sábado, 19 de outubro de 2013

UM SÁBADO QUALQUER?


Hoje é sábado. E daí? Não é um sábado qualquer. É o primeiro sábado do restante de minha vida. Lembrar-me-ei dele o dia inteiro. Sim, porque amanhã talvez eu o esqueça por ser apenas mais um sábado no restante de minha vida. E amanhã será domingo. Inúmeras coisas importantes acontecem (e acontecerão) neste sábado. Quer exemplos? Acordei de madrugada com um temporal quase diluviano, daqueles de encher córregos e inundar várias ruas de Belo Horizonte, com direito a relâmpagos e trovões. 

Ao levantar-me, às sete, a chuva tinha se mandado e um sol ainda tímido era visível de minha janela. Abrindo-a deparei-me com dois filhotes de rolinhas sobre o muro, meio sem rumo os dois, talvez pensando se alçariam voo ou não. Eles nasceram e crescem em minha trepadeira florida do jardim. Fiquei olhando para ver que decisão tomariam e eles também ficaram me olhando, talvez com medo, de mim ou de voar? 

Comecei a vestir-me e dei-me conta que aquelas botinas de trilheiro preferida chegaram ao fim. O couro soltou-se do solado. Que pena! Eram meus calçados favoritos haviam uns seis ou sete anos. Como gosto das botinas de percorrer trilhas já tenho outras. De couro, lindas, compradas em uma loja de apetrechos gerais à beira da estrada no caminho para Gramado, Rio Grande do Sul. Novinhas, apenas dois anos de uso, só em ocasiões solenes. Agora serão rebaixadas a botinas de uso rotineiro. 

Para calçar as meias passei nos pés aquele creme de sebo de carneiro, cheiroso, que minha mulher me presenteou para amaciar meus pés. Ela sempre reclama de meus pés, da aspereza deles no embate noturno sob os lençóis. Claro, são memórias dos tempos em que eu corria descalço. Quando criança, em Nova Lima, os sapatos eram parte da indumentária para ir à escola e à missa. Uma vez em casa eles iam repousar no armário. Deveriam durar pelo menos até o pé crescer e ainda servir aos irmãos menores. 

Resolvidos os sapatos, hora do café, ou pequeno-almoço, como os portugueses falam, uma tradução lisboeta para o petit déjeuner francês. E no pequeno-almoço, ou café da manhã, café (claro, bem preto), banana da terra cozida acompanhada de cereais, ovo quente, pão de queijo e um pedaço de bolo de chocolate. O pão de queijo e o bolo de chocolate foram trazidos por alguém que participou de um evento ontem. Eram sobras. 

Outro evento do sábado é um pouco triste. Meu belíssimo pé de cactus desabou. Cresceu muito, pesou e caiu. Ontem. Eu os havia retirado de cima de outras plantas do jardim, organizado-os em frações para transporte e descarte no dia de hoje. Apesar de sábado, dia oficial de minha preguiça, era minha intenção descartá-los hoje. No entanto o jardim molhado em demasia reforçou a preguiça do sábado. Fechei a porta para não vê-los. Fui lavar as vasilhas do pequeno almoço, ou melhor, do café da manhã, e colocar o feijão para cozinhar na panela de pressão. Aí minha mulher faz aquela fatídica pergunta quando me vê atoa. - O quê vais fazer hoje? Eu respondo com cara de obviamente. - Nada, hoje é sábado. Na verdade tenho muitas cosias a fazer: ler um texto, terminar de escrever um artigo que comecei ontem, fazer algumas compras (poucas), receber o namorado novo de minha filha que quer nos conhecer (já dormem juntos e agora quer conhecer o sogro), e ir ficar com meu velho e doente pai, num plantão de vinte e quatro horas. Mas para não perder o livre-arbítrio enfatizei: - Nada, hoje é sábado.