sábado, 26 de outubro de 2013

SOFTWARE BÁSICO


A noite correu tranquila. Mas as horas são lentas, a cura tarda, os movimentos são lerdos, o corpo desobedece. E os amigos que sumiram? Motivos há de sobra para o desânimo da vida. Eu escuto, eu observo, eu puxo conversa em tentativa, às vezes vã, de colocá-lo em outra situação que ficar vigiando os ponteiros do relógio. Sim, ele ainda usa relógios de ponteiros, marca Tissot, mais de trinta anos de uso, como que para confirmar aquelas velhas frases de que as coisas antigas são melhores. Nem sei se ainda existe essa marca de relógios de pulso. 

Quando acerto no roteiro do assunto, temos conversa para mais de metro. Se o roteiro não o interessa, tenho que catar temáticas em seus sonhos de ancião. Mas, quais sonhos de ancião são eles? Sei que o velho foi namorador, para desespero de sua velha, e onde estão guardadas essas memórias? Assuntos escondidos, não contados em público, a discrição de patriarca assim exigia. Como trazê-los à tona e à margem para serem contados na mesa grande da sala de jantar? Então falo da perda de potássio que o gosto pelas bananas suprem. E falo do magnésio, por vezes baixo, obrigado a tomar pela guela duas vezes ao dia: - Ah que coisa horrível! - escuto todos os dias. Aí vem as dores e controlamos juntos as horas dos medicamentos: - ainda falta mais de uma hora para a minha codeína, a pílula rosa salva dores.

E a velha no café da manhã sempre exclama: - nada dormi essa noite (isso porque deitou-se às nove da noite e levantou-se às sete da manhã). Ou ainda: - eu sou ruim para comer no café da manhã, aliás sou ruim para comer qualquer hora, empurro a comida. - E empurrando a comida vai mandando o café da manhã, o almoço, o lanche, o jantar, a vida que não para, o trabalho que não desaparece, a sujeira que volta na brisa da manhã. E empurrando vai cuidando de seu velho, não sem reclamar, claro, vai cuidando de sua casa que, de repente, se encheu de gente (quer dizer, de filhos). Pelo menos agora vê os filhos mais amiúde, um ao dia, outro à noite, em rodízio de cuidados. Seus hábitos mudaram, a logísitica doméstica mudou, para desespero dos dois, tão plantados em sua velhas rotinas. - Nada se encontra mais onde deixei - E, para completar o quadro, a velha está surda e o velho agora fala com dificuldade. Aquele difícil diálogo de uma vida inteira encontrou um parceiro zombeteiro no acaso da vida: ela não escuta e ele não fala. 

Que coisa a vida, mano! Não posso levá-la a sério, creio que nunca levarei. Espero as peças que ela ainda vai me pregar. E, óbvio, vou rir com as surpresas. Está no meu software básico.