terça-feira, 24 de dezembro de 2013

CORRENDO NA CHUVA


Tenho corrido seis quilômetros quase todos os dias. Grande coisa, alguns correm muito mais que isso. Certo, mas corrida não era meu esporte favorito. Aos sessenta anos tenho que manter atividades físicas por uma questão de saúde e de lucidez. Sim, para manter a lucidez e a paz interior necessária para conduzir meu cotidiano. Não que meu cotidiano seja particularmente difícil, não é isso, embora ele não seja fácil. Lidar com problemas variados e intempestivos não é uma tarefa muito simples. 

Antes eu jogava futebol, até que uma lesão nas virilhas, ambas, forçou a parar com meu esporte favorito depois de quarenta anos de prática. Em certa época, era a peteca, desistida depois de sete luxações no ombro direito. Foi quando descobri que sou ambidestro. Natação também teve sua vez. Eu nadava em rios e cachoeiras, viajava para isso: as cachoeiras se fecharam pois estão dentro de propriedades hoje privadas. Nadar em piscinas nunca foi minha praia. 

E a bicicleta, sempre, o problema é que não temos mais onde pedalar. As ruas se infestaram de carros e pilotos completamente agressivos. Teve também o remo, que delícia. Dois problemas se acumularam: a trajetória de trinta minutos até o lago se transformou em uma viagem de mais de uma hora, às vezes mais, por causa do trânsito (os mesmos pilotos loucos e agressivos infestaram também a rodovia até o lago); e uma infecção nos nervos ciáticos das duas pernas foi a desculpa do ortopedista para me tirar do barco. 

Sobraram caminhada e corrida. Comecei com as caminhadas. mais lentas, agora estou a correr. O corpo vai se acostumando aos poucos, com o tempo ele começa a nos exigir o cumprimento desse ritual. E esse ritual me força a correr mesmo que chova. Lá estava eu, hoje pela manhã, com chapéu impermeável para não molhar a cabeça e os óculos (óculos molhados são uma chatice), e óculos escuros, por causa da claridade e por causa da problemática visão de perto e de longe. Chovia e uns poucos malucos, como eu, corriam sem se importar com a chuva. O lucro disso tudo está no furo do cinto. Tenho que trocar os cintos porque as calças caem, depois de cinco quilogramas abandonados nas pistas.

Até que a chuva deu um certo ar gótico na paisagem. A lagoa verde (de poluição mesmo) fica bonita, com um jeito de antigamente, sob a chuva. 


domingo, 22 de dezembro de 2013

ENFIM, ADULTO.


22/12/2013

Certa vez li, ou ouvi de alguém, que adulto é o cara que "cuida de si e do outro". Eu ficava implicado: Que outro? Quem é o outro? Qualquer outro. Enquanto não se cuida de um outro não se é adulto, de fato. Há alguns meses passo entre doze e vinte e quatro horas por semana a cuidar de meu pai. Cuidar mesmo. Dar comida, por na cama, dar banho, fazer a barba, controlar remédios, empurrar cadeira de rodas, levar ao médico, colocar o marreco para que ele faça xixi, contar histórias para alegrá-lo, limpar seu cocô, trocar a bolsa de colostomia quando ela se solta e suja tudo em volta, ouvir sua voz rouca e adivinhar os complementos das frases, etc. E ter sempre um sorriso no rosto para que o ambiente fique leve.

Eu já fiz muito isso cuidando de filhos, esses "outros" pequeninos. Só que agora cuido de um "outro" adulto que, no passado, cuidou de mim. Nunca havia conjugado dessa maneira o verbo cuidar. Nunca havia entendido tanto o verbo cuidar. 

Todas as vezes que deixo meu pai eu o agradeço por permitir que eu cuide dele e aprenda tanto. Creio que, agora sim, virei adulto. Finalmente.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

CRÔNICAS DO ÚLTIMO DIA


Hoje é o último dia do século em que os números representativos do dia, mês e ano são uma sequência numérica: dia onze do mês doze do ano treze. Nada cabalístico, na verdade, apenas curioso. Eu aproveito esse último dia sequencial do século para fazer dele o primeiro dia de um novo ciclo de minha vida. Terminei o Master Coach (falta o Psicologia Positiva para fechar a formação de coach pela empresa onde estudo o Coaching), iniciei os trabalhos necessários para receber a certificação, reúno os membros da empresa para prepararmos as atividades do ano que vem.

Como estamos em dezembro, fim de primavera e início do verão, em versões oficiais porque o verão já é fato, o dia já teve sol e chuva e falta de luz elétrica. Falta de luz temporária é comum em dias chuvosos de verão. Sempre acontece. A falta de luz pelo menos me fez lembrar que tenho uma ambição de escrever e me lembrou de me sentar e recomeçar a escrever agora (a luz até voltou). Tenho alguns projetos poéticos, um de aforismos, outro de crônicas (essa é parte), outro de livros paradidáticos, e um último sobre a cultura de coaching. Vamos em frente, então. Tudo recomeça em onze do doze do treze, o último dia sequencial do século.

Tudo parece sempre muito igual, por enquanto: a casa dentro do normal, mesmo considerando que aqui em casa ninguém é normal; o silêncio quase cotidiano ajuda a trabalhar; os pássaros visitantes do jardim cantam regularmente; as coisas espalhadas no escritório lembram as atividades do dia; a pilha de livros não lidos não diminui porque sempre compro outros. Até bom que as normalidades e anormalidades se imortalizem no momento de agora, dia onze do mês doze do ano treze. A mudança está para acontecer dentro de mim. Como disse, fecho um ciclo, começo outro.

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

CAMBAXIRRA, MEU PÁSSARO


Meu pássaro de todos os “abrir de olhos” é uma cambaxirra. Nome que alguns consideram feio, mais feio ainda, e sem propósito, é garrincha, outro nome pelo qual as cambaxirras são conhecidas (seu terceiro nome, corruíra, é um pouco mais bonito). É um pássaro carente também de belezas e plumagens. No entanto, camarada meu, ele canta como nenhum outro pássaro, e canta sempre.
Dizem que, na origem dos mundos, as cambaxirras voavam em grupos de pássaros mais bonitos e melodiosos e imitava seus cantos. E, com eles, sugava o néctar das flores das plantas até que um dia esse grupo de pássaros parou para sugar o néctar das flores de uma pimenteira e a cambaxirra se interessou pelos frutos da pimenteira passando a comê-los. Foi assim que ela ficou com a boca vermelha e a garganta ardida, e seu canto, antes tão melodioso, ficou entrecortado de sussurros e aflição, como se estivesse a avisar os outros pássaros que tomassem cuidado com as pimenteiras. Dizem também que é por isso que as cambaxirras não voam mais com outros pássaros, ficando sempre próximo das varandas e dos muros das casas dos homens para se proteger. Não comem mais frutos e se alimentam de larvas e insetos.
Voltando à minha cambaxirra, ela me acorda todos os dias. Hoje levanto e vou para o quintal, fecho os olhos, agora acordado, só para ouvi-la. O canto da cambaxirra, tão fiel a meus amanheceres, é hoje o maior símbolo de todas as mudanças que me permiti fazer neste ano de dois mil e treze. O canto da cambaxirra é um privilégio de quem tem um quintal arborizado em plena urbis, de quem os alimenta mesmo que indiretamente através das sobras orgânicas. É privilégio também de um quintal sem gatos e outros predadores. Em meu quintal os pássaros são bem vindos, caminham lado a lado com os moradores do pedaço. E as cambaxirras dividem o espaço com sabiás, saíras, bem-te-vis, joões-de-barro, beija-flores, rolinhas, de vez em quando um pica-pau viajante, corujas vez ou outra. Tudo isso em quatrocentos metros quadrados, algumas árvores e muitas folhagens.

Pois o canto das cambaxirras é o som de minhas transformações, ele me guia cotidianamente em minhas meditações e nas dos outros que chegam em meu quintal seja para uma conversa, seja para o exercício do silêncio. Por isso os adotei, a cambaxirra e seu canto, como meus símbolos, ícones de meu novo ciclo de vida.

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

DANÇA DOS GOLFINHOS


Eu estava em uma praia pequena e deserta. Não era uma praia deserta, ela estava deserta naquele momento. O céu azul sem nuvens e o sol claro indicavam uma bela manhã que provavelmente se aqueceria, mais, provavelmente ficaria bem quente horas depois. Era manhãzinha e a brisa fresca soprando permitia sentir agradavelmente aquele clima. Eu ouvia uma voz feminina quente e doce tão próxima de mim, parecia falar dentro de meu cérebro, ou faria parte de meus pensamentos e eu ainda desconhecia. Nem sei se havia uma voz de fato, ou se aquela voz pertencia a meu inconsciente naquele momento. Mas ela me dizia para caminhar na areia e sentir meus pés afundando. Posteriormente aquela voz me induziu a entrar no mar, e sentir a água do mar, morna, subindo pelas minhas pernas e molhando todo o meu corpo. Convidou-me para um mergulho. Como sabia que eu adoro mergulhar, que sou bicho da água, espécie de anfíbio moderno. Achei o convite interessante e fui cada vez mais fundo no mar.
Golfinhos apareceram. Pareciam dançar na minha frente. Pareciam me convidar para uma dança. Entrei naquela valsa oceânica e dancei com eles. A voz em meu inconsciente me dizia: dance, dance, deixe-se levar. E eu deixei-me levar. Os golfinhos pareciam conversar comigo, avoz agora era deles: o que queres? Que mensagem quer que levemos ao rei dos mares? Que mensagem queres receber do rei dos mares? E eu pedi que levassem meu pai com eles, que o levassem em paz, para dançar com eles. Sim, meu pai adora dançar e, agora, em sua cadeira de rodas, ele não dança mais. No fundo do mar, na dança dos golfinhos, ele dançaria, ele flutuaria no mar sem sua cadeira de rodas. Seria bonito ver meu pai dançar mais uma vez. E eu vi. Ele estava lá, dançando como antes.
Foi então que ouvi a voz me dizer: volte, você está no mar, no fundo do mar e precisa voltar à terra. Eu voltei. Saí da água e chorei de alívio, de alegria por ver meu pai dançar sorrindo com os golfinhos. Eu o deixei lá, feliz. A voz se calou. E voltei para terra. Sem meu pai.


CAMINHADA NO ESCURO


Meus olhos estavam vendados com uma tarja negra. Fui conduzido a colocar as mãos nos ombros de uma pessoa, confiar nela e segui-la. Coloquei as mãos em ombros macios indicadores de uma mulher alta e volumosa, mas nem tanto. De início, a sensação de caminhar no escuro seguindo alguém, como um cego, foi muito estranha. Depois me acostumei. Principalmente porque haviam pessoas nos guiando nos degraus e nos obstáculos. A pessoa em minha frente se portou como uma parceira. Ela também tinha seus olhos vendados e segurava os ombros de outra pessoa à sua frente. E aparava uma de minhas mãos para que eu não me desconectasse dela. Em meus ombros pousavam duas mãos de alguém que apenas identifiquei como sendo do sexo masculino pelo seu hálito, porque suas mãos eram delicadas sem ser femininas. Depois de uma volta pelo jardim (senti a grama nos pés) fomos introduzidos em uma sala onde tocava uma música suave e uma voz nos comandava para caminhar pela sala até encontrar uma outra pessoa, tocá-la, abraçá-la e falar em seu ouvido: o que procura e quais são seus medos? A pessoa que eu encontrei era uma mulher, cheinha de corpo, gostosa de abraçar, voz alegre e dissemos um para o outro que não tínhamos medo.


Em seguida nos desconectamos, procuramos uma segunda pessoa e repetimos o processo. Agora era uma mulher pequena e magra, também gostosa de abraçar. Depois uma terceira pessoa, desta vez um homem forte. E já quebrei um paradigma na primeira noite. Abraçar um homem desconhecido com carinho de velho amigo, mas ele se mostrava tão disponível que venci meu machismo na hora! Uma mulher também vendada se aproximou de nós e nos abraçou. Ficamos os três ali, em silêncio e abraçados até que fomos orientados a tirar nossas vendas e nos conhecermos. Algo muito estranho aconteceu. Aquele abraço de olhos vendados nos aproximou a todos. Quem seriam as duas primeiras pessoas? Isso nos torna cúmplices de todos imediatamente. Corri os olhos pela sala, após retirarmos as vendas e não identifiquei as duas mulheres que me abraçaram. Só tempos depois, com outros abraços (abraços tornaram-se linguagens), consegui identificar as lindas mulheres, agora amigas. 

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

MÃOS GRANDES


Sempre que olho para minhas mãos e dedos grandes me interrogo se não desperdicei minha vida. Não seriam elas talhadas para fazer coisas interessantes? Como jogar tênis, por exemplo, embora jogar tênis dependa mais dos pés que das mãos. Penso então que poderia ser marceneiro, escultor, entalhador, massagista, estivador, pianista, percursionista, malabarista, açougueiro, padeiro e muitas outras profissões possíveis onde mãos grandes teriam boa serventia. Fui ser professor. Essas mãos e dedos grandes empunhando um ridículo giz (hoje se usa pincel), ou teclando os laptops e tablets e errando as teclas cada vez menores não combinam.

Aí lembro-me de duas coisas. Não existe uma relação determinada entre forma e função, mãos grandes ou pequenas podem fazer qualquer coisa. Basta achar o jeito. E que o principal articulador da relação forma-função é o cérebro e ele não se importa com tamanhos de mãos ou de pés. Grande ou pequeno é o talento adquirido. Aí não me sinto nem disforme nem disfuncional. Sou um bom professor de mãos e dedos grandes.


PASSADO E SEUS ECOS


“Não perca tempo correndo atrás daquilo que perdeu no passado. Enquanto isso você pode perdendo coisas importantes no presente”. Essa frase é dita em um filme dirigido pelos ótimos irmãos Cohen. E faz pensar. Ela tem múltiplas interpretações como todas as frases filosóficas, como todos os aforismos, desde Sêneca. Cada um faz uma leitura. Dependendo de sua posição e daquilo que pleiteia.  Que interpretação dar quando aquilo que procura está no presente, influenciará seu futuro, e tem raízes no passado? Ou tudo não é assim? Todo o presente tem raízes no passado. E o passado pode não ser muito bonito. Mas passou. Não volta. Apenas seus ecos ficam.

Em se tratando de presente, todos os fatos, que são fatos, portanto inegáveis, tem sempre mais de uma interpretação possível, e todas as interpretações tem suas lógicas. As moedas tem duas faces, a lua tem um lado visível e outro sempre escondido, cada um que vê uma cena a conta de seu jeito, cada um que vive uma história tem seu olhar diferente para a mesma.

Duro é reviver o mesmo problema anos depois e perceber que a moral das pessoas envolvidas não mudou: vítimas ontem, vítimas hoje. Fui recuperar algo que deixei no passado por bobeira, imaturidade e sentimento de culpa, esbarrei nas mesmas pessoas com as mesmas interpretações lineares e, mais uma vez, perdi pessoas queridas e amadas. Duro recuperar? Conto apenas com a possível capacidade delas de olharem através das fendas da história, de perceberem as nuances dos fatos e saírem de suas linhas retas, sem fazer julgamentos.


Mas como é difícil para as pessoas não fazerem julgamentos! Como é difícil não condenar o sujeito simplesmente porque não concordam com seus atos! Não julgamento é uma bela atitude que aprendi a duras penas. Minha função de hoje o exige para que seja bem sucedida. Quanto a recuperar as pessoas queridas, não estou otimista. Elas já fizeram seus julgamentos.

domingo, 10 de novembro de 2013

DISTÂNCIAS E PROXIMIDADES


Distâncias são sempre relativas. E sempre que nos afastamos há algo que nos aproxima do ponto de origem, mesmo que distante. Minas Gerais nunca esteve tão próximo de mim que quando morei no exterior. Dizem os mineiros que levamos a terra junto em nossas viagens. Uma terra que gruda no fundo dos bolsos.

Levamos os sabores, por exemplo. Do pão de queijo e da broa de fubá, sem dúvida. Também a música. Levamos o Clube da Esquina inteiro na mochila. Levamos a viola caipira e a moda de viola dos mucuris e jequitinhonhas das gerais. Levamos os congados e os candombes. Mineiro é assim, talvez sejamos todos assim. Viajamos e levamos nos bolsos nossa ancestralidade, nossa cultura. É quando o longe fica perto. E vamos agregando outros valores. Uma coisa que fazemos bem também é degustar a cultura alheia e nos apropriarmos dela. É a nossa antropofagicidade, elemento presente na cultura brasileira.

Certa vez um jovem franco-libanês habitante de Marseille, no sul da França, veio ao Brasil encontrar e conhecer seus primos brasileiros-libaneses. Assustou-o o fato de que seus primos não falavam árabe. Eram mais brasileiros que libaneses. Nossa antropofágica cultura se alimenta das outras culturas. Nesse movimento inverso a distância os afastou em vez de aproximar.


Distâncias e proximidades são relativas.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

ESCOLHAS


Ok, temos sempre que fazer escolhas. No entanto, criar é muito mais que fazer as escolhas certas. Criar é fruto de um processo que nos individualiza no mundo. Criar é o contraponto a um outro processo, que também envolve escolhas, o de pertencimento ao mundo. Pertencimento a um lugar, pertencimento a um grupo ou clã, pertencimento a um modo de vida, pertencimento a uma ideologia. Pertencimento e individualização carregam aquela tensão polarizada que nos define como parte de alguma coisa, mas uma parte muito particular daquela coisa. 

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

DESENTENDIMENTOS


Desentendimentos com familiares sempre são desagradáveis e pesam muito, principalmente quando você já tem mais de sessenta e acha que o tempo de recuperação é sempre menor que antes. Pior ainda quando você acha que tem suas razões e não adianta fazer muita coisa porque qualquer coisa que fizer estará errado, por princípio. Principalmente quando a outra parte faz julgamentos passionais de processos que podem ser nominados de normais e simples. E a pressão sobe. A minha arterial hoje pulou para cento e setenta por cento e um. Minha pressão sempre foi baixa, cento e dez por setenta, máximo de cento e vinte por oitenta. O estresse dos últimos tempos a fez subir gradativamente chegando a esse ápice hoje. Mudei de patamar estatístico. Cardiologista à vista, consulta para segunda próxima.
Hora, então, de me recolher ao silêncio, de esperar que outras luzes me iluminem, pois as atuais encontram-se um pouco ofuscadas. Hora de me preparar para pequenas e grandes perdas, quando eu achava que ser avô compensaria todos as demais perdas da vida, tipo um que se vai, outro que ocupa seu lugar. Mas não é assim. A vida não é tão direta, as respostas nunca estão na ponta da língua, as frustrações contidas nos fazem explodir. E a pressão sobe.
O ativista ambientalista John Francis ficou dezessete anos em silêncio, sem pronunciar uma palavra com ninguém. O dia em que resolveu voltar a falar assustou-se com a própria voz. Não falou nem mesmo com seus familiares e disse que aprendeu muito. Aprendeu o verdadeiro sentido da comunicação, por exemplo. Eu não conseguiria ficar sem falar, acho a fala fundamental, mas bem que eu gostaria de falar menos. E passo, de agora em diante, a me empenhar para isso. Que o silêncio me regenere de alguma coisa. Psiu.


terça-feira, 5 de novembro de 2013

CINCO MINUTOS


Cinco minutos no jardim, em completo silêncio, sem pensar em absolutamente nada, respirando fundo. De uns tempos para cá, começo meus dias assim. Apenas escuto. Pios de pássaros, passos de lagartos, canto de cigarras, ruídos de ventos, barulho de carros nas ruas. Nenhum vizinho ligou o rádio ou colocou para tocar aquele CD novinho de música sertaneja, ou funck, ou axé, ou pagode. Maravilha! Agora estou pronto. Primeiro, relato esse fato acontecido, depois vou ver quem ousou me enviar um e-mail durante a noite. Ninguém. Maravilha de novo!

As portas do dia se abrem para que eu deixe entrar o que eu queira, ou quem eu queira que entre. Embora a agenda só cresça, o dia tem apenas dezoito horas (seis horas de sono não contam). Considerando os tempos de pausa, umas três a quatro horas distribuídas nestas dezoito, sobram-me quatorze a quinze horas para as atividades propostas e outras que por ventura surjam fora da agenda e que seja imprescindível que eu as execute. Então, mãos à obra, uma hora de pausa já se foi.

Em tempo, escrever uma crônica estava na agenda.


SURDOS DE TANTO FALAR


Pode ser engraçado, mas parece que pessoas que falam demais ficam surdas. De tanto escutarem a própria voz deixam de ouvir os ruídos da vizinhança, os barulhos da rua, os sons do jardim. Deixam de ouvir a torneira pingando e as vozes de outras pessoas. Tenho parentes assim. Acreditam que não escutam mais, visitam otorrinos que lhes vendem aparelhos de audição bem caros e eles continuam não ouvindo. Reclamam do aparelho, trocam por outro teoricamente mais performante (e mais caro) e continuam não ouvindo. Finalmente admitem que são surdos e desistem de ouvir.
Fiz um teste com um desses parentes dias atrás. Ele estava aflito, cheio de angústias. Eu o sentei no banco do jardim, exigi que se calasse por cinco minutos e que respirasse fundo e devagar. À medida que ele foi respirando pedi que fechasse os olhos e escutasse os sons do jardim. Um sabiá e uma cambaxirra cantavam nos arvoredos não muito longe. Perguntei se ele escutava o som dos dois pássaros, ele disse que sim. Pedi que me apontasse com o dedo a direção de onde vinha os cantos dos dois e ele apontou corretamente. Ele abriu os olhos e confirmou visualmente a presença dos dois pássaros e perguntou o que eu tinha feito para ele escutar de novo pois estava sem o aparelho auditivo. Quando eu respondi que ele não era surdo, apenas não parava de falar e não prestava atenção no entorno, ele se surpreendeu.

Tudo que precisamos para nos encontrarmos no mundo é escutar a nós mesmos e escutar nosso entorno. Saber onde estamos e para onde vamos. Escutar é o mais importante sentido para aprendermos e comunicarmos com o mundo. A boa comunicação depende de uma boa escuta mútua. 

sábado, 2 de novembro de 2013

CENTROAVANTES E CRAQUES



O futebol está tão medíocre que é difícil encontrar um novo craque nesse lamaçal de cabeças de bagre. Os times continuam fazendo gols, claro. Os jogadores tem preparo físico, correm como loucos, dão cacetadas como se estivessem em guerra e o adversário quisessem lhes comer as tripas fritas no jantar. Um festival de horrores! 

Onde está aquela cadência, aquela malemolência do belo da arte? A ginga, o drible, e o mais importante, a percepção do lance antes que ele aconteça? Onde está aquele centroavante que se antecipa ao lançamento e a bola chega mansamente a seus pés e a ele basta empurrá-la com sutileza e doçura para o gol? 

Citarei aqueles que vi jogar e, claro, deixarei fora de minha lista alguns. Não vou falar de Pelé e Tostão, dois fora de série que não eram centroavantes, eram pontas de lança (para usar uma denominação de meus tempos de garoto). Hoje os denominamos meias-armadores. Mas centroavantes como Vavá, que fez muitos gols pelos clubes e pela seleção brasileira, foram poucos. Outro era Claudio Adão, que sabia se colocar na área como ninguém. Dario Maravilha não tinha doçura, mas muita sutileza. Reinaldo foi o maior deles. Se tivesse físico teria assombrado o mundo. Seus joelhos não aguentaram. Hoje teria feito muita musculação e talvez aguentasse mais um pouco. Depois dele apenas Romário, o último dos mohicanos, e mais ninguém. Careca quase chegou lá, Ronaldo Fenômeno aliava inteligência e força e também chegou perto. Faltou-lhe a doçura de Romário. Recentemente vi lampejos de vivacidade em Fred, já maduro. No entanto, bobagens dele camuflam seus bons momentos. Estamos, pois, à espera desse centroavante. Alguém diferente e que faça toda a diferença. 

FAZER DIFERENTE


Eu quero apenas fazer diferente. Nunca fui especialista em seguir regras, de fato. Quando eu escuto os discursos de pessoas que se dizem especialistas em sucesso, penso logo que se tratam de pessoas sem talento que seguem as regras e ganham muito dinheiro para isso. Porque basta seguir as regras para se ganhar dinheiro. Não é o dinheiro que me interessa. Nem as regras. O que me interessa é fazer diferente. Se eu tiver que ser reconhecido por alguma coisa algum dia, gostaria que fosse por fazer diferente.

Talvez eu tenha seguido regras demais e tenha ficado no meio do caminho. Talvez eu não tenha sido ou feito diferente nos momentos em que deveria sê-lo ou fazê-lo. Talvez tenha me faltado aquele bom nariz para sentir o momento exato para ser ou fazer diferente. E tenha sido apenas meio diferente, não o suficiente para ser marcado como o diferente. Bom, o tempo passou, embora eu não pense que tenha perdido tempo, tempo não se perde, apenas passou. Agora eu tenho todas as possibilidades do mundo para ser ou fazer diferente. Minha hora está chegando?


Levo a sério uma frase de um filósofo francês, Serge Feaucheraud, que, quando vê uma obra de arte, pensa: eu poderia ter feito isso, só que eu faria diferente. Eu diria, parafraseando Feaucheraud: tenho talento para fazer qualquer coisa, mas faria diferente, tão diferente que ninguém acreditaria. Hora de mostrar minhas diferenças. Sou e faço diferente.

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

DIA DE ENCONTROS


Tudo acontece nos movimentos, eu sempre o digo. Hoje saí cedo de casa, tinha um encontro com meu filho aniversariante. Ganhei uma carona até o centro da cidade, próximo ao Mercado Central, e subi a pé até o local do encontro, na Praça da Liberdade. No caminho dois outros encontros memoráveis. O primeiro com uma casa de pão de queijo, na rua Guajajaras entre rua São Paulo e rua Rio de Janeiro. Para mim um dos melhores pães de queijo de Belo Horizonte. Descobri essa casa há uns cinco anos e sempre que me encontro nas imediações até lá vou comer pelo menos um pão de queijo. Um real e dez centavos de gostosura, super barato. E como é uma região central de comércio e com muitas escolas próximas, o local está sempre cheio. O café é cortesia da casa e aí mora o perigo: o café é horrível. O modo de fazer café em que se coloca o pó na água para ferver junto e depois passar no coador de pano é um modo antigo da região das minas gerais mas, convenhamos, pó cozido não dá. O melhor café continua sendo aquele em que o vapor da água passa pelo pó e lhe apropria a cor e o aroma. Ou a água fervendo passa rapidamente pelo pó, sem cozinhá-lo. 

O segundo encontro foi com o Domingos, colega dos tempos de universidade, astrofísico. Havia muito tempo que não nos víamos e dez minutos de prosa foram instantes maravilhosos de rememorar e rir das muitas situações que vivemos juntos. Dois sessentões, e de que falamos, principalmente? Sobre os esportes que praticamos: eu, corrida e ciclismo; ele, caminhadas e patinação. Por isso estamos jovens e saudáveis. O assunto foi interrompido porque eu tinha um encontro na praça, ao lado dos quatro escritores de Minas, e não seria legal atrasar-me. Tratava-se, pois, de meu filho, aniversariante no mesmo dia que Carlos Drumond de Andrade, um de meus poetas preferidos.


terça-feira, 29 de outubro de 2013

PÁSSAROS, AINDA


Minha relação com pássaros é quase corporal. Eu faço questão de escutá-los todos os dias. Em meu pequeno latifúndio de quatrocentos metros quadrados (um pouco menos pois a área constrruída ocupa uns cento e vinte metros quadrados) moram sabiás, bentivis, cambaxirras, saíras, beija-flores e um joão-de-barro no poste da fronteira. E eles cantam. Às vezes todos juntos. O mais fiel á uma pequena cambaxirra que inicia sua ópera às cinco horas da matina e só para por volta de dez horas quando o calor se torna mais forte. Nunca vi cantar tanto e tão bonito! O sabiá começou a cantar esta semana, depois das aulas de voo de seus filhotes (sentiu-se livre de sua obrigação de criar?). O canto do sabiá também é maravilhoso. Aprendi a gostar até dos guinchos estridentes das saracuras que passeiam pelo ribeirinho em frente, bem cedinho a nos acordar.

É essencial ouvir os pássaros. Os cantos agudos deles são os primeiros que perdemos quando começamos a ficar surdos. Se os escutamos ainda não estamos nos ensurdecendo. Bom exercício de presença e auto conhecimento cotidiano. Mais uma razão para trabalharmos pela não extinção dos pássaros. Eles nos ajudam a nos reconhecermos como seres humanos. Cantam pela nossa humanidade. E escutar os pássaros é muito melhor que axé, funck e sertanejo dos vizinhos, esses sim, ruídos infernais a nos enlouquecer.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

PERSEGUIÇÃO DE SABIÁS


Um dos filhotes de sabiá de meu quintal alçou seu primeiro voo essa manhã. Eu o vi no jardim, em cima de um toco. Voou rasteiro para mais longe assim que me viu tão perto. Escondeu-se em algum lugar. Os papais sabiás, dos galhos do abacateiro, começaram a gritar. Como o filhote se escondeu e não estava visível para eles papais sabiás pensaram que ele estivesse comigo e começaram a me perseguir. Cena inesperada. Um casal de sabiás me perseguem acreditando que eu teria raptado o filhote deles. Voltei então ao local onde o filhote se escondeu e mexi com ele para que papais sabiás soubessem onde ele estava e me deixassem em paz. Foi o que aconteceu. 

Hoje não é dia de mexer no jardim. Hoje é dia de aula de voo para filhotes sabiás e eu não estou matriculado neste curso. Hoje é dia de sabiás ficarem tranquilos sem um humano por perto para lhes estressar. Entreguei-lhes o jardim, entrei em casa e fechei a porta.

sábado, 26 de outubro de 2013

SOFTWARE BÁSICO


A noite correu tranquila. Mas as horas são lentas, a cura tarda, os movimentos são lerdos, o corpo desobedece. E os amigos que sumiram? Motivos há de sobra para o desânimo da vida. Eu escuto, eu observo, eu puxo conversa em tentativa, às vezes vã, de colocá-lo em outra situação que ficar vigiando os ponteiros do relógio. Sim, ele ainda usa relógios de ponteiros, marca Tissot, mais de trinta anos de uso, como que para confirmar aquelas velhas frases de que as coisas antigas são melhores. Nem sei se ainda existe essa marca de relógios de pulso. 

Quando acerto no roteiro do assunto, temos conversa para mais de metro. Se o roteiro não o interessa, tenho que catar temáticas em seus sonhos de ancião. Mas, quais sonhos de ancião são eles? Sei que o velho foi namorador, para desespero de sua velha, e onde estão guardadas essas memórias? Assuntos escondidos, não contados em público, a discrição de patriarca assim exigia. Como trazê-los à tona e à margem para serem contados na mesa grande da sala de jantar? Então falo da perda de potássio que o gosto pelas bananas suprem. E falo do magnésio, por vezes baixo, obrigado a tomar pela guela duas vezes ao dia: - Ah que coisa horrível! - escuto todos os dias. Aí vem as dores e controlamos juntos as horas dos medicamentos: - ainda falta mais de uma hora para a minha codeína, a pílula rosa salva dores.

E a velha no café da manhã sempre exclama: - nada dormi essa noite (isso porque deitou-se às nove da noite e levantou-se às sete da manhã). Ou ainda: - eu sou ruim para comer no café da manhã, aliás sou ruim para comer qualquer hora, empurro a comida. - E empurrando a comida vai mandando o café da manhã, o almoço, o lanche, o jantar, a vida que não para, o trabalho que não desaparece, a sujeira que volta na brisa da manhã. E empurrando vai cuidando de seu velho, não sem reclamar, claro, vai cuidando de sua casa que, de repente, se encheu de gente (quer dizer, de filhos). Pelo menos agora vê os filhos mais amiúde, um ao dia, outro à noite, em rodízio de cuidados. Seus hábitos mudaram, a logísitica doméstica mudou, para desespero dos dois, tão plantados em sua velhas rotinas. - Nada se encontra mais onde deixei - E, para completar o quadro, a velha está surda e o velho agora fala com dificuldade. Aquele difícil diálogo de uma vida inteira encontrou um parceiro zombeteiro no acaso da vida: ela não escuta e ele não fala. 

Que coisa a vida, mano! Não posso levá-la a sério, creio que nunca levarei. Espero as peças que ela ainda vai me pregar. E, óbvio, vou rir com as surpresas. Está no meu software básico.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

PRESERVAR O MARACANÃ?


Em meio ao espólio da mineração Anglo Gold, antiga Morro Velho, em Nova lima, tem uma bela estrutura metálica conhecida como Maracanã. Trata-se de uma estrutura construída em um local onde se furaria um poço artesiano para abastecer casas e galpões de trabalho no interior da indústria mineradora. Por alguma razão o empreendimento foi abandonado e a estrutura lá permanece há anos. 

E porque Maracanã? Consta que aves chamadas maracanãs, parecidas com araras ou grandes periquitos, sobrevoavam constantemente a região e pousavam ruidosamente sobre a estrutura. E os operários passaram a denominar a estrutura com o nome das aves. Os maracanãs se foram, estão quase extintos hoje, a estrutura ficou.

O Maracanã faz parte de um conjunto de construções, algumas muito antigas, no pátio da mineradora, todas elas correndo o risco de demolição porque existe um projeto de transformação do local em um grande investimento imobiliário, demolindo a história de um trabalho que sempre foi um marco cultural da cidade de Nova Lima. Demolindo junto a própria história da mineradora. Demolição de valores parece ser o marco da renovação da história, repetindo as cenas de invasão de bárbaros às civilizações e suas culturas, desde tempos imemoriais. Os novos bárbaros parecem travestidos de empresários da construção civil, com seus caixotes de múltiplos andares.

Com a palavra o poder público da cidade de Nova Lima que pretende intervir no processo e preservar como patrimônio cultural da cidade boa parte dos galpões e construções naquele espaço, aqueles que seriam memória, ainda viva, do trabalho e do trabalhador na antiga mineradora. Óbvio que tudo passa pela pressão popular, mais importante que a pressão de algumas pessoas. E o Maracanã está entre essas construções que correm o risco de serem tombadas ao chão em vez de serem tombadas e preservadas pelo patrimônio municipal. Preservar o Maracanã é preciso.

Assim como o Maracanã novalimense, o estádio do Maracanã do Rio de Janeiro deve seu nome às aves que lá gorgeiam (ainda?): maracanã-verdadeira, periquitão-maracanã, maracanã-malhada, maracanã-guaçu (espécie outrora existente às margens do Rio Maracanã, na cidade do Rio de Janeiro), maracanã-nobre (essa já extinta). Já que não existem mais tantos maracanãs na cidade, preservemos, pois, nosso Maracanã.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

SOBRE VIAGENS E PÃO DE QUEIJO


Meu pai comprava queijos na banca do Ronaldo, no Mercado Central. Queijo canastra meia cura, o melhor queijo do mundo. Comprava queijo e cachaça. Havia muitos anos. Com sua doença incumbiu-me de fazer por ele a visita semanal ao Mercado Central para a compra do queijo. Cheguei, apresentei-me, todos perguntaram por ele. Agora é rotina. - Como vai Sr. Francisco? O queijo que ele gosta é desse aqui, ó! Aí compro dois: um para ele, outro para mim. Em casa de mineiro não falta queijo Minas, Canastra, do Serro, Frescal, etc. 

Uma amiga francesa disse-me que na França tem pelo menos um tipo de queijo diferente para cada dia do ano. Retruquei docemente: vocês não tem o queijo Minas. Quando ela veio me visitar em Minas Gerais fiz questão de apresentá-la ao nosso canastra meia cura. Ela se curvou à realidade. Realmente, esse é ímpar. Adorou também nosso pão de queijo. E sem queijo Minas não tem pão de queijo.

Antes de viajar para a França, para passar uma boa temporada, parei em um café do centro da cidade e pedi aquela dupla infernal, sem a qual, nós mineiros não sobreviveríamos ao dilúvio: café e pão de queijo. Saboreei lentamente o pão de queijo, com cara de bom amante, sem saber quando se repetiria a cena. A meu lado sentou-se uma figura, pediu a mesma coisa, e, também silenciosamente, passou a saborear seu café-pão-de-queijo (a essa altura uma coisa só). Sem que eu sequer olhasse para ele, e acho que ele também não olhou para mim, quebrou o silêncio do ritual dizendo: - quando morei em Los Ângeles o que mais me fez falta foi o pão de queijo -. Filho da mãe! Tinha que falar isso justo naquele momento? Tinha que antecipar tão dramaticamente o que eu já suspeitava?

Mas, como bons mineiros, essa foi a deixa para um longo papo sobre viagens e pão de queijo (pão de queijo não tem plural). Claro que nunca mais vi a figura. Viajei muito e tentei fazer pão de queijo em Paris. Comprava polvilho em um mercado africano no 14ème e usava queijo Ementhal, suíço, queijo de leite de vacas de montanha, que sequer se aproxima do nosso queijo Minas e nunca matou a saudade do pão de queijo mineiro. Nem do pão de queijo nem da música de Minas.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

ACONTECIMENTOS SINGULARES


Vinte e seis horas como cuidador de idoso, assistindo toda sua dificuldade, toda a dor do ser humano em fase final de sua vida, ainda mais quando esse ser humano é uma pessoa querida, tem sido muito duro. Penso que me sinto forte, emocionalmente tranquilo, e preparado para vivenciar o momento de sua morte. Mesmo assim é absolutamente difícil e desgastante este momento. Junte-se a isto todos os demais problemas cotidianos. Vida e morte, tristeza e alegria, são apenas dois lados da mesma moeda, Vida e morte, alegria e tristreza, não são antagônicos. Nascimento e morte são vida, tristeza e alegria são sentimentos. E como estou no olho do furacão tento aprender com esse jogo de moedas, cara ou coroa, preto ou vermelho. Tento viver o hoje, aprendo a me isolar do tempo, sabedorias que o tempo traz. Hoje me pergunto porque eu fui sempre tão jovem? Porque não me envelheci precocemente? Minha disputa com o tempo deixou-me pra trás nesta corrida. No entanto, chega o dia em que ...

Ir ao centro de Belo Horizonte de carro é fria. Mais de uma hora no volante para percorrer uns dez quilômetros, mesmo tempo que o ônibus. Escolhi o transporte coletivo e li dois contos de Tomás González (El lejano amor de los extraños), presente do Daniel Hermelin, meu amigo de Medellín. Ótima leitura. Esse é um bom conselho: pegue o ônibus e leia um conto. 

Estou ainda atrás de acontecimentos singulares, de fontes de narrativas.

domingo, 20 de outubro de 2013

HORÁRIO DE VERÃO


Perdemos uma hora essa noite. Começou o horário de verão (mas é primavera) e o intervalo entre 23h59min e 01h00min foi para o buraco negro. Um lapso de tempo que a Teoria da Relatividade não explica. Eu esperei para ver. E a operadora do celular alterou o horário automaticamente e à minha revelia. Quantas coisas são feitas à nossa revelia e alteram profundamente nossas vidas? Decisões de um grupo de pessoas agindo sobre o coletivo. Tá certo, economizar energia elétrica é uma razão importante, como físico eu até defendo. Segundo os executivos do ministério da energia serão quatrocentos milhões de reais de economia. Mas, e o gasto desnecessário em outras áreas? E o dinheiro mal empregado em obras superfaturadas? E o rolo da corrupção em todas as esferas governamentais? E o desperdício de alimentos no transporte, no armazenamento e no consumo nosso de cada dia? Tudo também à nossa revelia e pouco fazemos para alterar esse quadro sombrio.

Enfim, tive uma hora a menos de vivências hoje, mas estou acordado e atento. Essa noite e este domingo cuido de meu velho e doente pai que precisa de cuidados especiais. Ele está muito fraco e movimenta-se da cama para a cadeira de rodas e vice-versa. Eu, os manos e as manas tentamos dar-lhe o máximo de conforto e atenção. Leva para lá, traz para cá, remédios na hora certa (que hora certa se o verão que ainda não chegou mudou as horas?), alimentação bem cuidada, etc. Plantão de vinte e quatro horas como cuidador de idoso. Minha cota atual de trabalho voluntário. O lado positivo de tudo isso é que eu tenho um grande prazer em fazê-lo. Porque a companhia de meu pai (e de minha mãe também, óbvio) é uma grande honra para mim. Com o passar dos anos nossa relação pai-filho se transformou em relação de amigos. Antes de sua doença eu vinha a Nova Lima quase todos os fins de semana tomar uma cachacinha com ele e comer os tira-gostos dela. Hoje continuo vindo cuidar dos dois. Agora não tomo mais a cachacinha, primeiro porque perdi a companhia etílica, segundo porque devo guardar a lucidez e os reflexos para cuidar deles. O bom humor e o agradecimento dos velhos não tem preço. Esse é meu grande aprendizado atual. Um teste para minha paciência, um teste para minha arrogância, um aprendizado para o resto de minha vida.

As acerolas do quintal de meus pais começaram a amadurecer, tardias como a chuva. As flores de minha mãe continuam bonitas como a primavera. Os sabiás e cambaxirras, todos com filhotes novos, cantam como nunca, ou como sempre. Vinicius de Moraes teria cem anos se vivo ainda estivesse, eterno mais que durou. É a vida, meu irmão, que lateja como dormência nos pés, provocada pelos nervos ciáticos.

sábado, 19 de outubro de 2013

UM SÁBADO QUALQUER?


Hoje é sábado. E daí? Não é um sábado qualquer. É o primeiro sábado do restante de minha vida. Lembrar-me-ei dele o dia inteiro. Sim, porque amanhã talvez eu o esqueça por ser apenas mais um sábado no restante de minha vida. E amanhã será domingo. Inúmeras coisas importantes acontecem (e acontecerão) neste sábado. Quer exemplos? Acordei de madrugada com um temporal quase diluviano, daqueles de encher córregos e inundar várias ruas de Belo Horizonte, com direito a relâmpagos e trovões. 

Ao levantar-me, às sete, a chuva tinha se mandado e um sol ainda tímido era visível de minha janela. Abrindo-a deparei-me com dois filhotes de rolinhas sobre o muro, meio sem rumo os dois, talvez pensando se alçariam voo ou não. Eles nasceram e crescem em minha trepadeira florida do jardim. Fiquei olhando para ver que decisão tomariam e eles também ficaram me olhando, talvez com medo, de mim ou de voar? 

Comecei a vestir-me e dei-me conta que aquelas botinas de trilheiro preferida chegaram ao fim. O couro soltou-se do solado. Que pena! Eram meus calçados favoritos haviam uns seis ou sete anos. Como gosto das botinas de percorrer trilhas já tenho outras. De couro, lindas, compradas em uma loja de apetrechos gerais à beira da estrada no caminho para Gramado, Rio Grande do Sul. Novinhas, apenas dois anos de uso, só em ocasiões solenes. Agora serão rebaixadas a botinas de uso rotineiro. 

Para calçar as meias passei nos pés aquele creme de sebo de carneiro, cheiroso, que minha mulher me presenteou para amaciar meus pés. Ela sempre reclama de meus pés, da aspereza deles no embate noturno sob os lençóis. Claro, são memórias dos tempos em que eu corria descalço. Quando criança, em Nova Lima, os sapatos eram parte da indumentária para ir à escola e à missa. Uma vez em casa eles iam repousar no armário. Deveriam durar pelo menos até o pé crescer e ainda servir aos irmãos menores. 

Resolvidos os sapatos, hora do café, ou pequeno-almoço, como os portugueses falam, uma tradução lisboeta para o petit déjeuner francês. E no pequeno-almoço, ou café da manhã, café (claro, bem preto), banana da terra cozida acompanhada de cereais, ovo quente, pão de queijo e um pedaço de bolo de chocolate. O pão de queijo e o bolo de chocolate foram trazidos por alguém que participou de um evento ontem. Eram sobras. 

Outro evento do sábado é um pouco triste. Meu belíssimo pé de cactus desabou. Cresceu muito, pesou e caiu. Ontem. Eu os havia retirado de cima de outras plantas do jardim, organizado-os em frações para transporte e descarte no dia de hoje. Apesar de sábado, dia oficial de minha preguiça, era minha intenção descartá-los hoje. No entanto o jardim molhado em demasia reforçou a preguiça do sábado. Fechei a porta para não vê-los. Fui lavar as vasilhas do pequeno almoço, ou melhor, do café da manhã, e colocar o feijão para cozinhar na panela de pressão. Aí minha mulher faz aquela fatídica pergunta quando me vê atoa. - O quê vais fazer hoje? Eu respondo com cara de obviamente. - Nada, hoje é sábado. Na verdade tenho muitas cosias a fazer: ler um texto, terminar de escrever um artigo que comecei ontem, fazer algumas compras (poucas), receber o namorado novo de minha filha que quer nos conhecer (já dormem juntos e agora quer conhecer o sogro), e ir ficar com meu velho e doente pai, num plantão de vinte e quatro horas. Mas para não perder o livre-arbítrio enfatizei: - Nada, hoje é sábado.