terça-feira, 24 de dezembro de 2013

CORRENDO NA CHUVA


Tenho corrido seis quilômetros quase todos os dias. Grande coisa, alguns correm muito mais que isso. Certo, mas corrida não era meu esporte favorito. Aos sessenta anos tenho que manter atividades físicas por uma questão de saúde e de lucidez. Sim, para manter a lucidez e a paz interior necessária para conduzir meu cotidiano. Não que meu cotidiano seja particularmente difícil, não é isso, embora ele não seja fácil. Lidar com problemas variados e intempestivos não é uma tarefa muito simples. 

Antes eu jogava futebol, até que uma lesão nas virilhas, ambas, forçou a parar com meu esporte favorito depois de quarenta anos de prática. Em certa época, era a peteca, desistida depois de sete luxações no ombro direito. Foi quando descobri que sou ambidestro. Natação também teve sua vez. Eu nadava em rios e cachoeiras, viajava para isso: as cachoeiras se fecharam pois estão dentro de propriedades hoje privadas. Nadar em piscinas nunca foi minha praia. 

E a bicicleta, sempre, o problema é que não temos mais onde pedalar. As ruas se infestaram de carros e pilotos completamente agressivos. Teve também o remo, que delícia. Dois problemas se acumularam: a trajetória de trinta minutos até o lago se transformou em uma viagem de mais de uma hora, às vezes mais, por causa do trânsito (os mesmos pilotos loucos e agressivos infestaram também a rodovia até o lago); e uma infecção nos nervos ciáticos das duas pernas foi a desculpa do ortopedista para me tirar do barco. 

Sobraram caminhada e corrida. Comecei com as caminhadas. mais lentas, agora estou a correr. O corpo vai se acostumando aos poucos, com o tempo ele começa a nos exigir o cumprimento desse ritual. E esse ritual me força a correr mesmo que chova. Lá estava eu, hoje pela manhã, com chapéu impermeável para não molhar a cabeça e os óculos (óculos molhados são uma chatice), e óculos escuros, por causa da claridade e por causa da problemática visão de perto e de longe. Chovia e uns poucos malucos, como eu, corriam sem se importar com a chuva. O lucro disso tudo está no furo do cinto. Tenho que trocar os cintos porque as calças caem, depois de cinco quilogramas abandonados nas pistas.

Até que a chuva deu um certo ar gótico na paisagem. A lagoa verde (de poluição mesmo) fica bonita, com um jeito de antigamente, sob a chuva. 


domingo, 22 de dezembro de 2013

ENFIM, ADULTO.


22/12/2013

Certa vez li, ou ouvi de alguém, que adulto é o cara que "cuida de si e do outro". Eu ficava implicado: Que outro? Quem é o outro? Qualquer outro. Enquanto não se cuida de um outro não se é adulto, de fato. Há alguns meses passo entre doze e vinte e quatro horas por semana a cuidar de meu pai. Cuidar mesmo. Dar comida, por na cama, dar banho, fazer a barba, controlar remédios, empurrar cadeira de rodas, levar ao médico, colocar o marreco para que ele faça xixi, contar histórias para alegrá-lo, limpar seu cocô, trocar a bolsa de colostomia quando ela se solta e suja tudo em volta, ouvir sua voz rouca e adivinhar os complementos das frases, etc. E ter sempre um sorriso no rosto para que o ambiente fique leve.

Eu já fiz muito isso cuidando de filhos, esses "outros" pequeninos. Só que agora cuido de um "outro" adulto que, no passado, cuidou de mim. Nunca havia conjugado dessa maneira o verbo cuidar. Nunca havia entendido tanto o verbo cuidar. 

Todas as vezes que deixo meu pai eu o agradeço por permitir que eu cuide dele e aprenda tanto. Creio que, agora sim, virei adulto. Finalmente.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

CRÔNICAS DO ÚLTIMO DIA


Hoje é o último dia do século em que os números representativos do dia, mês e ano são uma sequência numérica: dia onze do mês doze do ano treze. Nada cabalístico, na verdade, apenas curioso. Eu aproveito esse último dia sequencial do século para fazer dele o primeiro dia de um novo ciclo de minha vida. Terminei o Master Coach (falta o Psicologia Positiva para fechar a formação de coach pela empresa onde estudo o Coaching), iniciei os trabalhos necessários para receber a certificação, reúno os membros da empresa para prepararmos as atividades do ano que vem.

Como estamos em dezembro, fim de primavera e início do verão, em versões oficiais porque o verão já é fato, o dia já teve sol e chuva e falta de luz elétrica. Falta de luz temporária é comum em dias chuvosos de verão. Sempre acontece. A falta de luz pelo menos me fez lembrar que tenho uma ambição de escrever e me lembrou de me sentar e recomeçar a escrever agora (a luz até voltou). Tenho alguns projetos poéticos, um de aforismos, outro de crônicas (essa é parte), outro de livros paradidáticos, e um último sobre a cultura de coaching. Vamos em frente, então. Tudo recomeça em onze do doze do treze, o último dia sequencial do século.

Tudo parece sempre muito igual, por enquanto: a casa dentro do normal, mesmo considerando que aqui em casa ninguém é normal; o silêncio quase cotidiano ajuda a trabalhar; os pássaros visitantes do jardim cantam regularmente; as coisas espalhadas no escritório lembram as atividades do dia; a pilha de livros não lidos não diminui porque sempre compro outros. Até bom que as normalidades e anormalidades se imortalizem no momento de agora, dia onze do mês doze do ano treze. A mudança está para acontecer dentro de mim. Como disse, fecho um ciclo, começo outro.