quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

ADEUS AO CHICO



"Deus nos dá pessoas e coisas, para aprendermos a alegria...
Depois, retoma coisas e pessoas para ver se já somos capazes da alegria sozinhos... 
Essa... a alegria que ele quer" (Guimarães Rosa).

Carrego comigo, para sempre, uma coleção dos últimos momentos do velho Chico, não o rio, mas o Francisco, que era forte como o rio. E que, no último dia do ano, nas últimas horas do ano, sob os fogos de artifício que anualmente marcam esses últimos momentos do ano, foi desaguar no mar do desconhecido pós-ciclo de vida, dessa vida. Lá se foi o Chico, e me deixou com essa forte coleção que não ocupará nenhum diaporama de exposição, ocupará apenas a minha memória. E antes que a memória se dilua, tento eternizá-la, pelo menos para mim mesmo.
Brindamos, e bebemos juntos, seu último trago de cachaça, aquela sua preferida de todos os domingos antes do almoço. Comemos juntos seu último tira-gosto, que acompanhou seu último trago. A cirurgia de depois o impediu de continuar cultivando esses prazeres. Foi quando a vida lhe pregou uma peça e o impediu de cultivar alguns de seus prazeres, esse entre eles. Nossa vida passou a ser mais de cuidados que de prazeres, eu (e os manos) cuidando dele, ele sendo cuidado fisicamente por nós, ele cuidando de nós espiritualmente para que a despedida previsível não fosse tão dolorosa. Apenas carregada de lembranças.
E eu tive a oportunidade de guardar essa coleção de últimos momentos. Guardo seu último olhar, antes que seus olhos passassem a enxergar outras coisas, além desse espaço, além de nossa consciência, além de nossa compreensão. Guardo seu último esboço de sorriso, exatamente quando eu entrei em seu quarto de últimos momentos. O sorriso foi tímido, carregado da dor que o comia por dentro, mas um sorriso. Anterior a seu último olhar. Guardo também sua última palavra audível, que ele proferiu olhando para mim. E sua última palavra pronunciada foi meu nome, como se ficasse contente em me ver e se despedisse simultaneamente.
Guardo em meus olhos o último movimento de seu gogó, antes que sua respiração findasse de vez. Guardo em meu dedo indicador direito a última pulsação de suas artérias. Eu com o dedo em seu pescoço, tentava sentir sua vida se esvair para registrar aquele infinitésimo último minuto, e assim registrei o último pulso da última onda de vida. Ainda sinto em meu indicador direito essa última vibração.
Fico com minha coleção de últimos momentos, mas não fico com a dor. Recuso a dor. Aprendi a alegria. Aprendi o bom humor. Aprendi as curtas frases de efeito capazes de fazer rir quem está próximo vivenciando os mesmos momentos, os duradouros momentos. Aprendi que a vaidade e o orgulho são mesquinhas características humanas que, felizmente, tem bons antídotos: o exercício da humildade e do perdão. Aprendi que um olhar e bons ouvidos podem dizer muito mais que discursos longos e vazios.

Sou capaz da alegria sozinho, mesmo com a perda de pessoas e coisas. E com a alegria quero viver até os meus últimos momentos, que, espero, sejam registrados por alguém que eu ame.