrado. Assim, tinha também muitas histórias. Soma-se a isso a educação severa que eu recebi, principalmente no sentido de respeitar as pessoas, respeitar as mulheres. Para minha mãe era manter distância das mulheres. Com isso tive poucas e insatisfatórias experiências sexuais até conhecer uma mulher e casar com ela. Quando levei um susto estava casado, com vinte e poucos anos e dois filhos. Tudo era muito lindo, maravilhoso, mas em dado momento eu quis conhecer as mulheres, conhecer várias mulheres. E namorei, escondido, o quanto pude e não deveria, era casado. Entre os trinta e os quarenta anos, namorei uma infinidade de mulheres. O que me custou o casamento primeiro e quase me custou o segundo ainda recém iniciado. Tive que tomar uma decisão. Minha segunda companheira, e atual, é uma pessoa maravilhosa, inteligente, bonita, bem humorada e muito companheira. Tive que parar de namorar. Mantenho as mulheres a uma distância segura. Sou um mulherengo nato (outra fama ruim dos homens Ventura). Mas hoje a palavra mulherengo tem outro significado para mim. Meu universo cotidiano é primordialmente feminino. Tenho muitas amigas, trabalho com muitas mulheres, rodeio-me de muitas mulheres, exercito meu charme, mas não as namoro.

             iii.      O trabalho


Eu nunca soube qual era minha vocação. O trabalho foi aparecendo. E fui pegando à medida em que era necessário. Primeiro, em casa mesmo. Tínhamos uma horta grande, que produzia muito, e eu vendia os excedentes. Desde tenra idade saia com um balaio de verduras e legumes para vender na cidade. Conheci a cidade de Nova Lima de cima a baixo, entrava em todos os seus becos para esvaziar o balaio. Aos quinze anos passei em um concurso para ser contínuo em um banco. Que horror. Consegui ficar dez meses nesse trabalho. Para nunca mais me meter com contas dos outros. Como eu tinha que entregar cobranças para os clientes do banco eu conheci o restante da cidade, as poucas vias e ruelas que ainda não conhecia. Este foi o único lado bom do trabalho. Então resolvi me ocupar apenas dos estudos. Como passei no vestibular para Física, sei lá porque escolhi essa disciplina, fui logo chamado para ser professor na mesma escola em que eu acabava de me formar no ensino médio. E nessa profissão fiquei até me aposentar. Colecionei locais de trabalho, porque eu não sou muito afeito a chefias, a mandantes, e sempre que eu me chateava com algum deles eu mudava de local de trabalho. A vantagem de ser professor de Física é que nunca faltou local de trabalho. Ele me procurava. Mas eu nunca foquei muito no trabalho. Essa foi uma falha grande, hoje o sei. Mas consegui ser professor por quarenta anos, parei agora e invisto em outra profissão: a de coach.