quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

LONDRES PARIS - SÉTIMO DIA DE PEDAL

A CHEGADA EM PARIS

14/09/2013
O café da manhã no hotel Formule Un foi o mais barato de todos nessa viagem, quatro euros e oitenta centavos, e também o mais fraco. Pão, manteiga, geleia, mel, cereais, doces, café e leite. Como eu precisava de alimentos mais calóricos caprichei no mel. Bebi uns três ou quatro daqueles pacotinhos de mel. Às dez horas, pegamos a estrada. Claro que chovia e choveu a maior parte do dia. A meteorologia dava noventa porcento de possibilidade de chuva para o dia e a chuva caiu cheia de vontades para cima dos ciclistas. Os caminhos são muito interessantes, bem sinalizados a maior parte do tempo, e passa por lugares muito bonitos. Estávamos perto de Paris, perto de uma estação de trem, o RER C, que nos levaria ao centro de Paris em quarenta minutos. E a ciclovia tinha sessenta quilômetros de extensão, o que nos tomaria o dia inteiro de pedal. Nem a chuva nos fez pensar diferente: sessenta quilômetros até a Catedral de Notre Dâme e seguimos em frente.

Estávamos próximo do Rio Oise e nosso trajeto acompanhou as curvas do rio. O Rio Oise é afluente do Rio Sena. Chegaríamos ao Sena em algumas horas e o seguiríamos até Nanterre (http://pt.wikipedia.org/wiki/Nanterre). Seguimos em frente, direção Neuville-sur-Oise, Conflans-Ste-Honorine, e outras pequenas vilas do trajeto. O caminho entra por uma floresta maravilhosa onde encontramos com vários ciclistas, corredores, colhedores de champignons, caminhadores. É a floresta de Saint-Germain-em-Laye. Atravessamos o Sena em Sartrouville e o acompanhamos por uma boa distância, ou ele nos acompanhou, não sei. O Sena é lindo, a ciclovia o margeia em paralelo, em vias arborizadas e exclusivas. Em Saint-Germain-em-Laye o Château de Saint-Germain e o Château de Monte-Cristo nos fizeram parar para fotos.

E a chuva continuou, fininha por enquanto. Em Chatou atravessamos o Sena e passamos ao lado da Ilha dos Impressionistas, onde tem o belo Jardim de Monet. Tivemos vontade de parar, maior era a vontade de chegar. Em Collombe a ciclovia deixa de ser exclusiva, dividindo caminhos com automóveis até o destino final, afinal estávamos já na região metropolitana de Paris, superpovoado. Ali paramos para o nosso almoço, sanduíches feitos na hora em uma padaria, chá preto e água. Evian, claro.

Collombe ficando para trás, chegamos a Gennevilliers e Saint Denis. Em Saint Denis fica a parte mais difícil de todo o trajeto desde Londres. Eram dezessete horas, havia muita gente na rua e foi o único lugar em todo o trajeto em que as pessoas, a pé ou motorizadas, não nos dão passagem. Dividimos a via com carros, tramways e pessoas. Demos uma paradinha no Stade de France, estádio onde a seleção brasileira foi derrotada para a França na final da Copa do Mundo de noventa e oito. Logo á frente chegamos ao canal que nos levaria a La Villete, primeira locação interessante em Paris, parada obrigatória para uma foto. Mais uma hora e chegaríamos ao destino. Cometemos um pequeno erro de leitura do mapa, em Paris há muitas ciclovias diferentes, a numeração delas se mistura, e uns trechos em obras com desvios nos confundiu. Ao dar a volta no desvio nos perdemos e aí valeu o meu conhecimento da cidade, dos tempos em que lá morei e andava sem rumo pela cidade, admirando suas belezas. Pegamos o Boulevard Magenta até a Place de la Republique, Rue du Temple, Rue Beaubourg atás do Centre Pompidou, e pronto: Catedral de Nôtre Dame à vista. Mais uma pequena volta e chegamos. Eram dezoito horas e quarenta e cinco minutos, chuva, muita chuva. Mesmo assim, a foto de chegada era obrigatória e a despedida de meus companheiros de jornada.

Eu ainda tinha um pequeno trajeto a fazer: ir até a Gare de Austerlitz pegar o trem que me levaria até Sainte-Généviève-des-Bois onde moram meus amigos, meus anfitriões na França.

E um viva à vida. Um viva a mim. Um encontro com as diferenças e os “diferentes” é a atividade mais enriquecedora da qual tenho participado.












quinta-feira, 27 de novembro de 2014

LONDRES-PARIS: SEXTO DIA DE PEDAL


13/09/2013

Ao acordar, não me lembrava que era sexta-feira treze, dia dos azares possíveis e inacreditáveis. Sem acreditar nos azares possíveis e inacreditáveis da vida, levantei-me, tomei uma ducha e desci para o café da manhã no Hôtel Moderne, em Gisors. E pela primeira vez não acordei com os roncos de meus colegas de viagem, tão cansado estava depois de pedalar os oitenta quilômetros do dia anterior. Chovia muito finamente e, logo, logo, tomamos a estrada, que agora seguia rumo a Cergy (http://pt.wikipedia.org/wiki/Cergy). A decisão de ir até Cergy foi tomada na estrada, para dizer a verdade. Faltavam cento e vinte quilômetros para o destino final, Paris. Como estávamos em forma e a rota a partir de Gisors era de poucas subidas e descidas, refizemos nosso propósito de fazer o trajeto em três dias e resolvemos fazê-lo em dois. Sessenta quilômetros por dia era uma meta mais que viável. Foi uma boa decisão.

O caminho seguia por pistas exclusivas para bicicletas até Bray-et-Lû. Na paisagem, fazendas, vilas e castelos. Tão parecida e tão diferente das paisagens anteriores. Nas fazendas, menos criação de bovinos, mais plantações de milho, beterraba para o açúcar, e outros. Em Bray-et-Lû retomamos as estradas compartilhadas. A remarcar o Château de Villarceaux (http://villarceaux.iledefrance.fr/), um belo castelo no meio do nada. Depois de Villarceaux, Maudéton-em-Venin, Arthies, Wy-dit-Joli-Village, Gadaucont, Avernes, Théméricourt, Vigny (essa uma vila um pouco maior), Longuesse, Sagy e, finalmente, Cergy.

A etapa do dia foi tranquila, a registrar apenas o encontro com um casal que fazia o mesmo trajeto que nós. Saíram de Londres e chegavam a Paris. Na verdade, eles não chegariam a Paris de bicicleta. Ao final do dia, em Cergy, eles tomariam o trem, porque queriam estar em Paris no sábado. Pedalamos mais ou menos próximo por algumas horas e quando paramos para almoçar nossos sanduiches eles seguiram em frente. A registrar ainda o fato de que chegamos a Cergy e ninguém sabia nos informar onde haveria um hotel no centro que hospedasse ciclistas e suas bicicletas sujas. Finalmente perguntamos a um senhor montado sobre uma enorme motocicleta, dessas com potência de mil e duzentas cilindradas. Ele nos sugeriu segui-lo que ele nos conduziria a um hotel fora do centro. Nós o seguimos, e um quilômetro depois ele nos mostrou um hotel Formule Un, da rede Accord, à beira da rodovia de saída da cidade. Foi muita gentileza dele conduzir sua potente moto devagar tal que pudéssemos acompanhá-lo em bicicletas, e nos mostrar o hotel, provavelmente fora de seu trajeto habitual. Esse foi um lado extremamente positivo da viagem: o encontro com pessoas desconhecidas que se dispõem gentilmente a ajudar. Como os europeus adoram aventuras eles sempre ajudam aventureiros do mundo inteiro. E isso torna nossa viagem mais curiosa e interessante. Obrigado a todos esses ilustres desconhecidos.


O hotel Formule Un tem uma quantidade enorme de pequenos quartos. Todos iguais, com uma cama de casal e uma cama suspensa sobre a cama de casal. Pela primeira vez dormimos em dois quartos. E levamos as bicicletas para os quartos pois não havia onde colocá-las. O WC e a sala de banho (assim que os chamam na França, e são separados) ficam no corredor e são autolimpantes. Após o uso eles se lavam automaticamente. Assim estão sempre limpos. Bem em frente ao hotel havia um restaurante chinês autosserviço, com comida variada e farta, dezesseis euros por pessoa. Autorizamo-nos acompanhar de um Saint-Emillion Grand Cru 2005, trinta e um euros a garrafa, maravilhoso. Depois disso tudo, foi só cair na horizontal que o sono veio logo.

Foto 1: Roberto, eu e a garrafa de Saint-Emillion
Foto 2: A caminho de Cergy
Foto 3: Uma das muitas esquinas do caminho
Foto 4: Ainda a caminho de Cergy, trajeto pelsa fazendas de beterraba
Foto 5: A chegada em Cergy.







quinta-feira, 6 de novembro de 2014

LONDRES-PARIS: QUINTO DIA DE PEDAL


12/09/2013

Ao amanhecer o tempo estava sombrio. O serviço de meteorologia francês indicava cinquenta porcento de possibilidade de chuva na região e parecia que eles tinham razão. Já chovia quando deixamos o hotel. Organizamos as trouxas ciclísticas e fomos a um mercado de materiais esportivos. Eu comprei uma calça e uma veste impermeáveis, além de um para-lama para a bicicleta, que me protegeria um pouco mais do barro e da água jogada para cima pelas rodas. O caminho no momento era asfaltado, seguindo a antiga ferrovia, só não sabíamos até onde iria aquele bom caminho. O asfaltamento da pista era recente, em nosso marca apenas marcava pista em obras, parecia-nos que as obras estavam bem avançadas.

Depois de instalarmos os novos equipamentos, em mim e na bicicleta, tomamos o caminho de Paris. Pouco à frente, talvez menos de dois quilômetros, encontramos um grupo de vinte e quatro pessoas, ingleses e orientais habitantes da Inglaterra, seguindo para Londres, fazendo o caminho inverso ao nosso. Pelo menos até Dieppe iriam pedalando, não sei se pedalariam depois de Newhaven ou se continuariam de trem. Porque o trajeto para Londres não seria fácil para um grupo tão grande de pessoas. Ainda um pouco mais adiante ultrapassamos um pequeno grupo de jovens ciclistas, eles haviam nos ultrapassado no dia anterior, dormiram no mesmo hotel que nós, uma das bicicletas apresentava um pequeno problema. Creio que repararam rápido o defeito, pois uma hora depois eles nos ultrapassaram de novo e não os vimos mais.

A proposta de caminho a seguir era pedalar até Gisors, uma cidade de porte médio setenta e oito quilômetros depois (http://en.wikipedia.org/wiki/Gisors) e com um número de hotéis maior que em Neufchâtel-en-Bray. Por via das dúvidas, telefonamos a um dos hotéis, o Hôtel Moderne de Gisors, e fizemos uma reserva de quarto triplo (http://www.hotel-moderne-gisors.com/accueil.php). Funcionou também como um estímulo a ir tão longe, deve ter sido o dia de trajeto mais longo. Esse seria um dia de desafio e de medida de nossa capacidade de avançar mesmo com chuva. A chuva não nos parecia, naquele momento, um obstáculo tão grande. A meteorologia indicava quarenta porcento de possibilidade de chuva e isso nos parecia querer dizer que não choveria o tempo todo. Realmente, tivemos momentos nublados e momentos de sol alternando com momentos de chuva.

O que não contávamos era com o relevo ondulado. Algumas subidas eram longas, não muito inclinadas, mas longas, sendo que Gisors situa-se em um planalto. A escolha por Gisors também representava uma decisão. Nosso mapa indicava dois caminhos possíveis para se chegar a Paris: um mais longo que o outro e Gisors fica logo depois da bifurcação. Escolhemos o caminho mais curto. Talvez não o mais bonito, mas o mais curto. A ciclovia pela ferrovia continuava até Forges-les-Eaux (http://fr.wikipedia.org/wiki/Forges-les-Eaux), plano, sem traumas, com uma paisagem pouco variável e bonita, com uma pequena porção de mata ao lado do caminho, e muitas fazendas. Gados, ovelhas, plantações. A Normandia é uma região de ótimos queijos (http://www.lesfromagesdenormandie.com/fromages-aoc-normandie-i.html), o grande número de fazendas de bovinos e caprinos se justifica.

Em Forges-les-Eaux termina a ciclovia sob a antiga ferrovia, a continuação seria por estradas compartilhadas com automóveis. Na cidade compramos três sanduiches e três latas de suco para o almoço e continuamos até encontrarmos um local agradável para o lanche. Pouco à frente, em um lugar chamado La Bellière, encontramos uma fonte coberta parecendo uma antiga parada de tropeiros, onde descansamos por meia hora, tempo justo para o almoço. Hora do lanche, hora de fotos, hora de conferir o plano de viagem do dia, quando pedalamos, quanto falta para chegar ao destino. Creio que eram catorze horas.

O caminho, agora em estradas, continuava bonito, As estradas eram, na verdade, estreitas ligações entre vilarejos e fazendas, essas ainda prioritariamente de gado, com pastagens e plantações de feno que, a essa época, estava recolhido e enrolado para ser guardado em silos. Estávamos quase no outono, depois seria inverno, era preciso se preparar para alimentar o gado na ocasião mais fria. Geralmente não neva na região, mas o frio é intenso. A serra gela, as folhas das árvores caem, a vida se dificulta. Um vilarejo após o outro, La Fossé, La Bellière, Pommereux, Haussey, Mènerval, Dampierre-en-Bray, Cuy-St-Fiacre, Cité St-Clair, Gournay-en-Bray. Essa última é uma cidade de porte médio e aqui tivemos um problema. O caminho passa sobre uma ferrovia, que estava em obras, e não nos permitiram avançar. Tivemos que fazer um desvio em uma estrada muito movimentada, plena de caminhões. Seguimos em frente. Olhamos o mapa e percebemos que nossa rota seguia paralela a essa estrada e poderíamos retomá-la mais à frente. Menos mal, perdemos meia hora até compreendermos que o problema não era tão grande. A questão era a comunicação pela metade da pessoa responsável pela obra. Uma bela engenheira com um capacete na cabeça impediu nossa passagem, mandou-nos tomar o desvio, mas não deu nenhuma precisão em suas informações. Talvez tenha sido, em toda a viagem, a única pessoa que não teve boa vontade de dar a boa e correta informação para os viajantes. Ok, isso não nos abala, nossa força de vontade é maior.

Logo, logo achamos o caminho. O curioso foi que, um pouco mais à frente, no momento em que íamos atravessar a rodovia, uma jovem que seguia a pé e que também foi impedida de ultrapassar a ferrovia no mesmo local que nós, me pergunta se estava no caminho certo para Ferrière-en-Bray. Eu tinha visto nos painéis das esquinas das ruas que essa era uma cidadezinha justamente do outro lado da ferrovia e o caminho era justamente aquele no qual seguíamos. Então tive o prazer de dar a boa informação a essa jovem, francesa, que me interrogava sobre o caminho e que, por acaso, eu tinha a boa resposta. Descontei. Ensinei o caminho a uma pessoa, da terra, apenas vinte minutos depois de ficar chateado com outra pessoa, também da terra, pela sua má vontade em ensinar o caminho correto. Sorte eu saber ler mapas muito bem. Ler mapas e fazer leituras dos sinais e planos locais.

Passado esse pequeno contratempo o caminho seguiu tranquilo, por estradas compartilhadas com poucos carros, permeando vilas e fazendas. O mais interessante era as casas de fazendas todas com telhados de pedras de ardósia, belas casas, os fazendeiros não são, em geral, pessoas pobres.

Tudo tranquilo até Saint-Germer-de-Fly, onde a bifurcação entre os dois caminhos acontecia. Nossa escolha já havia sido feita, caminho mais curto da direita até Gisors, onde deveríamos chegar as dezenove horas. Em uma das raras falhas de sinalização de todo o trajeto, tomamos o caminho errado (terceira vez que isso nos acontecia) e pedalamos uns três quilômetros até percebermos o erro. Fora isso, o deslocamento decorreu tranquilo até Gisors, passado por vilarejos de nomes engraçados: Le Moulin l’Èvêque, St-Pierre-ès-Champs, Neur-Marché, Les Flamands, Le Camp à Dan, Bouchevilliers, Amécourt, Bazincourt-sur-Epte e, finalmente, a cidade de Gisors nos esperava sob chuva. Para encontrarmos o hotel em frente à estação de trem um jovem nos deu a informação correta. Hotel honesto, três camas boas, banho quente, internet, café da manhã, sem restaurante. Chegamos às dezenove horas e trinta minutos, tomamos banho rápido e saímos à procura de um restaurante, sabemos que na França os restaurantes fecham cedo, mesmo em Paris. Encontramos, a duzentos metros do hotel, com um painel informando que os pratos eram tradicionais da região, feitos à moda antiga. Meu prato: batave (carne de boi) ao molho de pimenta do reino e batatas fritas, uma salada de entrada, água mineral gasosa Badoit, vinho da casa em piché, vinte e seis euros tudo. De volta ao hotel, novidades da internet, aviso à família e fomos dormir.









sexta-feira, 24 de outubro de 2014

LONDRES - PARIS: QUARTO DIA DE PEDAL


11/09/2013

Após o café da manhã no hotel em Newhaven (eu dormi muito bem, mas meus colegas de viagem disseram não ter dormido tão bem pois suas camas não eram muito boas) pedalamos direto ao porto para pegar o ferryboat, que partiu, nesse dia, às dez horas (http://www.newhavenferryport.co.uk/). O barco é enorme e havia uma fila gigantesca de caminhões, carros e vans. Compramos os bilhetes, uma senhora loura com piercing na sobrancelha nos atendeu, e entramos na fila. Um funcionário nos chamou e nos passou à frente da fila, éramos três bicicletas. A passagem na alfândega inglesa foi sem problema, sem perguntas colocadas, então pedalamos até o navio, um caminho plano entre caminhões, ônibus, vans e carros de passeio. Quase não havia motos. Depositamos as bicicletas no fundo do barco em um local apropriado para a s bicicletas, éramos uns dez ciclistas em trânsito para a França, ao todo. Deixamos as bicicletas e subimos até o convés para as tradicionais fotos do local no horário de partida. Depois das fotos de praxe descemos até a lanchonete do ferryboat, sentamo-nos a uma mesa confortável e conversamos bastante. Quatro horas de travessia é um tempo razoável, o barco é lento.

Almoçamos no barco, um autosserviço razoável. Meu prato: fatias de atum defumado de entrada, peixe empanado com ervilha e arroz, pão e suco de laranja – dezesseis euros (caro pacas, mas era na travessia do Canal da Mancha, não é todo dia). À nossa frente na fila estavam três jovens senhoras carregando seis platôs, ou seja, compravam almoço para outras pessoas. Logo percebi que acompanhavam senhoras idosas em cadeira de rodas (confirmei depois quando as vi à mesa). Como o atendente cobrava prato por prato (dava o preço, recebia o dinheiro, dava o troco, prato a prato, mesmo sendo a mesma pessoa a pagar) o processo demorou um pouco e isso impacientou alguns fregueses. Atrás de nós havia um senhor inglês que xingava as mulheres em inglês e francês. Quando uma das senhoras pagava e catava moedas em sua bolsa o tipo infeliz jogou uma moeda no prato delas. Que calhorda! Impaciente e de uma grosseria sem tamanho. Eu nunca vi tal coisa em uma fila de restaurante.

Uma vez em Dieppe, na Normandia (França) pegamos nossas bicicletas, passamos pela alfândega francesa sem problemas, sem questões colocadas e pé no pedal. O objetivo do dia era chegar a Neufchâtel-en-Bray, trinta e seis quilômetros em direção a Paris (http://fr.wikipedia.org/wiki/Neufch%C3%A2tel-en-Bray),  mas fizemos uma parada em Dieppe para carregamento de suprimentos para viagem e conhecer um pouco a bela cidade.

De início, a rota seguia em pista paralela às ruas e estradas, pequenos cantos às vezes marcados para ciclistas, às vezes não. Os motoristas são gentis, aguardam o bom momento de nos ultrapassar, nunca nos colocando em situação de risco. Chegando em Arques-la-Bataille (http://fr.wikipedia.org/wiki/Arques-la-Bataille), oito quilômetros depois, a pista de ciclista torna-se exclusiva e segue por parques com belos pequenos lagos, para então entrar em um longo trecho construído sobre uma antiga ferrovia. A pista é plana e margeia pequenas vilas e castelos até Forges-les-Eaux (http://fr.wikipedia.org/wiki/Forges-les-Eaux). Uma ótima ideia essa de construir pistas para ciclistas sobre uma velha ferrovia. Fiquei imaginando quanto nós, em Minas, e no Brasil, perdemos com isso. Poderíamos ter belas pistas quase planas, em lugares magníficos, saindo de Belo Horizonte, passando por Ouro Preto, Mariana, Viçosa, Ubá, chegando a Juiz de Fora e Rio de Janeiro. A ferrovia que havia nesse trecho não há mais, o mato tomou conta, pessoas invadiram, e perdemos um belo passeio de bicicleta entre Belo Horizonte e essas cidades. Talvez uns trezentos quilômetros de pista sinuosa e entre montanhas, que poderiam ser percorridos em uns cinco dias.


Chegamos a Neufchâtel-en-Bray por volta de dezoito horas, procuramos por um hotel marcado no livro/mapa de La Avenue Verte. Um estava fechado, outro estava cheio. Uma senhora mal educada nos recebeu, pedimos informação de outro hotel, e ela disse: - no centro da cidade, talvez, eu não sei de nada, eu me ocupo da vida dos outros e não da vida dos outros. – Silenciamo-nos e fomos procurar outro hotel. Encontramos rapidamente, chegando ao centro da cidade, o Hôtel de Grand Cerf (http://www.hotel-grandcerf.fr/), com uma inscrição na porta: “ciclistas benvindos”, em francês e em inglês, com estacionamento para bicicletas, torneira e mangueira para lavá-las e o gerente nem nos pediu documentos. Tivemos um quarto para três com muito espaço, água quente, sabonete líquido, secador de cabelos (que no caso serviu de secador de nossas roupas), restaurante no próprio hotel (excelente cozinha da terra) e café da manhã reforçado. E tudo isso por cento e setenta e um euros para os três, mais a gentileza das pessoas, tanto os que trabalhavam quanto os outros hóspedes, isso não tem preço. E todos ficavam curiosos em perguntar o que três brasileiros, montados em bicicletas, faziam por ali.







quarta-feira, 15 de outubro de 2014

CARTA PRO MANO ZÉ

Uma carta que escrevi ao mano algum tempo atrás.

Olá Mano Zé

Eu tava fazendo janta e tomando uma cachacinha do norde minas, quando me alembrei que hoje é dia dos anos do mano Zé. Depois da janta adentrada no estômago corri para ligar meu ordenador ponhar uma mensagem para o mano, mas vi que dois outros inxiridos já o fizeram antes de mim. Tudo bem mano, chegar na frente só em caso de seleção brasileira na copa do mundo, se bem que acho que é a vez da Alemanha, a melhor seleção que vi jogar até agora. Pois bem mano, como me alembrei na hora de verter a cachacinha, aproveitei para tomar mais uma, a segunda em sua homenagem, nem deixei pro santo. É fim de semestre e cê sabe, hora de chiar para fechar os trabalhos e aguentar choradeira de uns e reclamações de outros, não dá para se alembrar muito, não. 

Tem tempos que não vejo ninguém, nem Ciça e Tete que habitam e coabitam a menos de dois km aqui de casa, quem diria os outros um tanto mais longíquos. Com mamãe falo por telefone, mesmo que eu fale uma coisa e ela responde outra. Eu finjo que é isso mesmo e a gente vai se entendendo. Com Ciça é tal qual. Tinha que ser parecida com a ancestral até na ouvilança (não ouve mas lança assim mesmo). Fim de semana vou colocar as visitações familiares em dia. Depois irei até Palmas, sobrevoarei Goiânia mas não dá para baixar de paraquedas no teu quintal, o tempo será curto. Mas mano, bom dia de anos para você e cuide bem do ânus, visite o urologista e o proctologista, deixe a vergonha em casa, já viu né, tem muita gente morrendo por causa da próstata e câncer de intestino. Se der sorte encontre um com o dedo fino.


Um abraço grande, nas muié também, uai.

domingo, 5 de outubro de 2014

LONDRES - PARIS, TERCEIRO DIA DE PEDAL


10/09/2013

Após aquele super café da manhã inglês tradicional lavamos nossas bicicletas e rumamos à East Croydon Station, ao lado do hotel, e tomamos o trem até Polegate, uma hora e dez minutos de trajeto. Claro, saltamos um trecho do trajeto original, avançamos uns vinte quilômetros, mas era absolutamente necessário para chegarmos a Newhaven nesse mesmo dia. Newhaven é onde se faz a travessia do Canal da Mancha e nosso projeto era fazer a travessia na quarta-feira, dia onze de setembro. O transporte de barco de Newhaven a Dieppe na França acontece uma vez por dia, apenas.

Em Polegate paramos em uma loja de bicicletas, para comprar um óleo para as correntes das bicicletas, que sofreram com os dois dias de chuva. Como elas molharam muito ficamos com receio delas ressecarem muito e se estragarem. Às quatorze horas saímos de Polegate para um trajeto de quase trinta quilômetros até Newhaven, o mais curto da viagem.

Sol, havia sol, e o trajeto foi magnífico. Depois de muito esforço e muita subida (com chuva) nos dias anteriores para chegar a Rotherfield, nesse dia o passeio foi mais tranquilo. Estradinhas asfaltadas, pouco movimento de carros, e boas descidas. A saída de Polegate foi um pouco confusa em função da deficiência das indicações. Único trecho na Inglaterra com algumas pequenas falhas nas indicações dos caminhos. E o caminho nos levava a trechos compartilhados com cavalos (estávamos próximos a um Haras), mas logo chegamos ao asfalto e chegamos a desenvolver até trinta quilômetros por hora nas descidas. Vento e sol na cara, pouca roupa, maravilha. Na chegada a Seaford, já no litoral, a estrada compartilhada com automóveis e caminhões estava um pouco perigosa, um tráfego intenso, talvez pelo horário, eram dezessete horas quando ali chegamos. No entanto, os motoristas são absolutamente respeitosos. Davam-nos passagem, não nos empurrava no canto da estrada e esperavam um bom momento para nos ultrapassarem. Algo que ainda não se vê no Brasil.

À beira-mar o vento quase nos derrubava da bicicleta. Chegamos finalmente a Newhaven, fim de nosso trajeto inglês. Reservamos um hotel com quarto triplo via www.booking.com,  um hotel bem ruinzinho, mas o cansaço não nos animava a procurar outro. E esse era a menos de quinhentos metros do porto onde pegaríamos o barco para a travessia do Canal da Mancha. O hotel nos cobrou o mesmo preço do hotel em Croydon, café da manhã incluído. Pelo menos isso. Saímos para jantar por volta de vinte horas, haviam poucas opções de restaurante, a maioria já havia fechado. Sobrou-nos um restaurante indiano. A pedida: Lamb Kohan (carneiro com molho de cebola). O restaurante não servia bebidas, o garçom nos recomendou comprar cervejas no mercadinho em frente e trazê-las para bebermos no restaurante dele: surpreendente. Tomamos uma Guiness (irlandesa) em lata, cerveja de temperamento forte, amarga e deliciosa. Só para bons apreciadores.

Apesar do hotel fraquinho em Newhaven, a cama era boa, dormi muito bem, acordei pronto para a travessia. O café da manhã era razoável: cereais, banana, iogurte e ovos cozidos, além de café.





LONDRES - PARIS, SEGUNDO DIA DE PEDAL


09/09/2013

O café da manhã, na pousada em Redhill, foi um típico café da manhã inglês, o que eles chamam de “traditional breakfast”: bacon, ovos fritos, tomate, salsicha, batata, pão integral, cereais diversos, yogurte, leite e café. Forte, sustenta o dia inteiro. Para uma jornada como a nossa, vale a pena comer isso tudo, é a melhor refeição do dia, Durante o trajeto nossa reposição alimentar foi boa também. Tínhamos um energético especial para atletas, frutas, bananada sem açúcar, paçoquinha (coisa de brasileiro) e muita água. Não comíamos o tempo todo, claro, mas nas paradas a cada uma ou duas horas, comíamos alguma coisa de nossos alforjes. Fome nem sede faziam parte de nosso itinerário. Eram nove horas e quinze minutos quando saímos de Redhill, a chuva era apenas um prenúncio. A meteorologia (Climatempo, aplicativo de telefones móveis) indicava cinquenta porcento de possibilidade de chuva. Durante o dia descobrimos que essa estatística era uma boa medida, tomamos chuva durante cinquenta porcento do trajeto. A saída, no entanto, foi tranquila. O caminho indicado pelo guia L’avenue verte como sempre nos conduzia a parques e condomínios típicos de subúrbio sem grandes movimentos, retirando-nos de estradas movimentadas, bons caminhos para a prática do pedal. Raras vezes compartilhamos viagem com trânsito forte, alguns trechos apenas, geralmente em saídas de cidades e até encontrarmos a rota por caminhos arborizados.

Mas a chuva chegou. Não era forte, incomodava, no entanto. Aí os caminhos dos parque se barrearam, sujando-nos as costas e o traseiro. Minha capa amarela, emprestada por Bernard, serviu como uma luva. Mesmo quando a chuva parou a capa foi útil para segurar o barro. À medida que avançamos pela zona rural inglesa, as indicações de trajetos se tornaram extremamente necessárias. Na dúvida parávamos para olhar o mapa e perguntar. Os ingleses me surpreenderam nesses momentos de dúvida. Eles foram muito gentis, sempre, e às vezes, percebiam-nos verificando o mapa meio perdidos e nos informavam sem que perguntássemos.

De Redhill seguimos para Horley e Gatwick. Pedalávamos ao lado do aeroporto de Gatwick no momento em que um grande avião pousava voando próximos de nossas cabeças, tão baixo quanto quando estamos na barragem da Pampulha ao final da pista do aeroporto e um (pequeno) avião ali pousa. Modo alternativo de viagem ao lado do modo moderno de viagem: bicicleta e avião. De um modo geral, o caminho avançava ao lado da ferrovia, passando próximo às estações ferroviárias: Horley Estation, Gatwick Airport Station, Three Bridges Station. Em Three Bridges, tivemos nossa primeira grande dúvida. O caminho se bifurcava, indicando possibilidades alternativas, a chuva nos esfriava o corpo. De repente uma senhora de meia idade, em uma cadeira rolante motorizada para seu veículo e pergunta se estávamos perdidos. Yes, we are lost, mam. Ela então pega nosso mapa, conversa com Arthur (que melhor entre nós fala inglês) e nos mostra o caminho. No, we aren’t lost. Era só uma pequena divergência de leitura de Mapas entre nós três. Ficou evidente a minha competência em leitura de mapas e sinais e o grupo passou a confiar mais em minha intuição e, a partir de então, eu e Arthur sempre conferenciávamos para decidir os caminhos. Tínhamos dois mapas, um em francês, outro em inglês, o Google Maps no celular que também ajudava na localização. Em Furnace Green o trajeto dá uma grande virada à esquerda em direção a East Grinstead, um longo caminho sob árvores, com belíssimas paisagens e chuva. Chuva e chuva, que não nos impediu nem de avançar, nem de apreciar a paisagem. Em East Grinstead, no bar da estação, tomamos um café com leite quente. Esquentamos por dentro e renovamos o ânimo.

De East Grinstead a Groombridge foram dezesseis quilômetros totalmente dentro de uma Forest Way, com muita chuva no lombo. O céu parecia cair na nossa cabeça. Se fôssemos gauleses, parentes de Asterix, teríamos tido muito medo. Eram dezesseis horas quando chegamos a uma estradinha com uma bifurcação: ou pedalar mais uns três ou quatro quilômetros e procurar albergue, ou avançar mais dez quilômetros e chegar a Rothersfield, e procurar um albergue por lá. Rapidamente chegamos a Rothersfield, mas nada de albergue, nem hotel, nem mesmo um celeiro onde passa a noite. Pedalamos então a Crowborough, uns três ou quatro quilômetros saindo da rota, o mapa nos indicava a existência de uma pousada BB (Bed and Breakfast), o garçom de um Pub em Rothersfield nos deu o número de telefone de uma BB e o Google Maps nos deu o caminho, mas, não havia lugares na pousada. A proprietária da pousada nos passou o telefone de uma outra pousada BB, mas... secretária eletrônica com uma voz masculina que dizia: - em caso de urgência ligue para ... ou seja, não tinha ninguém na pousada. Ou estava fechada ou completa. E agora, José? Solução óbvia: já para a estação. O trem que passava no local conduzia lugar nenhum no fim do mundo britânico ou de volta para Londres. Aí, apelamos para uma segunda abordagem a um cidadão britânico, alguém que esperava um transporte. O dito cidadão foi de uma simpatia e de uma gentileza surpreendente. Abriu seu telefone celular para ver possibilidades de hospedagem próxima e, nada; mostrou-nos a possibilidade de pegar o trem até outra cidade. Mais uma abordagem bem sucedida a um cidadão inglês. A disponibilidade dos ingleses em nos dar informações detalhadas e precisas foi um dos muitos pontos positivos da viagem. E ele nos apresentou uma solução, que escolhemos: tomar o trem para Croydon, subúrbio sul de Londres, voltando mais ou menos quarenta e cinco minutos de trem, para não dormirmos sujos, molhados e cansados, num lugar perdido no meio da Inglaterra rural. 

Menos de uma hora e sete libras e quarenta centavos de passagem, encontramos um grande hotel (Croydon Park Hotel - http://www.croydonparkhotel.com) com garagem para bicicleta, banho quente, quarto para três, secador de cabelo para secar nossas roupas, comida quente, etc. Na entrada do hotel havia uma marca de quatro estrelas, no entanto o preço pago foi o mesmo que os pagos anteriormente em hotéis menores: cento e quatro libras para os três. Com o café da manhã completo (típico britânico como o do hotel em Redhill), a noite ficou em cento e noventa e quatro libras para os três. E tomamos um belo vinho Bordeaux, um Chateau de l’Église 2011. Nada mal.








terça-feira, 22 de julho de 2014

RELATOS DE VIAGEM À PATAGÔNIA - DIA 07



15 de março de 2014

Às sete horas da manhã, em Punta Arenas, Chile, partimos em uma van que nos levou a um porto mais ao norte da cidade. Lá, tomamos um catamarã bem rápido conduzido por dois jovens guias (mais ou menos trinta anos), bem simpáticos e bem entendidos do assunto: Paulo, o condutor do barco, e Antônio, o guia de fato, conhece tudo sobre pinguins, animais marinhos e pássaros da região. Ele fala inglês, arranha no francês e fala português mais ou menos, o que só descobri quando ele percebeu que somos brasileiros. A viagem de catamarã dura meia hora até chegarmos à Ilha de Magdalena, o paraíso de verão dos pinguins de Magalhães, referência ao Estreito de Magalhães. Foi então que tive conhecimento das espécies de pinguins: papuas, de Magalhães, rei, imperial e outros. No caminho de ida e volta fizemos várias paradas para ver e fotografar albatrozes na água e em voo, leões-marinhos em família, camarás, gaivotas e muitos outros animais. Vimos também um bando de golfinhos em caça. Em geral os golfinhos acompanham o barco por certo tempo, então tivemos várias visões dos mesmos saindo e entrando na água, para respirar. Essa saída é tão rápida que não conseguimos fotografá-los nesse momento.

Na Ilha de Magdalena permanecem dois guardas constantemente. Eles ficam dez dias seguidos na ilha e depois folgam cinco dias, mas dois deles ficam ao mesmo tempo por cinco dias, na ilha. Então, pela lógica, deve existir três guardas se revezando no trabalho de vigilância da ilha e dos animais.

A quantidade de pinguins, de casais de pinguins, na ilha, é impressionante. No momento de nossa visita seus filhotes já tinham uns três meses e preparavam-se todos para migrar ao diminuir mais a temperatura. Nesse fim de verão as temperaturas estavam em torno de cinco a dez graus Celsius. As temperaturas diminuindo no outono e inverno, esses pinguins migram para a costa da Argentina e do sul do Brasil, de águas mais quentes.

O passeio na ilha durou uma hora, tempo suficiente para milhares de fotos. Havia na ilha uma turma grande de turistas, provenientes de um barco de cruzeiro. Demos sorte porque já saiam. Ficamos em um grupo de oito pessoas, apenas, na ilha, mais os dois guias e os dois guardas. Ao final desse tempo, antes de retornarmos ao barco, os guias nos ofereceram café e biscoitos. Muito gentis. De volta a Punta Arenas troquei oitocentos reais por cento e oitenta e quatro mil pesos chilenos. Não sei se a troca foi justa, era o que ofereciam na ocasião. Em seguida, fomos à locadora de veículos, Hertz, pegamos o carro que havíamos alugado (uma Nissan 4x4 bem potente e com bastante espaço no porta-malas), fomos em seguida ao Hotel Plaza, onde passamos a noite, pegamos nossas malas lá guardadas desde a manhã, compramos quatro empanadas (nosso almoço), três mil e duzentos pesos chilenos as quatro, e fomos comê-las à beira-mar.


Iniciamos a viagem para Puerto Natales depois de uma parada em um supermercado para compra de provisões de viagem, principalmente reservas alimentícias. Então, estrada. A viagem durou umas três horas, chegamos, abastecemos e fizemos o check in em um hotel muito acolhedor e interessante, com atendentes bilíngues simpáticas e fomos conhecer a cidade e comer. No dia seguinte, teríamos mais um bom trecho para viajar. Despesas do dia: cinquenta mil pesos chilenos.











segunda-feira, 7 de julho de 2014

LONDRES-PARIS: O PRIMEIRO DIA DE PEDAL


08/09/2013

O primeiro dia é o dia da verdade. Para começar, café da manhã completo: uma tigela de cereais com legumes, suco de laranja, ovos mexidos, um bolinho frito de legumes, um pedaço de camembert, um pequeno pedaço de Rochefort, café. Ainda peguei uma banana e uma maçã para o lanche durante a pedalada. E começamos o dia, o primeiro dia de pedalada entre Londres e Paris. Roupas arranjadas, bicicleta no ponto, fotos de despedida, beijos e abraços na mulher. Colegas prontos também, e pernas para que vos quero?..

A partida em um domingo facilitou o início de viagem, o pouco trânsito nos ajudou bem. A travessia de Chelsea Bridge nos agraciou com um último olhar ao Tâmisa (os últimos olhares sempre fazem parte de toda narrativa de viagem). Sol claro, tudo parecia muito bem. O guia de viagem que carregávamos conosco, cuja versão online é visto em http://www.avenuevertelondonparis.com/ mostra o mapa do trajeto, faz referências a lugares, hotéis e restaurantes nas cidades por onde passamos. E os caminhos tem plaquinhas de indicação da ROTA 20 (o nome do trajeto Londres-Paris) que nos conduzia quase sem erro. No entanto, foi necessária muita atenção porque o trajeto alterna ruas e avenidas movimentadas, embora com ciclovias, e caminhos estreitos em parques e avenidas, veredas e áreas urbanas dos subúrbios londrinos. Às vezes a indicação vem no último momento e quase nos perdemos. Aliás, nos perdemos. Em Couldson deparamos com uma rotatória complicada, todas as saídas tinham indicações para bicicleta, nenhuma delas indicava a Rota 20. Subimos um morro enorme e de grande aclive, somente no alto percebemos que tínhamos errado e voltamos à rotatória, uns cinco quilômetros perdidos. Nesse ponto haviam falhas no mapa e nas indicações locais. O lado positivo da subida ao morro foi colocar à prova nosso preparo físico e mental. Passamos todos no teste.

Nessa encruzilhada chegamos a uma encruzilhada técnica também. Começou a chover forte. Bem forte. Mas estávamos ao lado da Couldson Station, pegar o trem foi a melhor solução do momento. Sabem o que é chuva a dez graus de temperatura? Ela escorre pelo pescoço, esfria sua vestimenta, molha seus pés e gela seu corpo. Antes de alguém adoecer pegamos o trem para Redhill, o último vagão do mesmo acolhe bicicletas sem pagamento extra (2,50 Libras o bilhete). Em Redhill rapidamente encontramos um hotel familiar e pequenino (indicação do guia e localização via GPS do celular), alugamos um quarto com três camas. A proprietária se chama Rose, uma senhora de uns setenta anos, simpática e acolhedora. Guardamos a bicicleta nos fundos da casa, subimos ao quarto, banho, secagem de roupas com o secador de cabelos, recarga de celulares e dispositivos midiáticos, pente nos poucos cabelos de nossas cabeças e procura de um restaurante. O hotel é o Brompton Guest House, em 6, Crossland Road, Redhill RH1 4AN, Inglaterra, 30 Libras por pessoa, café da manhã incluído (http://www.bromptonguesthouse.com).

Saímos para jantar e encontramos um bom restaurante em um outro hotel na esquina da mesma rua (The Home Cottage, Pub & Dining). Meu jantar foi: peixe hourgot com batatas e agrião, salada de legumes e um vinho muito bom, o Domaine Condamine L’Évèque (21 Libras). O jantar ficou em 65,50 Libras, deixamos 70 libras, a diferença foi pelo sorriso e atenção da jovem garçonete. Saciados, voltamos ao hotel para uma noite bem dormida.












quarta-feira, 11 de junho de 2014

UM DIA EM LONDRES


07/09/2013

Um super café da manhã ao me levantar: cereais, iogurtes, queijos, pães, café, sucos, frutas, e um croissant bem honesto. Preço? 15,90 libras. Como diz sempre a Leia, lá de Palmas - TO, “é caro mas é muito bom”. Depois, montar a bicicleta, experimentar, voltar ao quarto, escrever e preparar para a grande largada do dia seguinte: ir de Londres a Paris de bicicleta. Agora, dar uma volta pelo centro de Londres.
Nesse domingo havia uma movimentação anormal nas proximidades do hotel. Engarrafamentos, desvios de fluxo de tráfego, etc. Ficamos sabendo da chegada de um campeonato internacional de remo, no Tâmisa, além de uma manifestação próximo à torre de Londres. Para dois pedestres foi ótimo, ficou mais fácil atravessar ruas e avenidas.

Chegamos à beira do Tâmisa justamente onde tem ancorada a caravela da rainha Elizabeth Tudor. Uma graça. Em seguida visitamos a Shakespeare Globe, um teatro onde se apresentam peças do bardo até hoje. Um prédio simbólico, sua suntuosidade repousa na representação simbólica mais que na beleza da arquitetura. Passamos ainda pela Catedral de Saint Paul, essa sim, uma suntuosidade. Depois de um sanduiche voltamos ao hotel. Descanso e observação do trajeto no mapa. A partir do dia seguinte teríamos uma travessia de cento e quarenta quilômetros até Newhaven, cidade onde atravessamos o canal da Mancha. Deveríamos fazer, e fizemos, o trajeto em dois dias e meia. As fotos do dia em Londres estão em

segunda-feira, 9 de junho de 2014

LONDRES, AQUI ESTOU EU!


06/09/2013

Às seis horas da manhã, despertar, café rápido com Bernard e Hélène, e ela nos leva à estação de trem de Sainte-Geneviève-des-Bois, para pegar o RER C em direção a Paris. Sainte-Geneviève-des-Bois é uma comuna francesa (ou seja, uma pequena cidade) na região administrativa da Ilha-de-França, no departamento de Essonne. Estende-se por uma área de 9,27 km². Em 2012 a comuna tinha 34 195 habitantes. Como a maioria das cidades francesas, ela é bem pequena.  Segundo uma lenda da cidade, nesse lugar Santa Genoveva teria feito emergir uma fonte de água milagrosa. A cidade tem belos edifícios históricos, entre eles dois castelos, uma igreja antiga e um cemitério russo. E o RER é uma rede de trens ligando cidades da Ilha-de-França (ille-de-france), a região que tem Paris como sede regional, além, claro, como a sede do governo francês. Pegamos o RER das sete horas para Paris e não estava cheio, foi uma boa escolha de horário. Trocamos de trem na estação de Saint-Michel, em Paris, do RER C para o RER B, direto para a Gare du Nord (Estação do Norte) tomar assento no EuroStar, de 10h13min, rumo a Londres.

Paciência foi necessária, tínhamos uma bicicleta desmontada, dentro de uma grande bolsa. Como a bolsa tinha mais de oitenta e cinco centímetros foi necessário despachá-la no depósito de bagagem do trem. O despacho é feito na última loja do fim da via número um, vinte e nove euros, e o pacote seguiu no mesmo trem. Depois? Preencher a ficha de imigração da Inglaterra, passar na alfândega registrar a saída da França, em seguida outra alfândega registrar a entrada na Inglaterra: o que farão em Londres? Onde se hospedarão? Quando voltam? Onde está o bilhete de volta? Perguntas simples, mas decisivas e devem ser respondidas com firmeza, senão não se viaja. Em seguida, raio X e sala de espera. Claro! Um cafezinho expresso com um croissant (tem esse nome por ter a forma de lua crescente) e um jornal Le Libération (http://www.liberation.fr/) do dia para as notícias desse lado do mundo.

Terminei a leitura do jornal dentro do Eurostar, já com muito sono e dormi quase toda a viagem. Londres chegou e ops! Chovia. Mas chegamos. Estação Saint-Pancras. E então, pegar a bicicleta em algum lugar dentro da estação, um escritório da Euro-Despach. Nas informações não se sabia direito onde ficava, alguém nos disse que seria em uma das saídas da estação e que encontraríamos indicações pelo caminho. Sim, haviam indicações de direcionamento, só que era muito longe. De fato, era próximo a uma das saídas, a mais longe de todas. Pelo menos era perto da saída do metrô, então, forçosamente teríamos que passar por aquele caminho.

Metrô, linha Northernline, até a estação Borogh para chegarmos até o hotel (Novotel Southwark London) hotel como qualquer outro da rede Novotel (Accord, eu creio) que existe pelo mundo afora, inclusive no Brasil. O pacote com a bicicleta desmontada não era tão pesado (quinze quilogramas), era incômodo de carrega-lo rua afora. O quadro da bicicleta batia em minha perna e, à noite, a dor ainda persistia.
No hall do Novotel encontramos Arthur, Alice e Roberto: Arthur e Roberto foram meus companheiros da aventura Londres-Paris em bicicleta. Guardamos a bagagem o hotel e fomos, Silvania e eu, dar um passeio nas imediações e procurar algo para comer. Disseram-nos que a melhor relação custo-benefício seria almoçar em um Pub, um prato feito em torno de cinco libras. Comemos dois pratos escolhidos no cardápio e dois chopes Budweiser 300ml. Total: 14 Libras. Em seguida um sono recuperador pois ninguém é de ferro.


Esse sono durou até as dezenove horas. Horas bem dormidas. Dormimos um pouco além da conta e nos desencontramos de nossos amigos na hora do jantar. Fomos então ao Vapiano, em Great Guildford Street (http://uk.vapiano.com/en/home/). No cardápio do restaurante e nos suportes de copo de cerveja tem uma inscrição, em italiano, bem interessante: - “chi va piano, va sano e va lontano”. Esse é um restaurante de massas, simples, bem próximo ao hotel e com bom serviço. Escolhe-se a massa, os temperos preferidos que irão acompanhá-la, tudo fica pronto em cinco minutos. Escolhi penne a carbonara (queria tagliatelli, não tinha mais, era tarde). O chope era um Peroni, uma marca de cerveja fundada em Vigevano, na Itália, em 1846. Muito bom! Tudo delicioso, simples, rápido e caprichado. Depois de tudo isso, uma bela noite de sono nos esperava.




segunda-feira, 2 de junho de 2014

RELATOS DE VIAGEM À PATAGÔNIA - DIA 06


14 de março de 2014

Atividade do dia: levantar as 03h30min da madrugada, café as 04h00, saída rápida para a estação rodoviária, partida de ônibus as 05h00 para Punta Arenas, no Chile, com uma parada em Rio Grande.

Dormi boa parte da viagem até Rio Grande. Nessa cidade tivemos que trocar de ônibus para chegar a Punta Arenas, mas era preciso, primeiro, passar no escritório da Tachi Austral, a empresa de ônibus, confirmar a viagem e, segundo, ir até a polícia federal carimbar o passaporte. Feito isso entramos no ônibus, que demorou a sair porque todos os passageiros deveriam fazer o mesmo. No ônibus recebemos um cafezinho, um sanduíche e duas medialunas (croissants). Depois, boa viagem.

Minha leitura de viagem foi o livro “El prisionero de la verdad – Bertrand Russel” de Elisa Bonilla, da editora Alfaomega Colombiana, de 2003. E foi uma ótima e surpreendente leitura. Destaco aqui alguns pontos interessantes do livro, citações e comentários.

“Cada pessoa possui um conhecimento que não possuem aqueles cuja experiência é distinta da sua e esta experiência não pode ser expressa completamente de maneira verbal. E se recorre a métodos científicos para contar a experiência, essa se perderá e ficará espalhada em um deserto de poeira. O mais pessoal de cada experiência tende a evaporar-se durante o processo de tradução da linguagem.”

Por isso, também segundo Bertrand Russell, não se traduz conhecimento quando se muda de linguagem para comunicar-se. Na verdade, criamos outro conhecimento. E cada um que dele se apropria, o amplia de uma forma muito pessoal.

“Espaço e tempo, tal como os conhecem os seres humanos, não são, em realidade, tão impessoais como pretende a ciência. O espaço e o tempo dos seres humanos tem o aqui e o agora... Todo nosso conhecimento dos fatos proveem de um outro espaço-tempo, que é a pequena região que ocupamos nesse preciso momento.”

O caminho da felicidade

“Quando um homem sacrifica sua própria felicidade (...) tende a invejar os que gozam de um menor grau de nobreza, e esta inveja, a miúdo, volta cruel e destruidora aos que se creem santos.”

Já vi isso muitas vezes, principalmente em algumas mães que dizem ter se sacrificado a favor de filhos. Quando assustam, estão velhas, solitárias e reclamando o tempo perdido.

“Se observar homens e mulheres à sua volta que mereçam ser chamados de felizes, comprovará que todos eles tem coisas em comum. O mais importante é uma atividade que proporciona por si mesma certo prazer e que, além disso, é criativa. É impossível ser feliz sem ter alguma atividade, e uma atividade que não seja excessiva ou desagradável”.

Temos visto muito dessa ideia em nossas atividades de Coaching, pessoas felizes trabalham em coisas que amam fazer. A atividade é agradável quando está claramente encaminhada para a finalidade que se deseja, considerando as habilidades trabalhadas pelo indivíduo em sua formação como ser humano.

“Se alguém saudável e sem problemas econômicos que ser feliz, precisa de duas coisas: primeiro, uma estrutura estável construída em torno de um propósito central (um projeto); segundo, porque o faz exclusivamente porque é divertido e não cumpre nenhuma outra finalidade séria”.

Após muitas horas de viagem chegamos à fronteira com o Chile. Que maluquice! Tivemos que descer do ônibus com nossas bagagens de mão e passá-las por um escâner (as malas grandes, no bagageiro do ônibus, foram cheiradas por um cão farejador de drogas). Em seguida fomos ao escritório da polícia aduaneira carimbar nossos passaportes. Quando o Mercosul fará igual à Comunidade Europeia? Os europeus não carimbam passaporte ao viajar de um país a outro dentro da Comunidade. Isso significou um atraso na viagem de mais de uma hora.

Carimbados os passaportes, cheiradas as malas, escaneadas as bagagens de mão, partimos. Transitamos umas duas horas, ou mais, em uma estrada plana e de terra onde nada se vê além de aves, muitas aves, e carneiros, muitos carneiros. Nada de tráfego, nada de casas, e muito vento. E assim chegamos no ponto de travessia do Estreito de Magalhães, sem ponte, travessia a ser feita de barco. E o que encontramos? Uma fila de ônibus, caminhões e carros, e motos, todos esperando o barco que não vinha porque o vento estava muito forte. O vento balançava o ônibus e quase nos jogava ao chão quando caminhávamos. Segundo escutamos, o vento tem sentido contrário à correnteza do estreito e isso o torna muito perigoso. Na hora em que escrevia os rascunhos desse texto, 16h, havia mais ou menos uma hora que estávamos parados e sem perspectiva de atravessar o canal tão logo. E o vento, o poderoso vento, decidiu que devíamos esperar um longo tempo, mais de cinco horas.

Enquanto isso terminei a leitura do livro sobre Bertrand Russell. Ao final do livro tem trechos de textos escritos por ele. Claro que não é nada comparado a sua obra, enorme. Ajudou-me, no entanto, a pensar em duas ou mais coisas interessantes que muito se aproximam de pensamentos e atividades que me ocupam agora, em torno do Coaching. Uma é o conceito de “aqui e agora”, outro é o conceito de felicidade. Tentarei fazer, aqui, uma ligeira aproximação entre essas ideias.

Em primeiro lugar, Russell afirmava que cada pessoa possui um conhecimento único e intransferível por simples tradução de linguagem, principalmente verbal, e que esse depende de sua experiência individual. E se se recorre a qualquer método de tradução, esse conhecimento se evapora como gotas de água no deserto arenoso. Interessante que, ao trabalhar com divulgação científica, sabemos que, hoje, cada pessoa, ao se aproximar e tentar se apropriar desse conhecimento pode criar um outro, pessoal, e ligado à sua experiência anterior. A comunicação da Ciência chegou, nos anos dois mil, a uma conclusão que Russell já afirmava cinquenta anos antes.

Segundo, isso acontece porque os seres humanos tem uma noção de espaço e tempo que não é impessoal como pretende a Ciência. O espaço e tempo dos seres humanos tem um Aqui e Agora. E todo nosso conhecimento dos fatos provem de um certo espaço-tempo que é a pequena região, aquele minúsculo ponto do universo onde plantamos nossos pés nesse exato momento. Ou seja, tudo que sei, eu o sei porque estou aqui, nesse ponto, agora, nesse instante, com toda minha bagagem, minha mochila, minha experiência de vida.

Com relação à felicidade, Russell nos dá uma razão simples para não abdicarmos da nossa: quem abdica da felicidade, mesmo por uma causa qualquer, tem inveja daqueles que não o fazem, e essa inveja pode voltar, de forma cruel e destruidora, contra essas pessoas. Ademais, Russell afirma, pessoas felizes tem uma atividade prazerosa e criativa. E que é impossível ser feliz sem uma atividade, desde que ela não seja excessiva ou desagradável (precisamos do ócio criativo, ele também quase dizia). E essa atividade é agradável quando encaminhada para uma finalidade, um propósito, sem contrariar os instintos do indivíduo. Ou seja, Russel já afirmava, hoje confirmamos, a felicidade pode ser encontrada em atividades com um objetivo definido, agradável, e em paralelo a talentos e conhecimentos adquiridos.

Resumindo, e trazendo para a linguagem do Coaching:
i.    o conhecimento é pessoal e intransferível e depende de nossa posição no mundo, aqui e agora, ampliando a experiência de cada um;
ii.   essa busca de conhecimento pode trazer felicidade desde que ligada a uma atividade prazerosa, criativa, ligada a um objetivo, e que o sujeito a realiza principalmente porque é divertida.


Chegamos a Punta Arenas às 23h, fomos direto ao hotel, nos instalamos e saímos para jantar. O restaurante La Piedra é perto do hotel Plaza, e muito bom. Comemos peixe, todos, o meu prato foi uma “Merluza a lo Pobre”. Não sei porque o nome Lo Pobre, mas tem batatas fritas, e dois ovos fritos sobre o peixe. Estranho e muito bom. E a cerveja local uma delícia. Os preços? Salgados. Trinta e oito mil pesos para quatro pessoas, aproximadamente cento e setenta reais. Considerando o fato de que estávamos em Punta Arenas, sul do Chile, no meio de quase nada, então está bem. Estava de férias. Dormimos a uma hora da madrugada e acordamos as cinco e meia, tomamos café as seis horas, e as sete pegamos uma van que nos levou a um lugar onde tomamos um barco para chegar à ilha dos pinguins de Magalhães.

segunda-feira, 19 de maio de 2014

VÉSPERA DE PARTIDA A LONDRES


05/09/2013

Na manhã do dia cinco, quinta-feira, por volta de dez horas e depois do café da manhã, Bernard e eu fomos até a loja DECATHLON comprar a bolsa de carregar bicicletas desmontáveis (housse, em francês). Encontramos exatamente como vimos na internet e ao preço indicado (70 Euros). Aproveitei para comprar também um calção de pedalar, não daqueles coladinhos usados pelos ciclistas, bundudo que sou, acho que fica meio esquisito em mim, mas um calção mais largo embora com uma almofada para proteger cu e testículos (12 euros).

Quase tudo pronto, faltava desmontar a bicicleta e colocá-la dentro da embalagem. Começamos a fazê-lo quando Hélène nos chamou para o almoço: peixe apenas ligeiramente cozido, legumes também cozidos (tomate, vagem, cenoura, batatas, abobrinha), um molho caseiro ao alho, delicioso, e vinho rosé (um Terre des Oms, um collioure rosé 2011, de Banyuls-sur-Mer, France). Delicioso. Claro, com queijos diferentes, iogurte e uvas como sobremesa.

Deliciado o almoço, voltamos aos arranjos para guardar a bicicleta. Retiramos os pedais, as rodas, colocamos bicicleta e acessórios dentro do envelope, da housse. Depois fui pedalar com a bicicleta de Hélène em um parque próximo, em torno de um lago. Pequeno azar, depois de uns três quilômetros de pedalada o pneu furou, meia volta, volver, empurrando a bicicleta para voltar para casa. Aproveitei para correr um pouco e cheguei em casa suando. Hora, então, de arrumar a bagagem para ir para Londres.

À noite tivemos a visita de um casal amigo de nossos anfitriões, e que eu conheci em outras viagens que fiz até a casa deles: Philippe e Janine. Não os via havia tempos, são muito simpáticos e agradáveis. Horas de calma agora.

O jantar foi muito interessante. Philippe apertou forte a minha mão, grande consideração de apreço. As pessoas não se abraçam na França, salvo se são realmente muito amigos. O aperto de mão, o sorriso, e a frase “je suis très content de te revoir, Paulo”, foram suficientes para o momento e indicadores de apreço. Ele e Bernard são amigos de muitos anos, e o máximo de intimidade entre eles é esse forte aperto de mão, o olhar e o sorriso. Philippe chegou às 19h45min e Janine, sua esposa, às 20h10min. Ela estava em um ensaio de canto, pois no fim de semana seguinte ela cantaria em algum lugar. Não é cantora profissional, participa de um movimento associativo, comum na França, todos os cidadãos fazem parte de alguma associação para fazerem coisas coletivamente, um processo muito interessante e que deveria ser copiado, com devidas adaptações, por nós, brasileiros.

Quando Janine chegou já tínhamos bebido quase uma garrafa de champagne, da casa Huré Frères, trazido por Philippe. Champagne simplesmente deliciosa, de um produtor considerado pequeno, que não vende em supermercados, apenas em algumas casas especializadas na França, ou no local de produção. A champagne é uma bebida muito particular, tem esse nome por ser produzida e engarrafada na região de Champagne, com uvas locais e com denominação controlada. Isso significa que outros fabricantes de espumantes, de outras regiões do mundo, não podem chamar seus espumantes de champagne. Questões comerciais envolvidas no processo.

Os franceses sempre comem pratos frios e pratos quentes servidos separadamente, pratos frios como entrada. No jantar desse dia o prato frio foi composta de uma tigela de chips de legumes (ainda raro no Brasil), carnes, no caso pequenos bifes de boi e porco servidos frios, maionese caseira e mostarda de Dijon, uma menos picante que as habituais a meu paladar. O prato quente foi um assado de verduras e legumes muito bom. Eram tiras finas de tomate, abóbora daquela fina e comprida, cortada em rodelas, beterraba, pimentão, todos cortados em tiras e colocados na vertical na tigela e levados ao forno por vinte minutos. O prato se chama TIEN. O vinho tinto da noite foi o Fréderic Mabileau, vinho de Saint Nicolas de Bourgueil, pequena cidade do Vale de la Loire.

A conversa foi extremamente agradável, rimos muito, o assunto rolou solto e leve. O que temos em comum é a profissão de professor, a alegria de aprender sempre e de compartilhar conhecimentos e técnicas com os amigos queridos. Um dos assuntos foi a má distribuição de renda..., na França. Vejam só. E no Brasil? Nem distribuição de renda temos, nem boa, nem má.

Depois desse jantar especial, fomos dormir para levantar cedo e viajar.